Quinta-feira, Outubro 30, 2003
"Às vezes nossa luz se apaga, mas há outro que volta a acender a chama. Saibamos agradecer profundamente àqueles que reanimaram essa luz". Albert Schweitzer
FERNANDO SABINO
- É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?
- Sei dizer não senhor: não tomo café.
- Você é dono do café, não sabe dizer?
- Ninguém tem reclamado dele não senhor.
- Então me dá café com leite, pão e manteiga.
- Café com leite só se for sem leite.
- Não tem leite?
- Hoje, não senhor.
- Por que hoje não?
- Porque hoje o leiteiro não veio.
- Ontem ele veio?
- Ontem não.
- Quando é que ele vem?
- Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que devia vir em geral não vem.
- Mas ali fora está escrito "Leiteria"!
- Ah, isso está, sim senhor.
- Quando é que tem leite?
- Quando o leiteiro vem.
- Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?
- O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?
- Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?
- Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.
- E há quanto tempo o senhor mora aqui?
- Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.
- Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?
- Ah, o senhor fala da situação? Dizem que vai bem.
- Para que Partido?
- Para todos os Partidos, parece.
- Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.
- Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida...
- E o Prefeito?
- Que é que tem o Prefeito?
- Que tal o Prefeito daqui?
- O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.
- Que é que falam dele?
- Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.
- Você, certamente, já tem candidato.
- Quem, eu? Estou esperando as plataformas.
- Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?
- Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí...
Conversinha Mineira - texto extraído do livro "A Mulher do Vizinho", Editora Sabiá - Rio de Janeiro
Sonhado por Marcia,
13:58
Sonharam:
Domingo, Outubro 26, 2003
Conhecida como cidade do sol porque são mais de 300 dias de sol por ano, o meu post hoje é sobre Natal, onde se tem, de acordo com a NASA, o segundo ar mais puro do planeta. Praias primitivas e urbanas, num litoral de mar calmo, marcado por piscinas naturais, dunas e coqueirais, vale a pena sonhar e conhecer as belezas do litoral potiguar.
VIAJANDO - EMOÇÃO E BELEZA EM NATAL-RN
No trecho urbano, são 20 quilômetros de praia e o destaque, além da cantada Praia dos Artistas, é a Praia de Ponta Negra, onde fica o Morro do Careca. Aqui está o melhor lugar para se hospedar, já que os hotéis ficam dentro da praia - basta colocar o biquini/sunga, passar o filtro solar e curtir.
Para quem gosta de natureza, vale um passeio no Parque das Dunas, o segundo maior parque urbano do Brasil.
Se há mil atrações na cidade, nada como alugar um buggy e descobrir, com toda a emoção, o que as dunas têm. Escolha a direção - norte ou sul - e relaxe.
Basta atravessar o rio Potengi, para chegar a Genipabu, uma das praias mais famosas das redondezas. Protegida por um Parque Turístico e Ecológico, Genipabu tem lindas dunas e uma lagoa. Ela surge após a subida de uma das dunas - que tem uns 80 metros.
Outra surpresa em Genipabu são os dromedários. Importados da Espanha, os bichos levam os turistas para passeios de 15 minutos e são tratados a pão-de-ló, com direito a ração, veterinário e muita água mineral.
Também ao Norte está a Lagoa de Pitangui, um grande braço de água transparente e doce, onde o turista pode refrescar-se num mergulho entre centenas de peixes, voar de ultraleve ou tomar uma gelada água-de-coco.
A 49 quilômetros da capital está a Lagoa de Jacumã onde praticam-se o esqui na areia e o mergulho aéreo. Esquiar na areia significa descer uma duna alta (cerca de 50 metros de altura) sentado numa prancha. A versão aérea da brincadeira é mais radical: o turista desce outra duna gigantesca num cabo de aço que faz as vezes de teleférico até cair na lagoa.
No passeio para o Sul, escolha como destino Tibau do Sul. Neste município está a praia mais badalada do litoral potiguar. Atrás dos imensos coqueiros que encobrem a mata atlântica, avistam-se dunas brancas que emolduram as águas cristalinas das enseadas. As piscinas naturais são berço para golfinhos e tartarugas marinhas. Este Santuário Ecológico chama-se Pipa. A praia é de tirar o fôlego com tantas cores e sofisticadas esculturas produzidas pela erosão. São dunas, despenhadeiros e falésias.
Esta antiga vila de pescadores foi descoberta pelos surfistas na década de 70 e fica a 80 quilômetros de Natal. Dizem que é comum um visitante virar morador desta aldeia que mantém a tradição pesqueira. Junto com os turistas vieram bons hotéis, restaurantes de todo tipo e mais uma noite agitada, cheia de gente bonita.
Fonte: Revista Classe/Fotos de Valdemir Cunha, retiradas do site http://natal.home.sapo.pt/
Sonhado por Marcia,
19:17
Sonharam:
Segunda-feira, Outubro 20, 2003
"Quando se tem na vida um porquê, vive-se sem dificuldade o como". Friedrich Nietzsche
ADÉLIA PRADO
Minha alma debate-se, tentada à tristeza e seus requintes. Meu pai morto não vai repetir este ano: "Nada como um frango com arroz depois da missa". Minha irmã chora porque seu marido é amarradinho com dinheiro e ela queria muito comprar uns festões, uns presentinhos mais regalados, ô vida, e ele acha tudo bobagem e só quer saber de encher a geladeira com mortadela e cerveja. Talvez, por isto, ou porque me achei velha demais no espelho da loja, sinto dificuldades em ajudar Corália. Queria muito chorar, deveras estou chorando, às vésperas do nascimento do Senhor, eu que estremeço recém-nascidos. Estou achando o mundo triste, querendo pai e mãe, eu também. Corália disse: você é tão criativa! E sou mesmo, poderia inventar agora um sofrimento tão insuportável que murcharia tudo à minha volta. Mas não quero. E ainda que quisesse, por destino, não posso. Este musgo entre as pedras não consente, é muito verde. E esta areia. São bonitos demais! À meia-noite o Menino vem, à meia-noite em ponto. Forro o cocho de palha. Ele vem, as coisas sabem, pois estão pulsando, os carneiros de gesso, a estrela de purpurina, a lagoa feita de espelhos. Vou fazer as guirlandas para Corália enfeitar sua loja. A radiação da "luz que não fere os olhos" abre caminho entre escombros, avança imperceptível e os brutos, até os brutos, banhados. Desfoco um pouco o olhar e lá está o halo, a expectante claridade, em Corália, em Joana com seu marido e em mim, também em mim que escolho beber o vinho da alegria, porque deste lugar, onde "o leão come a palha com o boi", esta certeza me toma: "um menino pequeno nos conduzirá".
No Presépio - texto extraído do livro "Filandras", Editora Record - Rio de Janeiro
Sonhado por Marcia,
23:19
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Domingo, Outubro 19, 2003
"Bem-aventurados aqueles que sonham sonhos e estão dispostos a pagar o preço de torná-los realidade". L. J. Cardenal Suenens
VINÍCIUS DE MORAES - 90 ANOS
Tua casa sozinha - lassidão infinita dos devaneios, dos se-
gredos. Frocos verdes de perfume sobre a malva penumbra
(e a tua carne em pianíssimo, grande gata branca de fala mo-
ribunda) e o fumo branco da cidade inatingível, e o fumo
branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de inocência
ainda.
És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se co-
bre, invisível, de odor marítimo dos brigues selvagens que
eu não tive; há teus olhos mansos de louca, ó louca! E há
tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis falar.
Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duen-
des ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.
E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos solenes
de magia. Sim, é dança! - o colo que aflora oferecido é a
melodiosa recusa das mãos, a anca que irrompe à carícia é
o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita graça,
também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde
o mar e as trágicas aves da tempestade, para ser transporta-
do, a face pousada sobre o abismo?
Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem
as coisas aos ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chico-
te de aço, eu te castigarei, fêmea! - Vem, pousa-te aqui?
Adormece tuas íris de ágata, dança! - teu corpo barroco em
bolero e rumba. - Mais! - dança! dança! - canta, rouxi-
nol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosas co-
mo a carne dos batráquios...)
Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica - oh mulher, an-
jo, cadáver da minha angústia! - sê minha! minha! minha!
no ermo deste momento, no momento desta sombra, na
sombra desta agonia - minha - minha - oh mu-
lher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem...
Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco
animal, as pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu
te fecundaria com um simples pensamento de amor, ai de
mim!
Mas ficarás com teu destino.
Viagem à sombra - do livro Antologia poética/Vinícius de Moraes, - São Paulo - Companhia das Letras
Sonhado por Marcia,
15:39
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Quinta-feira, Outubro 16, 2003
"Estira-te bem alto pois as estrelas se escondem em tua alma. Sonha profundamente pois cada sonho precede o objetivo". Pamela Vaull Starr
RUBEM BRAGA
E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval - uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito - depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado - sem glória nem humilhação.
Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.
E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?
Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras - com flores e cantos. O inverno - te lembras - nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.
Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.
A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.
Despedida - Texto extraído do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro
Sonhado por Marcia,
14:07
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Domingo, Outubro 12, 2003
"Todos os nossos sonhos podem tornar-se realidade se temos o desejo de realizá-los". Walt Disney
FLORA FIGUEIREDO
Para machucar um pouco
Vou buscar a poesia onde ela estiver,
Fazê-la deitar subjugada,
tênue,
passiva,
mansa,
mulher.
Quero-a solta e lassiva,
aberta e deflorada,
para fazer dela o que eu quiser.
Hei de dominá-la totalmente,
levá-la a gozar até a embriaguez.
Feita minha serva e dependente,
vou ofertá-la ao seu deleite.
Por favor, aceite.
Quero que ela o faça chorar outra vez.
Viagem de volta
Utiliza o poro aberto
para deixar entrar o pólen certo;
a veia perfurada,
para fazer sair a coisa errada;
o pulmão dilatado,
para trocar o ar que está viciado.
Aproveito esse momento semprevivo
e te convido a beber em minha taça,
onde alegria borbulha, e é de graça,
onde poesia se faz sem aditivo.
Teorema
Alguma coisa saiu errada
na minha Matemática.
Não sei se foi excesso de poesia,
dose demais de fantasia,
ou simplesmente falta de prática.
Tenho certeza que somei,
multipliquei pra dividir
em partes justamente desiguais.
Subtraí só de mim,
pra que pudesse lhe caber um tanto a mais.
Quando chego ao final da operação,
não consigo decifrar o que ocorreu.
A soma partiu, saiu devedora.
O resultado: noves fora, eu.
Administrando
Não quero escrever um livro
a respeito
de cada amor imperfeito
que me aconteceu;
não quero musicar
toda vez que uma alegria se perdeu;
não quero decorar a parede
com desencanto ou nostalgia.
Prefiro admitir a flor
e a pétala que possa cair
para magoar o meu cenário.
Sei que todo peito é permeado de contrários,
que em todo jogo pode haver uma derrota.
Rabisco apenas a minha nota de rodapé:
"Não é só de vitórias que se escreve
uma verdadeira história de mulher."
Poemas do livro Amor a céu aberto/Flora Figueiredo - Rio de Janeiro - Editora Nova Fronteira
Sonhado por Marcia,
17:51
Sonharam:
Sexta-feira, Outubro 10, 2003
"Agarra-te aos sonhos porque, se os sonhos morrem, a vida se converte num pássaro de asas quebradas que deixa de voar". Langston Hughes
PAULO MENDES CAMPOS
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Texto extraído de "O Amor Acaba - Crônicas Líricas e Existenciais" - Editora Civilização Brasileira
Sonhado por Marcia,
14:04
Sonharam:
Domingo, Outubro 05, 2003
"Sonha sonhos ambiciosos e, conforme sonhes, assim serás. Tua visão é a promessa do que descobrirás finalmente". John Ruskin
MÁRIO PRATA
Sábado, supermercado supercheio. Entro para comprar três latinhas de cerveja. Dab, alemã, sem álcool.
Vou para a "fila de até dez", que está emperrada porque a mocinha está fechando uma temporada e, para passar para a outra mocinha, tem de dar baixa não sei em quê. Olho as filas normais. Imensas. Gente com dois carrinhos. Alfaces convivendo com milhares de papéis higiênicos. Lá no fundo, uma fila. Só um velhinho.
E a placa, em cima: gestantes, idosos, deficientes físicos. Dou uma piscada para a mocinha, a mocinha faz um beiço de tudo bem e eu fico ali. Só que chega uma idosa. E gorda e mal-humorada. No que eu me viro para dar o lugar a ela, ela ataca:
- Está grávida, é?
Evidentemente que ela estava a falar comigo e eu não estava grávido. Não tinha nenhum sintoma, até então. Mas a idosa era agressiva e eu resolvi não ceder o lugar para ela. E senti uma certa solidariedade do velhinho que lutava para enxergar o dinheiro dentro da carteira. Fiquei na minha. Mas a idosa estava a fim de briga:
- Idoso, meu senhor?
Eu, ainda calmo:
- Não senhora. Envelhecente.
Ela ficou pensando na palavra, mas acho que não captou o neologismo.
Resolvi olhar as compras dela. Bananas. Milhares, milhões de bananas. E nada mais. E a revista Capricho.
E ela caprichou na terceira estocada:
- Por acaso o senhor é deficiente físico?
E olhou para as minhas pernas que estavam onde sempre estiveram, firmes. Fiz cara de triste:
- Sou. Infelizmente sou deficiente físico.
Ela se abalou:
- Desculpa, eu não havia percebido. É que sempre tem uns malandros, sabe? Uns espertinhos.
Eu fiquei quieto. Ela me cedeu a vez. Coloquei as cervejas em cima da mesa. Mas ela era curiosa:
- De nascença?
- É, sim senhora. Os dentes. Está vendo os meus dentes? São pra frente. Isso é uma deficiência física, não é?
Ela quase chamou o gerente:
- Engraçadinho...
E eu:
- E tem mais: meu fígado é deficiente físico. Está despedaçado. Meu pulmão, não é de hoje. Completamente deficiente. E se a senhora quiser, tenho uma unha encravada fisicamente deficiente.
- Não estou achando a menor graça!..
- E a vista? Está escrito na minha carteira de motorista: deficiente visual! Escuto pouco, minha senhora. Tenho essa deficiência também: auditiva.
- Você é um idiota. Vou falar com o gerente.
E partiu. Paguei a minha conta, estava saindo quando ela chega com o gerente. Ela já havia infernizado o rapazinho, que veio por educação, mesmo. O gerente:
- Por favor, o que está acontecendo?
Eu:
- É essa senhora, seu gerente. Além de idosa, deficiente física!
- Eu? Deficiente física?
- Claro, ou a senhora estava na fila porque é gestante? Que eu saiba, ninguém engravida com bananas. Ainda mais verdes e duras como essas!
Fomos todos para a delegacia. A mulher era delegada aposentada. Desacato à autoridade. Documentos. A mulher era mais jovem do que eu. Bingo! Tava era acabada mesmo! Porque, gestante, não era. Nem idosa.
Devia ser, como eu, deficiente física. E mental.
E o gerente, aproveitou:
- Tem só um detalhe, minha senhora. A senhora não pagou as bananas.
Te poupo do que ela disse para o rapazinho fazer com as bananas duras e verdes.
Gestantes, Idosos e Deficientes - texto extraído da coluna do escritor, no jornal "O Estado de São Paulo".
Sonhado por Marcia,
17:41
Sonharam:
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