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Domingo, Novembro 30, 2003

"Eu quero sempre mais do que vem nos milagres" - Cecília Meireles


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

A notícia veio de São Paulo, trazida por Anhembi. Foi o caso que certo cavalheiro de posses - um grã-fino, diz a revista - regressou dos Estados Unidos em companhia de um cachorro de raça, lá adquirido. No aeroporto de Congonhas, diante dos funcionários da Alfândega, houve a abertura de malas, e verificou-se que quatro eram do cachorro: uma com roupas, outra com coleiras e focinheiras; uma terceira com vitaminas, e a última com alimentos especiais.
O comentarista fala na Revolução Francesa, que reagiu contra coisas desse gênero, e na Revolução Russa, que reuniu em museu as jóias oferecidas pelos aristocratas a seus cães e cavalos. Expus o caso a um cachorro de minhas relações, chamado Puck, e ele manteve comigo, por meio dos olhos e da cauda saltitante, este diálogo quase maiêutico, embora às avessas.
- As malas eram quatro, diz você?
- Realmente, meu caro Puck.
- Com certeza eram malinhas à-toa...
- Não consta da notícia, mas presumo que fossem malas consideráveis.
- E você quer insinuar com isso que cachorro em viagem não tem direito a mala?
- Não é bem assim. Pareceu-me que havia bagagem em excesso para viajante tão sóbrio de natureza, como - não é por estar em sua presença - eu considero o cão.
- E quantas malas tinha o grã-fino? Quarenta?
- A revista não diz, mas é de supor que trouxesse muitas.
- Você acha direito que um homem viaje com quarenta malas (por hipótese) e seu cão não tenha pelo menos quatro?
- Mas veja bem, Puck, o homem é um animal complicado, que se afastou da natureza. Vai a festas noturnas, que exigem equipamento especial; tem reuniões de negócio, de esporte, de amor, de guerra. Compra livros e até os lê. Precisa de tapetes, automóveis, discos, esmalte de unhas e tudo aquilo que vocês, mais felizes, não conhecem ainda, ou desprezam.
- Essas coisas são necessárias à vida?
- São, na medida em que a tornam mais agradável.
- E não seria tempo de estendê-las ao uso pessoal dos cachorros e de outros animais em condições de saboreá-las?
- Teoricamente, talvez. Não acha, porém, que seria o caso de estendê-las antes a todos os homens?
- Elas chegam para todos?
- No estado atual da produção, é capaz de não chegarem.
- Então, que adiantaria?
- Pelo que vejo, você tomou partido francamente por sua espécie contra a minha, quando as duas se entendem há milênios.
- Engano, meu caro. O que você enxerga no gesto do grã-fino é a falta de sensibilidade diante da miséria alheia, quando eu enxergo precisamente um começo tímido de sensibilidade, a abotoar-se como uma florzinha anêmica. Todo esse cuidado com um cão, um simples cão (pois somos simples, e esta é nossa maior virtude), revela que o homem não está de todo perdido, e já começa a desconfiar da existência do próximo. Por enquanto tem os olhos baixos, e só repara em alguns de nós, de mais pedigree. Amanhã descobrirá as criancinhas, e dia virá em que...
- Ele se estimará a si mesmo, através dos outros?
- Não vou a tanto - resmungou Puck. - Também, você está exigindo demais de seus semelhantes.

O cão viajante - Do livro "Fala, amendoeira" (Crônicas) - Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. 8a. ed., 1978. Record, 1985


sonhado por Marcia, 17:14
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Quinta-feira, Novembro 20, 2003

"Te ando buscando, amor, mas nunca chegas,/ te ando buscando, amor, mas te amesquinhas,/ me agito pensando se me advinhas,/ me desdobro pensando se a mim te entregas." Alfonsina Storni


RUBEM ALVES

Os místicos e os apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa: "A rosa não tem "porquês". Ela floresce porque floresce".

Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema "As sem-razões do amor". É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento. "Eu te amo porque te amo..." - sem razões... "Não precisas ser amante, e nem sempre saber sê-lo."

Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teu gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra.

"Amor é estado de graça e com amor não se paga." Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que "amor com amor se paga". O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo.

"Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e regulamentos vários... Amor não se troca... Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo..."

Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena...), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Não é que faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos. Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento e se perguntava: "Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco.

O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?

Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu quando o amor - frágil bolha de sabão -, não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir dos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor - sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar...

Mas - eu já disse - não estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário do Drummond, as cem razões do amor...

Trecho da crônica "As Razões do Amor" - Do livro O Retorno e Terno/Rubem Alves, Campinas/SP, Ed. Papirus


sonhado por Marcia, 17:09
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Domingo, Novembro 16, 2003

"Ser livre significa deixar que os outros sejam livres: livres para nos amar, para partir, para regressar". Arthur Koestler


MAURO SALLES

Meu primeiro amor
está nascendo agora
vem misterioso e pleno
de cargas antigas
nomes, lembranças, rostos diferentes
que teriam sido
mas não foram
- meu primeiro amor -
que chega hoje bordado em sorrisos
e dúvidas
na magia das compreensões
inexplicáveis
tecidas nos cabelos brancos
da travessia
iluminada na juventude
da alma companheira
que renova espaços e crenças
e busca soluções que não existem

Meu primeiro amor
impaciente e calmo
levanta perguntas no horizonte
e vê longe na frente
o século novo
onde cairão folhas de outono
renovando a floresta
colorida
das flores do amanhã
- do meu primeiro amor -
que olha para trás
busca nomes que enfeitaram
velhas páginas
do diário, dos poemas, das saudades
do poeta maduro
que não entende o passado
de outras ternuras
se era tudo ilusão
e o primeiro amor
não chegara ainda
escondido em prenúncios
nas promessas
da revelação que haveria de vir
misturada em canções francesas
de outros tempos
embalada em cantigas de ninar
jamais cantadas
- pelo meu primeiro amor -
na estrada que trilhamos juntos
surpresos
afagando as dores de ontem
o sorriso de hoje
(e o seu silêncio)
a contemplar esse amor que nasce
revive
promete
e é mesmo único

Primeiro amor - do livro Recomeço - Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 1999


sonhado por Marcia, 17:35
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Terça-feira, Novembro 11, 2003

"Amor é um fogo escondido, uma agradável chaga, uma doce amargura, um alegre tormento..." Fernando de Rojas


HELOISA SEIXAS

Olharam-se.

Foi um olhar material, como se os raios invisíveis emitidos por cada um se misturassem no ar, fundindo-se, encorpando-se, tornando-se palpáveis. E ao olhar mútuo seguiu-se o sorriso, também de parte a parte.

Começou assim. Estavam ambos num país desconhecido, num universo distante de suas vidas, por motivos diferentes, que não tinham qualquer importância.

O olhar foi mútuo, mas foi ela quem se aproximou. Era talvez mais atirada do que ele. E o olhar e o sorriso se transformaram em palavras. Estavam à porta de um ônibus de excursão, cercado de uma algaravia de diversas línguas, e aquela massa de sons estranhos se fechou em torno deles como se os abraçasse, indulgência plena que lhes era anunciada. Sabiam que aquele era um território neutro, onde tudo poderia acontecer.

Na praça, o cheiro de iguarias exóticas impregnava o ar. Mulheres de turbantes coloridos conversavam num dialeto desconhecido, com estalares de língua que pareciam falar de sabores, gostos. Eles acharam graça naquilo. Só eles, ninguém mais.

Sorriram.

Em torno, as construções tinham em suas paredes o tom ocre do deserto, e as janelas em arco deixavam entrever pedaços de vidas, histórias, na penumbra das casas. A praça fervilhava de gente e, em meio aos temperos e hortaliças, vendiam-se também bugigangas, antiguidades, pratarias, panelas. Aquele universo caótico os convidava. Misturados à multidão, deixaram-se arrastar pela torrente de sons, cores, formas, distanciando-se do grupo.

Tocaram-se.

Suas mãos amoldaram-se uma à outra, dedos, pele, palma que pareciam fundir-se como haviam feito pouco antes seus olhares. Aquelas mãos tinham uma história própria, uma história sábia, antiga, independente deles. Não se largaram mais.

Entrelaçadas, as mãos levaram-nos a passear pela feira, pela praça, pelas ruelas em torno. Entrelaçadas, conduziram-nos de volta ao ônibus, de onde saltariam depois. Naturalmente juntas, levaram-nos através da porta do hotel e escadas acima - para o quarto.

Amaram-se.

Amaram-se sabendo - tinham perfeita consciência disso, o tempo todo ¿ sabendo que seu amor estava circunscrito àquela hora e lugar, que uma vez cessado o momento seria impossível tentar revivê-lo.

Sabiam.

Tentar seria um erro. Fora dali, aquele amor seria uma estrela-do-mar, que brilha como prata contra a areia do fundo, mas que, retirada da água, perde o viço, a cor, o brilho - morre em nossas mãos.

Estrela-do-mar - Fonte: http://www.klickescritores.com.br



sonhado por Marcia, 16:43
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Domingo, Novembro 09, 2003

"Entre o sono e o sonho/ entre mim e o que em mim/ é o que eu me suponho/ corre um rio sem fim." Fernando Pessoa

LYA LUFT

Ninguém, amando, pensa em pesos e medidas. Abrimos corpo e alma, estamos entregues. No começo talvez haja períodos de vago susto: o outro nos define, o outro nos entende, o outro nos aquece e ilumina, somos melhores, mais belos e muito mais felizes por causa dele, sua voz fala por nós, sua mão age por nós, nunca perdemos com tamanha alegria nossa identidade para a recuperarmos no mesmo instante, transfigurada.

O outro, mesmo à distância, comanda nossa vida. Provavelmente comandamos a dele, e essa troca, sendo verdadeira, é um terremoto que transforma terra plana em montanhas magníficas, lagos calmos em grandes mares, faróis humildes em estrelas.

A importância do outro nos assustaria se pudéssemos ver com clareza, mas nossa lucidez está coberta de véus: mesmo assim, interrogamos: quanto de mim restou, quanto de ti sou eu?

A resposta há de ser que somos o outro quase inteiramente, e soa doce aos nossos ouvidos. Naturalmente, se alguém nos ponderasse que é preciso cautela, haveríamos de virar-lhe as costas, e rir. E essa é uma das mais privilegiadas condições de ser - apenas e inteiramente - humano.

Texto extraído do livro Secreta Mirada/Lya Luft, São Paulo, Ed. Mandarim


sonhado por Marcia, 14:28
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Terça-feira, Novembro 04, 2003

"Os próprios deuses perecem, mas os versos imortais, mais firmes que os metais, permanecem". Théophile Gautier


Há exatamente 26 anos ela tomava posse como imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) e em sua trajetória de escritora deixou uma das maiores e mais respeitadas obras literárias do país.

Professora, jornalista, romancista, cronista e teatróloga recebeu os prêmios mais importantes da literatura brasileira, ficando conhecida por seu envolvimento em questões sociais e políticas do país. Defendeu a igualdade de direitos para homens e mulheres.

Seu primeiro romance, "O Quinze", escrito quando ela tinha apenas 20 anos, retratou o drama dos nordestinos que sobreviviam à seca no sertão. Foram 19 os livros publicados, entre eles, o romance "As Três Marias", que, em 1980, virou novela e o livro "Memorial de Maria Moura" que inspirou uma minissérie na Rede Globo.

Para os amigos, ela nunca deixou de ser uma guerreira. Esperava sempre o melhor, até mesmo da morte.

"Hoje as moças estão de ombro a ombro com os rapazes e creio que dentro de pouco tempo haverá quase que uma proporção de meio a meio das mulheres que têm carreira, que têm profissão universitária, que têm profissão liberal".


ADEUS RACHEL DE QUEIROZ


Você começa quando aprende a juntar as letras; faz frases engraçadinhas que seu avô acha gênio e mostra a todo mundo. Então você se convence de que é escritor. Essa convicção representa um compromisso, desde aquela idade remota, "já que é um escritor, é obrigado a escrever". Se os pais são medíocres intelectualmente, o exercício da suposta vocação torna-se fácil.

Mas quando os pais são ou literatos ou simples letrados muito mais lhe é exigido. Você tem que apresentar originalidade ao lado da qualidade. Isso quer dizer que você, desde esses inícios, já padece a maldição do escritor: ter estilo e idéias animando esse estilo. Em geral, os pais se embasbacam diante de qualquer manifestação intelectual precoce dos filhotes. Se eles não têm formação intelectual sofisticada, tudo bem. Qualquer paráfrase dos livros da escola já lhes parece excelente. Mas pais sofisticados é fogo. Não precisa nem que eles leiam os modernos, Drummond, Guimarães Rosa, Cecília Meireles, para só citar os mais ilustres e defuntos. Pai letrado quer que o filho faça pequenas frases, emita conceitos, tudo dentro da baixa qualidade que a sua literatice considera excelente. Portanto, para a qualidade da obra do filho, é melhor que os pais não tenham fumaças literárias e deixem que o menino seja o seu próprio juiz.

E, se ele tiver talento, pode ir longe, liberto dos padrões da mediocridade doméstica. Esse tipo de condenação não se pode fazer aos pais que realmente ou produzem ou pelo menos sabem apreciar uma boa peça literária. O filho, em geral, esconde deles as suas primícias, receoso do julgamento. E ele se faz censor de si mesmo, olhando com os olhos do pai aquilo que o pai não vê. Existe ainda outra maneira de ver estimulada a vocação literária dos jovens. É uma casa aberta onde todo mundo lê, o bom e o ruim, mas onde igualmente todo mundo tem direito à crítica, a falar o que pensa sobre a produção de pais, irmãos, tios e visitas íntimas, numa espécie de tribunal literário exercido à mesa de jantar. Lembro-me da casa de Aníbal Machado, ponto obrigatório dos principiantes ou recém-chegados que lá iam (levados por algum "freguês" semanal de Aníbal).

Sendo o dono da casa quem era, além de excelente escritor ele próprio, um animador generoso e um fino crítico de letras, a sua casa era uma espécie de fórum literário, referência obrigatória de quem pretendia se apresentar como escritor: "Ainda no domingo, na casa do Aníbal, ouvi o Vinícius dizer ao Conde que o modernismo morreu..." e se desmentindo a si próprio acabava mostrando o seu último poema - fina flor do modernismo, claro.

Mas voltando ao assunto da vocação literária: para escrever, tem que haver o dom da escrita, tal como para o cantor é preciso o dom da voz. Todos conhecemos pessoas inteligentes, até brilhantes na sua especialidade - medicina, arquitetura, engenharia, economia e, na verdade, por mais sabedores que sejam no seu ofício, não conseguem exprimir na palavra escrita essa sabedoria. Deus sempre é parco na concessão de dotes: os que acumulam são sempre contados. Por que as boas cantoras líricas geralmente têm tendência a engordar? E por que as de bela silhueta quase sempre só dispõem de um fio mal afinado de voz?

Os grandes oradores dificilmente são bons escritores. Parece que eles necessitam do estímulo de uma audiência cativa para suas frases de efeito. O que desencadeia o seu talento não é uma página de papel em branco, mas uma audiência presente. E, pensando bem, isso está certo: por que um único indivíduo pode receber juntos os dons da escrita e da eloqüência? Eu, por mim, sempre espero descobrir nos outros os dons ocultos pela modéstia ou timidez. Verdade que nem sempre tenho êxito; Nosso Senhor parece que só distribui tais dotes com a mão esquerda...


Escrever - texto da escritora, extraído do jornal "O Estado de São Paulo", São Paulo (SP), 25-03-2000.


sonhado por Marcia, 17:25
Sonharam:

 

 

:: Sonhando I ::
"Agarra-te aos sonhos porque, se os sonhos morrem, a vida se converte num pássaro de asas quebradas que deixa de voar."
Langston Hughes

:: :: :: ::

:: Sonhando II ::
"Estou sempre nos limiares:
sou sempre esta pausa antes
do início de uma canção,
sou um momento de espera,
quase um fim de solidão.
Sou margem de caminho para a morte,
gesto que pressente atrás do véu:
promessa de chuvas sob o céu,
e vôo que antes de partir
repousa."
Lya Luft

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