Terça-feira, Dezembro 30, 2003
Angel, Alessandro, Fá, Toni, Alessandro de Paula, Leo, Queen Bee, Felipe, Janaína, Bianca, Filipinho, Manuel, Fernanda, Luquete, Ana, Rúbia_Euzinha, Igor, Kingmob, Lu Furtado, Roberta, Gustavo, Dot Warner, Pisciana, Maya, Tati, enfim, todos aqueles que visitaram este blog e me incentivaram com seus comentários, um
Muita paz e muita luz no caminho de vocês.
E para saudar o novo ano que se aproxima, nada melhor do que Carlos Drummond de Andrade, para nos oferecer a sua
RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Imagem: http://www.ilove.com.br/lili/palavrasesentimentos/ano_imagens.asp
Sonhado por Marcia,
14:04
Sonharam:
Terça-feira, Dezembro 23, 2003
"Existe algo mágico que sempre nos leva ao lugar em que devemos estar, quando ficamos abertos para nos deixar ser levados, ainda que no momento em que iniciamos a ação não compreendamos por que o estamos fazendo." Roberto Shinyashiki
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
O ano, propriamente, se compõe de onze meses. Dezembro não conta: é só para desejar que os restantes sejam propícios. Parece que o sistema está longe da perfeição; chegaríamos a ela num calendário que abrangesse onze meses de bons augúrios e um de execução deles. Como está, os 31 dias não chegam para imaginarmos tudo de ótimo em benefício de todo mundo. Fica sempre uma fração larga de mundo a que não atingem os nossos desejos fraternos. China, Costa do Ouro, Oceânia... Mas não é preciso ir tão longe. Mesmo perto de nós, mesmo dentro de nós, as lembranças costumam esquivar-se à apresentação espontânea, e até à convocação formal. Julgamos ter no coração um canteiro de afetos; contudo, uma grande área, nele, permanece inculta e cheia de ervas, não direi daninhas, mas ervas. O que admira não é a quantidade de pessoas a quem dedicamos um pensamento amigo, mas a multidão, o número realmente infinito, de outras em cuja existência nem sequer reparamos.
Foi para suavizar as lacunas da memória sentimental que se inventaram mensagens de boas-festas, e entre elas esses cartõezinhos onde há a vinheta de um pássaro, saltitando sobre versos, que começam a aparecer-nos por baixo da porta:
Este canarinho que canta
com tanta melodia
tantas saudades revela
perante este dia.
Desejo-lhe felicidades.
Aqui lhe venho saudar.
Se de mim tiverem queixa,
pois queiram me desculpar.
Numa terceira quadra, a assinatura: "Do vosso fiel lixeiro." Este ano, passou a ser "vosso efetivo lixeiro", porque até nesse ofício a concorrência se torna feroz.
E lá também "o vosso humilde leiteiro", realmente tão humilde que o atual, de nossa rua, chegado há pouco da Paraíba, nem sequer sabia da existência desses cartões, e quando alguém lhe falou em festas, perguntou, espantado: "Festas? Que é festas? Vou conversar com o meu colega." Os carteiros costumam exprimir-se em prosa, mas o entregador da tinturaria e o varredor de rua utilizam a nobre arte do verso, que abre picada até o sentimento burguês.
Contudo, seria desejável que as saudações de Natal oferecessem maior variedade, ou pelo menos exprimissem anseios mais concretos, definindo a situação particular de cada classe ou componente dela, e não apenas um vago ideal de felicidade. Penso que cada homem tem direito de pedir determinada coisa a seu semelhante.
É também o parecer de João Brandão, poeta "nas horas vagas porém", que aqui ao lado propõe estas novas mensagens natalinas:
Do carteiro:
Votos mentais, apenas,
formule ao mundo inteiro.
Não multiplique as penas
do seu velho carteiro.
Do gari:
Pertence-lhe o apartamento?
E joga cascas na rua?
A vassourinha (um momento)
dou-lhe de festas. É sua.
Do lixeiro:
Posso, ilustre morador,
pedir-lhe, neste Natal,
que o seu lixo, por favor,
cheire um pouco menos mal?
Do leiteiro:
Meio litro, nesta semana,
ofereça, caro banqueiro,
do leite da bondade humana
a este seu humilde leiteiro.
Aí ficam as sugestões. Boas-festas a todos. E agora, amigos, meto a viola no saco, dizendo como Frei Vicente do Salvador, ao terminar sua História do Brasil: "E darei fim a esta história, porque sou de 63 anos, e já é tempo de tratar só da minha vida, e não das alheias."
Musa Natalina - Do livro "Fala, amendoeira" (Crônicas) - Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora. 8a. ed., 1978. Record, 1985
Sonhado por Marcia,
15:15
Sonharam:
Sábado, Dezembro 13, 2003
"O objetivo da vida é viver e isso significa despertar alegremente, embriagadamente, serenamente, divinamente alerta." Henry Miller
MÁRIO PRATA
Não gosto do Natal. Não chego a odiar mas não gosto. Nunca gostei. Desde pequeno, no interior. Papai Noel sempre me assustou. Gostava de preparar a árvore com dias de antecedência, apesar de não concordar em colocar algodão para "simbolizar" a neve. Gostava de imaginar os presentes. Aliás, não gosto nem de dar e nem de receber presentes em datas certas. O presente é bom quando você não espera. No aniversário, Natal, Dia da Criança, depois Dia dos Pais, acho um saco de Papai Noel. O presente, conforme a palavra em si se explica, é uma presença. Portanto, não pode ser datada. Não deve ser uma obrigatoriedade.
Além de não gostar do Natal, em alguns aspectos, ele chega a ser irritante: Em vários aspectos. Senão, vejamos:
- Quer coisa mais irritante durante o mês de dezembro do que ir a um barzinho ou restaurante, de noite, para tomar um chopinho e ter, ao seu lado, aos gritos, berros e urros, uma "festinha da firma", com risos histéricos, discursos profundos e etílicos do "chefe", gozações com a "gostosa" da firma e a indefectível troca de "amigos secretos?" Por que gritam tanto nas "festinhas da firma?" E quando você vai ao banheiro sempre tem um ou dois funcionários burocraticamente vomitando. Como se vomita no Natal! Principalmente os bancários.
- E o "amigo secreto" então? Já notaram que sempre sai para quem não é nem muito amigo e muito menos muito secreto? E você passa o mês inteiro tendo que imaginar o que vai dar praquele chato. Se o "amigo secreto" já é uma relação constrangedora na firma, em família então, nem se fala. Em primeiro lugar, porque dois ou três dias depois do "sorteio", todo mundo já sabe quem é o amigo de quem. Você já sabe pra quem vai dar e de quem vai receber. Essas informações sempre vazam no seio familiar. Sempre tem uma irmã que sabe de todos, ninguém sabe como. E você que torceu para não sair aquela prima fofoqueira, pois é justamente com ela que você vai se abraçar logo mais. E dizer todas aquelas frases. Todas, são insubstituíveis.
- E as propagandas de Natal? Existe coisa mais horrível que este bando de gordos com brancas barbas, puxados por veadinhos? A publicidade brasileira é uma das melhores do mundo, perdendo talvez apenas para a inglesa. Mas, chega o Natal, baixa o "espírito natalino" nos criadores das agências e dá no que dá. Eles não conseguem (há 1.994 anos) fazer um único anúncio sequer decente nessa época. São constrangedores, amadores, dignos de um Papai Noel de mentirinha. Tem uns, mais "criativos", que até neve têm, debaixo dos 40 graus de dezembro.
- E aqueles Papais Noéis que vão de casa em casa e os pais obrigam as criancinhas a dar beijo naquele sujeito imenso, barba descolada, sapatão de militar, já meio bêbado depois de passar em várias casas de amigos e parentes? As criancinhas esperneiam, não dormem semanas seguidas, sonhando com aquele monstro que o pai fez beijar. Meu Deus, é um outro pai que eu tenho?, devem pensar os pequenininhos da família. E o monstro ainda diz "coisas" para os indefesos, presos nos braços do pai ou da mãe, quiçá da avó: este ano, não vai fazer malcriação, vai comer toda a papinha, não vai mentir e nem fazer xixi na cama, viu, Rony? Coitados.
- Mas o pior mesmo é a ceia, propriamente dita. Com o passar dos anos, a família vai crescendo e de repente já são quatro gerações que estão ali, de olho no peru. Umas 50 pessoas. E ali dá de tudo. Cunhados que não se falam, a velhinha que não escuta os planos do asilo, o fulano que está falido, coitado, a prima que está dando para um sobrinho, aquele casal que está separado mas que, no Natal, baixa o "espírito" e eles comparecem juntos. Todo mundo sabe que se odeiam. Mas é Natal. Aquele tio que deve tanto para o seu irmão também está lá. Mas é Natal. E a irmã que não pagou a trombada que ela deu com o carro do tio-avô? Tudo é permitido. Afinal, é Natal. Nasceu quem mesmo? Jesus, não foi? E, por isso, à meia-noite, todos dão as mãos e rezam (des)unidos.
- E, para terminar: existe música mais chata que Jingle Bell?
Já o Reveillon, é o maior barato. É quando tomamos o porre para tirar e esquecer a ressaca do Natal. Mas não adianta. No ano que vem, tem outro Natal.
Jingle Bell prá vocês - do livro "100 Crônicas", Cartaz Editorial - São Paulo, 1997.
Sonhado por Marcia,
15:29
Sonharam:
Domingo, Dezembro 07, 2003
"Não queiras entender a vida,/ e ela será como uma festa." Rainer Maria Rilke
MARINA COLASANTI
Pintava a casa. Todos os dias, depois do trabalho, pegava lata e pincel, arrastava a escada para junto da parede e retomava o serviço iniciado tantos anos antes.
"Uma casa é como um navio", sentenciava cheio de sabedoria. "Quando a gente acaba de pintar de um lado, o outro já está pedindo tinta".
E à noite, na cama, virando-se para dormir, dizia para a mulher sobre a felicidade da vida em comum: "O importante é a manutenção".
Pintado, conservado, o casamento ia singrando o tempo. E ele tão seguro ao leme, que não viu quando aquele homem manobrou para aproximar-se da sua mulher. Não se deu conta quando abordou. Não percebeu quando entrou em rumo de colisão. Não acreditou quando abalroou o amante quase invisível.
E continuava no leme, sem acreditar, pintando e emassando, quando seu casamento, lentamente, naufragou.
Sem que de nada tivesse adiantado o Titanic - Do livro "Contos de Amor Rasgados", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1986
Sonhado por Marcia,
16:09
Sonharam:
|