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Sábado, Fevereiro 28, 2004

"Aproveitando que ela está na Revista Veja desta semana e porque eu amo tudo que ela escreve, vamos a mais um post com esta excelente escritora. Não deixem de ler a reportagem "No mundo da Lya", com trechos, inclusive, do novo livro "Pensar é Transgredir."


Canção da mirada secreta

Foram-se os amores que tive
ou me tiveram. Partiram
num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
a não acreditar na morte
nem demais na vida: cultivo
segredos num jardim
onde estamos eu, os sonhos idos,
os velhos amores e os seus recados,
e os olhos deles que ainda brilham
como pedras de cor entre as raizes.


LYA LUFT


Algumas belezas não morrem. Em geral só muito depois entendemos que um encontro não precisa durar anos para ser especial: ninguém, entregando-se numa relação amorosa, planeja fazê-lo com data marcada para partir. Mas o coração, o nosso imaginário, os nossos medos ancestrais, nos pregam peças e nos determinam mais do que gostaríamos.

O destino - ou seja lá qual o nome que lhe damos - se encarrega de, insidiosamente, separar o que parecia colado; desunir o que parecia um só; uma primeira impaciência, um pequeno desencanto, um olhar realista sobre o que parecia mágico...muitos amores crescem com esse toque de realidade, mas alguns, destinados a outro caminho, começam a esboroar. Um bocejo de tédio, um olhar sobre o muro, e queremos ter asas.

Isso não significa a morte do que foi bom.

Um dia quem sabe, quando de novo alguém se colocar a meu lado e mais uma vez for especial, ou quando a solidão parecer definitivamente estabelecida, aquela memória voltará a me fazer companhia olhando-me com os mesmos olhos com que eu a contemplo. Em algum espaço de tempo estivemos juntos, o meu amor perdido e eu, mas mesmo que estejamos distantes podemos continuar ouvindo, alguma vez, o compasso dos nossos mesmos sonhos.

Do livro Secreta Mirada - São Paulo, Editora Mandarim, 1997

Sonhado por Marcia, 15:50
Sonharam:




Quarta-feira, Fevereiro 25, 2004

"Como a criança que vagueia o canto/ Ante o mistério da ampliação suspensa/ Meu coração é um vago de acalanto/ Berçando versos de saudade imensa."


VINÍCIUS DE MORAES


Por seres quem me foste, grave e pura
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada

Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada

Porque te vi nascer, de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura

Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.

Soneto de Quarta-Feira de Cinzas - Livro de Sonetos - São Paulo - Companhia das Letras, 1991

Sonhado por Marcia, 15:06
Sonharam:




Domingo, Fevereiro 15, 2004

"Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota." Adélia Prado


DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ

Ontem fui ver uma casa vazia, que espera seus inquilinos. Onde fica, qual o seu aluguel, isto não são coisas contidas no ofício da cronista. Estava toda escancarada para um sol que lampejava enviesado, desconcertando pelo seu absurdo de má pintura. Já era quase noite num canto do céu. E havia um rasgão azul cintilante, feito para clarear a casinha, que se oferecia, toda branca e nova, para quem quisesse e pudesse. Quando entrei - um operário cantava, outro metia a cabeça pintalgada de branco sob a torneira do jardim. Havia água, espaço, terra em torno, muros cercando o pequeno domínio. Muitas pessoas têm ido ver a casinha vazia. As mulheres ficam perturbadas por um amontoado de sonhos que se desencadeiam, mal elas põem os pés no pequeno terraço. "Aqui fecharei com persianas; será quase um jardim, para que o neném não saia. E mandarei pintar da mesma cor da parede essa tremenda barra de cor verde, na sala de jantar, fingindo mármore". Depois de uma pausa, talvez ainda acrescentem:

"Este quarto será transformado em escritório, porque tem muita parede, e bem se pode nele instalar a grande estante de dois metros e oitenta. E neste canto do quarto cabe a cama de casal".

A casinha será medida, considerada por uma respeitável quantidade de pessoas. Alguém se alegrará com o quintal, nele instalando em imaginação a casa do seu cachorro ou o galinheiro. Pessoas poéticas verão crescidas, aninhando as paredes, amorosas trepadeiras, assim como as begônias no terraço, mais as avencas e os gerânios.

Gostei de ver a casinha desalugada. Ainda não se sabe de quem será! É um palco pequeno e adornado, esperando por seus atores. Até a música que o operário cantarolava me parecia qualquer canto de apresentação, antes de uma peça, cuja primeira parte constará, talvez, da invasão de uma família com sua velha e seu papagaio, seu piano que não encontra parede, sua moça que reclama tudo, e a mãe que briga com os fornecedores. Um gato morrerá, quase, de susto, traumatizado com a alvura das paredes desconhecidas. A jovem achará a barra de imitação de mármore o tipo da coisa suburbana. 0 pai, vindo de uma era de casas mais enfestadas, defenderá aquela aparência de suntuosidade com o calor que só as discussões domésticas podem ter. Haverá um filho estudando, brigas sobre o horário do almoço, objetos perdidos na mudança, e o martirológio da dona da casa entoado por ela própria, sem que ninguém se importe com seu drama. Pode ser que a moça se case, que haja na salinha de barra verde uma mesa com comes e bebes. Acontecerá, quem sabe, em certa madrugada, riscar o escuro o choro de uma criancinha recém-nascida pungentemente cantando dos difíceis começos, doloridos começos de qualquer vida. Haverá alegria, haverá dívidas de dar nó na garganta, e festa de formatura, e discussões políticas. A casinha nova, então, terá paredes riscadas, gordura sobre o forro da cozinha, portas sem chave, torneiras escorrendo. Na ex-cobiçada pequena casa pessoas baterão portas com raiva:

- "Esta casa é um inferno!"

Outras chegarão nela, já toda sabida e experimentada, como amante sem segredo, e irão diretamente a um canto mais fresco do terraço, ou para a profundeza de um quarto.

- "Eu estava morrendo de calor (ou de cansaço). Não agüentava mais a rua."

Terá a casinha tão perfeitamente pura, hoje, pregos caídos da parede, ladrilhos que faltam, como dentadura incompleta. Se passar algum tempo mais - talvez que o velho morra, e se enterre com a roupa feita ainda para o casamento da filha em seu caixão, que no alto será levantado, quando atravessar o portãozinho.

Ah, casinha que espera seus donos, branca e bonita como uma noiva menina! Estás preparada para teu destino. E, antes dos moradores - compactos fantasmas de vida e de morte já te povoam, eu sei.

Casa para alugar - do livro "Quadrante 2", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1963.

Sonhado por Marcia, 13:41
Sonharam:




Domingo, Fevereiro 08, 2004

"Há um espetáculo maior do que o mar, e é o céu. Há um espetáculo maior do que o céu, e é o interior da alma." Victor Hugo


HELOISA SEIXAS

Em torno, havia a noite de verão, morna e suave. Uma brisa mínima soprava por entre coqueiros e amendoeiras, trazendo o cheiro do mar.

No deque, as ripas de madeira escura estavam mornas, guardando ainda um pouco do sol. Dali, de onde eles estavam, na pequena amurada de madeira, era possível ver a sombra do mar, lá embaixo. Havia pouco movimento em torno. Apenas algumas mesas do restaurante estavam ocupadas, suas toalhas brancas caindo ao chão como fantasmas adormecidos. E havia também pouca luz. Além da luminosidade natural da noite, apenas os tocheiros de jardim, com suas chamas tremeluzentes, incertas.

A mulher pousou as duas mãos na balaustrada de madeira e respirou fundo, fechando os olhos. Sentiu o perfume das amendoeiras, mesclado ao odor mais forte que vinha do mar. "Cheiro de florestas menstruadas." Quis sorrir ante a lembrança da frase de Nelson Rodrigues, que sempre a fascinara, mas mordeu o lábio, invadida por um desejo súbito, selvagem. Porque nesse instante, ainda de olhos fechados, sentiu o calor da mão do homem deslizando em torno de sua cintura pela primeira vez - a primeira vez, após tão longe espera.

Manteve-se imóvel, ainda por um momento, olhos cada vez mais apertados, lábios também, toda ela resistindo àquele toque, o prenúncio da loucura. Mas sabia que era uma resistência vã. Ela própria tecera a noite com os fios da sedução. Vestira o vestido preto de seda, cujo decote deixava-lhe os ombros nus, e enfeitara o colo com seu mais belo colar, de coral vermelho. Preparara-se para aquela entrega.

E logo sucumbiu.

Abrindo os olhos, virou-se, as mãos ainda cravadas na madeira, como num último pedido de socorro. E encontrou os olhos dele, faiscando à luz das tochas. Virou-se mais, com a lentidão da tortura, o sangue incendiado por aquelas mãos que - as duas - a enlaçavam agora com mais firmeza, puxando-a. E deixou-se ir.

Deslizou as mãos pelos braços dele em direção aos ombros, ao pescoço, prendendo-as ali como ervas daninhas. Não havia mais volta. Nem arrependimento. Rendida, entreabriu os lábios e ergueu o rosto, à espera. E foi assim, entre prazer e dor, que recebeu o beijo proibido, sentindo cravadas na nuca as pontas irregulares do colar de coral - como coroa de espinhos.

O Encontro - do livro Contos Mínimos - Rio de Janeiro - Record, 2001

Sonhado por Marcia, 16:44
Sonharam:




Quarta-feira, Fevereiro 04, 2004

"Minha linguagem é inovadora sim, e essencialmente poética. Não obedece a convenções gramaticais, tem outro ritmo porque não pensamos nem sentimos de forma simplizinha, organizada ou linear. Sei que não escrevo do jeito que a grande maioria dos leitores está acostumado a ler. A forma é inovadora, mas não incompreensível, dizer que sou incompreensível é bobagem. Eu escrevo em português. Tem um amigo meu, o Edson, que recomenda que eu seja lida em voz alta. A linguagem, para mim, é o que justifica você contar alguma coisa, porque as histórias, há milênios, são sempre as mesmas. O homem não mudou, nossos questionamentos e pavores são os mesmos, não modificamos nenhuma das nossas realidades essenciais, nossas emoções, ainda nascemos e morremos como desde sempre, apesar da luta dos cientistas e dos místicos para alterar isso."



"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."


HILDA HIST


Morreu ontem, aos 73 anos, em Campinas (interior de São Paulo), a escritora paulista Hilda Hist.

Internada desde o dia 1º de janeiro no Hospital das Clínicas da Unicamp para a realização de uma cirurgia, após sofrer uma queda que causou uma fratura no fêmur, a escritora tinha deficiência crônica cardíaca e pulmonar, o que agravou seu quadro clínico.

Taxada desde sempre de maldita, pornográfica, escandalosa, Hilda Hilst foi, no entanto, uma das mais talentosas escritoras brasileiras. Inovadora, extravagante e controvertida, são adjetivos que traduzem a força da linguagem de sua obra. Numa avaliação a sério, a crítica especializada já sentenciara: "a poesia de Hilda desenha um arco de coerência e inspiração sem igual em qualquer outro autor vivo no Brasil."

A escritora, que teve textos traduzidos para o francês, o inglês, o italiano e o alemão, recebeu importante prêmios, como o de melhor livro do ano, concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, por "Ficções" (1977), e o Jabuti, em 1984, por "Cantares de perda e predileção" (1983), e em 1993 por "A obscena senhora D. Qadós" (1993).

Nascida em 21 de abril de 1930, Hilda Hist, com a separação dos pais, o fazendeiro, jornalista, poeta e ensaísta Apolônio de Almeida Prado Hilst e Bedecilda Vaz Cardoso, mudou-se com a mãe para Santos. Em 1946, pela primeira vez, visitou o pai em sua fazenda em Jaú. Em apenas três dias, no pouco tempo que passou com ele, perturbou-se com sua loucura. Em "Carta ao Pai" diz a biografada:

"Só três noites de amor, só três noites de amor", implorava o pai, sim, o pai, ele nunca fizera uma coisa como essa, sim, era Jaú, interior de São Paulo, um dia qualquer de 1946, sim, a filha deslumbrante, tremendo em seus 16 anos, sim, o pai a confundia com a mãe, a mão dele fechada sobre a dela, sim, o pai a confundia com a mãe, a confundia, sim?..."

Aconselhada pela mãe, em 1948 inicia seus estudos de Direito na Faculdade do Largo do São Francisco. A partir de então levaria uma vida boêmia que se prolongou até 1963. Moça de rara beleza, Hilda comportava-se de maneira muito avançada, escandalizando a alta sociedade paulista. Despertou paixões em empresários, poetas (inclusive Vinicius de Moraes) e artistas em geral.

Em 1950 Hilda lançou seu primeiro livro, "Presságio", e no ano seguinte "Balada de Alzira". Conclui o curso de Direito em 1952. Três anos depois publica "Balada do Festival".

Em 1959 publica o livro de poesia "Roteiro do silêncio" e "Trovas de muito amor para um amado senhor". José Antônio de Almeida Prado, primo da escritora, inspira-se em poemas desse último livro e compõe a "Canção para soprano e piano". Em outras oportunidades voltou a basear-se em textos de Hilda para compor alguns de seus trabalhos mais significativos. Os compositores Adoniran Barbosa ("Quando te achei") e Gilberto Mendes ("Trovas"), entre outros, também se inspiraram em textos da autora.

"Ode fragmentária" é lançado em 1961. Seu livro "Trovas de muito amor para um amado senhor" é reeditado por Massao Ohno.

É agraciada com o Prêmio Pen Club de São Paulo pelo livro "Sete cantos do poeta para o anjo", em 1962. Passa a morar na Fazenda São José, a 11 quilômetros de Campinas (SP), de propriedade de sua mãe. Abre mão da intensa vida de convívio social para se dedicar exclusivamente à literatura. Tal mudança foi influenciada pela leitura de "Carta a El Greco", do escritor grego Nikos Kazantzakis. Entre outras teses, defende o escritor a necessidade do isolamento do mundo para tornar possível o conhecimento do ser humano.

Muda-se para a Casa do Sol, construída na fazenda, onde passa a viver com o escultor Dante Casarini, em 1966. Morre seu pai.

Em 1967 redige "A possessa" e "O rato no muro", iniciando uma série de oito peças teatrais que escreveria até 1969. Lança "Poesia (1959 / 1967)".

Por imposição da mãe, internada no mesmo sanatório em Campinas onde estivera seu pai, casa-se com Dante Casarini, em 1968. Escreve as peças "O visitante", "Auto da barca de Camiri", "O novo sistema" e "As aves da noite". "O visitante" e "O rato no muro" são encenadas no Teatro Anchieta, em São Paulo, para exame dos alunos da Escola de Arte Dramática, sob direção de Terezinha Aguiar

Em 1969 escreve "O verdugo" e "A morte do patriarca". A primeira recebe o Prêmio Anchieta. A montagem de "O rato no muro", sob a direção de Terezinha Aguiar, é apresentada no Festival de Teatro de Manizales, na Colômbia.

"Fluxo-Floema", sua primeira obra em prosa, é lançada em 1970. A peça "O novo sistema" é encenada em São Paulo, no Teatro Veredas, pelos Grupo Experimental Mauá (Gema), sob a direção de Terezinha Aguiar. Baseando-se nos experimentos do pesquisador sueco Friedrich Juergenson relatados no livro "Telefone para o além", Hilda Hilst iria se dedicar, ao longo desta década que se iniciava, à gravação, através de ondas radiofônicas, de vozes que, assegurava, seriam de pessoas mortas. No mesmo período anunciou a visita de discos voadores à sua fazenda. "O verdugo" é editado em livro, e é, até hoje, a única que não é inédita. Morre sua mãe, Bedecilda.

Em 1972 o Grupo de Teatro Núcleo, da Universidade Estadual de Londrina, sobre a direção de Nitis Jacon A. Moreira, encena a peça "O verdugo". Essa mesma peça é encenada no Teatro Oficina, em São Paulo, sob a direção de Rofran Fernandes, no ano seguinte, época em que foi lançado seu novo livro "Qadós".

"Júbilo, memória, noviciado da paixão" é lançado em 1974.

Em 1980 saem os livros "Poesia (1959/1979)", "Da morte. Odes mínimas", e "Tu não te moves de ti". Recebe da APCA o prêmio pelo conjunto da obra. Divorcia-se de Dante Casarini, mas o ex-marido continua morando na Casa do Sol.

Em 1984 saem os "Poemas malditos, gozosos e devotos". Dois anos depois, em 1986, publica os livros "Sobre a tua grande face" e "Com meus olhos de cão e outras novelas". 1989 marca o lançamento de "Amavisse".

Com "O caderno rosa de Lori Lamby", livro que consagra sua fase pornográfica (iniciada em "A obscena senhora D"), a escritora anuncia o "adeus à literatura séria" (1990). Justifica essa medida radical como uma tentativa de vender mais e assim conquistar o reconhecimento do público. A obra provoca "espanto e indignação" em seus amigos e na crítica. O editor Caio Graco Prado se recusa a publicá-la e o artista plástico Wesley Duke Lee a considera "um lixo". Lança "Contos d'escárnio / Textos grotescos e Alcoólicos".

O quarto livro de sua fase pornográfica, "Cartas de um sedutor" é lançado em 1991. O livro "O caderno rosa de Lori Lamby" é traduzido para o italiano. Estréia, em São Paulo, a peça "Maria matamoros", adaptação do texto "Matamoros" que se encontra no livro "Tu não te moves de ti".

Em 1992 lança a antologia poética "Do desejo" e "Bufólicas", livro de poesias pornográficas. Passa a colaborar com o Correio Popular, jornal diário de Campinas (SP), escrevendo crônicas semanais; o trabalho se estenderia até
1995.

Desejo

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
(.....)
Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

No ano seguinte publica "Rútilo nada", num livro que também continha "A obscena senhora D" e "Qadós". "Rútilo nada" recebe o Prêmio Jabuti na categoria "Contos".

Em 1994, "Contos d'escárnio & Textos Grotescos" é traduzido para o francês e em 1995 sai o volume "Cantares do sem nome e de partidas". O Centro de Documentação Alexandre Eulálio, da UNICAMP, adquire seu arquivo pessoal. A escritora sofre isquemia cerebral.

Em 1997, lança "Estar sendo. Ter sido". Seus poemas são lidos em Quebec, Canadá, juntamente com textos de Safo, Gabriela Mistral e Marguerite Yourcenar, entre outras autoras, no recital Le féminin du feu, durante as comemorações do Dia Internacional da Mulher.

A edição bilíngüe (português-francês) do livro "Da morte. Odes mínimas" é publicada em 1998. Publica também "Cascos & Carícias: crônicas reunidas (1992-1995)", volume de textos que saíram no jornal "Correio Popular". Volta a se dedicar a questões sobrenaturais: afirma acreditar no contato dos mortos com a Terra através de mensagens enviadas via fax. Reafirma o desejo de construir em suas terras um centro de estudos da imortalidade.

Em 1999, lança a antologia poética "Do amor". Sob a coordenação do escritor Yuri V. Santos entra no ar seu site oficial:

"O caderno rosa de Lori Lamby" é levado ao palco sob direção de Bete Coelho e tendo no papel principal a atriz Iara Jamra.

Em 2000, lança "Teatro reunido" (volume 1)". Estréia, em Brasília, a adaptação teatral de "Cartas de um sedutor". Estréia, na Casa de Cultura Laura Alvin, no Rio de Janeiro, o espetáculo "HH informe-se", reunião e adaptação teatral de textos da autora. Inauguração, em dezembro, da "Exposição Hilda Hilst - 70 anos", evento criado pela arquiteta Gisela Magalhães no SESC Pompéia, em São Paulo.

Em 2001, estréia, no Rio de Janeiro, a adaptação teatral de "Cartas de um sedutor". A Editora Globo passa a ser responsável por toda sua obra publicada.

Agraciada, em 2002, com o Prêmio Moinho Santista - 47ª edição, categoria poesia.

Fontes:
http://www.releituras.com/hildahilst_bio.asp
http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.asp?coluna=visualiza_arte&id=1537



Sonhado por Marcia, 14:57
Sonharam:




Domingo, Fevereiro 01, 2004

"Procure embaixo de sua saudade,/ um beijo meu./ Em algum instante da despedida/ ele se perdeu,/ mergulhado, talvez,/ numa lágrima perdida."


FLORA FIGUEIREDO

Trouxe para você
um kit ternura.
Vem composto
de um beijo molhado e aquecido
no ponto ideal.
Para não causar resfriado
nem queimadura de terceiro grau.
Uma mordiscada
para ser usada por perto da nuca,
de preferência sempre perfumada;
um susurro na orelha,
no lado de trás,
onde o arrepio se satisfaz;
um abraço tão justo, tão justo,
que o coração pode levar um susto
com medo de ser atropelado;
um carinho tão preciso
que lhe faça desvestir o juízo,
e de tal habilidade,
que, a cada recaída minha
de infidelidade,
possa servir como abono.
Um aviso
para ser colado à testa
e em toda fresta que você tiver:
"Tem dono."

Kit - Do livro Amor a Céu Aberto - Rio de Janeiro - Nova Fronteira, 1992

Sonhado por Marcia, 16:42
Sonharam:




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"Entre o sono e o sonho
entre mim e o que em mim
é o que eu me suponho
corre um rio sem fim."
Fernando Pessoa

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:: Canção em segredo::
Dentro desta mulher
um anjo menino
brinca de ciranda na calçada
e tem fome de futuro.
Dentro desta mulher
uma criança se debruça na janela
vendo chegar o amor
e se julga imortal.

Dentro desta mulher
uma guerreira constrói sua vida
depois de parir filhos para o mundo.
Dentro desta mulher
outra mulher enterra o seu amor perdido
e mesmo assim espera.

(Dentro desta mulher
o mistério das coisas
finge dormir.)
Lya Luft

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