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Quarta-feira, Setembro 03, 2008




Ela foi uma das personalidades mais destacadas da literatura portuguesa das últimas décadas. Sua obra foi marcada por uma atitude de rebeldia diante de quaisquer poderes instituídos, fazendo-se eco de um grito de revolta que prezou sobretudo a liberdade dos poetas. Versátil, dedicou-se a vários gêneros, além de marcar a sua presença na política e na imprensa.

O Livro dos Amantes
I



Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.


Natália de Oliveira Correia nasceu na Fajã de Baixo, ilha de São Miguel, Açores, em 13 de setembro de 1923. Estudou no liceu Antero de Quental até 1934, quando mudou-se para o liceu Filipa de Lencastre, em Lisboa.


AUTO-RETRATO ALEXANDRINO

Eu nunca fui na vida, eu nunca fui menina:
Impura sim. Eu sou a imaculada impura.
Não vesti tafetás nem chitas de candura
Nem quis vencer jamais esta invencível sina.

Foi sã minha poesia, e foi também perjura
Como uma flor-de-lis entre ascos de latrina.
Cantei ainda cedo a loa vespertina.
Se há Deus, vou-Lhe a caminho, e sinto-me segura.

Por ódio ou por amor, chamem-me louca ou bela.
Sinto a inveja e o ciúme em modos de homenagem:
Se tenho de aceitá-la, eu não me nego a ela.

Fui rainha de mim, de versos e de prosas,
E só a mim também honrei em vassalagem.
Cada espinho que fere é um sinal de rosas.

Alguns críticos classificaram sua escrita como surrealista, outros como barroca e outros, ainda, como romântica (entre todas, a classificação preferida pela própria). Natália foi, na verdade, uma escritora cuja originalidade e versatilidade não podem ser compartimentadas em qualquer escola literária. Sua obra abrange poesia, romance, teatro, ensaio, memórias, relatos de viagem, organização de antologias e colaboração em vários jornais e revistas.

Mãos feridas na porta dum silêncio



Vida que às costas me levas
porque não dás um corpo às tuas trevas?

Porque não dás um som àquela voz
que quer rasgar o teu silêncio em nós?

Porque não dás à pálpebra que pede
aquele olhar que em ti se perde?

Porque não dás vestidos à nudez
que só tu vês?

Durante a ditatura foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação de uma "Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" (1966) e processada pela responsabilidade editorial das "Novas Cartas Portuguesas" de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta nos Estúdios Cor, de que foi diretora literária.

O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Em 1992, Natália Correia liderou a criação da Frente Nacional para a Defesa da Cultura e interveio politicamente ao nível da cultura e do patrimônio, na defesa dos direitos humanos e dos direitos da mulher. Apelou sempre à literatura como forma de intervenção na sociedade, tendo tido um papel ativo na oposição ao Estado Novo. Teve grande notoriedade no cenário político português, sendo eleita deputada pelo Partido Social Democrata, passando depois a independente.

O Livro dos Amantes
II




Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

Embora tenha começado pela literatura infantil, "A Grande Aventura de um Pequeno Herói", 1945, e pelo romance "Anoiteceu no Bairro", 1946, foi na poesia que encontrou a expressão mais depurada de seu temperamento a um só tempo lírico e irônico. Entre as suas obras poéticas encontram-se "Rio de Nuvens", "Poemas", "Dimensão Encontrada", "Passaporte", "Comunicação", "Cântico do País Emerso", "O Vinho e a Lira", "Mátria", "As Maçãs de Orestes", "A Mosca Iluminada", "O Anjo do Ocidente à Entrada de Ferro", "Poemas a Rebate", onde chama, na introdução, ao conjunto de seus "poemas indóceis" de "pentagrama de indignação", "Epístola aos Iamitas", "O Dilúvio e a Pomba" e "O Armistício".

Auto-retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exilio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Indignação constante é o que não falta a obra de Natália Correia, seja motivada pela censura que a amordaçou por longo tempo, seja por uma insurreição natural a todos os engodos ideológicos da organização social. A capacidade de abranger, contudo, várias expressões líricas, bem como sentimentos e visões aparentemente opostos, entre a subjetividade romântica e a objetividade realista, levaram-na a compor "Os Sonetos Românticos" (1991, Grande Prêmio de Poesia APE/CTT) e o romance "As Núpcias" (1992). No primeiro, parece voltar à primeira fase de sua expressão em virtude da abstração do objeto lírico, não obstante, agora, mais intelectualizada, beirando certo misticismo da criação poética, da escrita, da expressão verbal. Por isso, define o soneto como "misterioso nó que em sacra escrita / cimos e abismos une". Abismos, que enfim, de onde sempre procurou garimpar a sua "aurífera" poesia.

O Livro dos Amantes
IX



Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

A sua obra de ficção engloba Aventuras de "Um Pequeno Herói", "Anoiteceu no Bairro", "A Madona", "A Ilha de Circe", "Onde Está o Menino Jesus" e "As Núpcias". Como dramaturga escreveu "O Progresso de Édipo", "O Homúnculo", "O Encoberto", "Erros Meus", "Má Fortuna", "Amor Ardente" e "A Pécora".

O Encontro

Como se um raio mordesse
meu corpo pêro rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado
um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajecto me deixasse
uma açucena na anca
como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um couce
e eu não sofresse com isso
como se eu já existisse
antes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua
como se deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se deus fosse macho
e as minhas coxas de feno
como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor

Natália Correia escreveu ainda várias obras ensaísticas, das quais se destacam "Descobri que Era Europeia - Impressões de Uma Viagem à América", "Poesia de Arte e Realismo Poético", "A Questão Académica de 1907", "Uma Estátua para Herodes", "Não Percas a Rosa - Diário e algo mais: 25 de Abril de 1974 - 20 de Dezembro de 1975" e "Somos Todos Hispanos".

Crucificação



Vertical sou contra Deus
Horizontal a favor.
Nesta cruz me crucifico
Vertical com desespero
Horizontal com amor.

Organizou também algumas antologias de poesia portuguesa, entre as quais "Antologia da Poesia Erótica e Satírica", "Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses", "Trovas de D. Dinis", "O Surrealismo na Poesia Portuguesa", "A Mulher", "A Ilha de São Nunca" e "Antologia da Poesia do Período Barroco".

Sete Luas

Há noites que são feitas dos meus braços
e um silencio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas
E um risco a sangue na nossa carne escura
de uma espada à bainha de um cometa

Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longinqua onda de seu canto

Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.

Natália Correia morreu em Lisboa, a 16 de Março de 1993, ano em que foi publicada, em dois volumes, pelo Círculo dos Leitores, a sua obra poética completa: "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias", a reunião da sua poesia completa, que inclui todos os livros publicados e muitos poemas inéditos.

Retrato Talvez Saudoso
da Menina Insular


Tinha o tamanho da praia
o corpo era de areia.
E ele próprio era o início
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.

E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.

Largou o sonho nos barcos
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.

E quando o seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
só ficou tranqüilidade
na linha daquele além.
Guardada na claridade
do olhar


PS: Auto-Retrato Alexandrino foi creditado indevidamente a Natália Correia. O poema é de autoria Daniel de Sá, conforme comentário deixado em meu blog no dia 21/05/06. Peço desculpas ao autor pela minha falha.

Fontes:
http://omni.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/natalia.correia.html
http://www.lumiarte.com/luardeoutono/nataliacorreia.html
http://www.getty-images.com/source/home/home.aspx

Sonhado por Marcia, 21:35
Sonharam:




Domingo, Agosto 10, 2008



Para Osvaldo de Oliveira Santos

Pai, após 2 anos de sua ausência, consigo ter forças para deixar esta mensagem. Foi difícil conviver com a dor causada por essa perda, mas agora acredito que o tempo é mesmo o melhor remédio. Quando a gente consegue tomar consciência do significado da vida, superamos as dificuldades e agradecemos por todos os momentos que passamos, sendo eles bons ou maus. Hoje, quando se comemora o Dia dos Pais, quero agradecer a Deus, pelos 79 anos que Ele permitiu estarmos juntos. Agradeço pela minha mãe que é uma guerreira e que abriu mão de tantas coisas para estar ali, sempre cuidando de você com carinho e dedicação. Hoje não teremos aquela torta e nem as famosas empadinhas que o senhor gostava tanto. Também não poderemos nos divertir vendo como você abria os presentes, dizendo sempre que eram muitos mas que depois fazia questão de mostrar a todos que nos visitavam. Enfim, não teremos nada disso, mas teremos a lembrança dos momentos felizes que vivemos.

Muita luz e muita paz em sua nova morada.

Um beijo da sua filha.


Sonhado por Marcia, 11:40
Sonharam:




Domingo, Maio 11, 2008



Sonhado por Marcia, 11:48
Sonharam:




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Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar e apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente divino - o amor.
Carlos Drummond de Andrade
Dunas

O vento macio,
Como quem não quer nada,
Vem de mansinho

E traz aquela duna pra cá.
E quando ela estiver
acomodada,
Achando que irá descansar,
O vento insistente a levará
Para outro lugar.
E assim será sempre.
O vento ventando
implicante
inventando moda,
Vem de mansinho

incomodando o tempo todo
sem deixar a duna
repousar.

Milton Cardoso da Costa
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