Brasil - Rio de Janeiro - Hoje é dia: /
Terça-feira, Abril 27, 2004

"Nunca usei bombachas, não gosto de chimarrão e nem de me lembrar da última vez que subi num cavalo. Aliás, o cavalo também não gosta."



LUIS FERNANDO VERÍSSIMO


Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vem de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada) mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.

Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.

- Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.

- O senhor quer que eu deite logo no divã?

- Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.

- Certo, certo. Eu...

- Aceita um mate?

- Um quê? Ah, não. Obrigado.

- Pos desembucha.

- Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?

- Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.

- Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe

- Outro.

- Outro?

- Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.

- E o senhor acha...

- Eu acho uma pôca vergonha.

- Mas...

- Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!



Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.

- Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira... Mas acabou concordando.

- Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê! . Qual é o causo?

- Bem - disse o home - é que nós tivemos um desentendimento...

- Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?

- Eu não meti a espora. Não é, meu bem?

- Não fala comigo!

- Mas essa aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.

- Ela tem um problema de carência afetiva...

- Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.

- Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências extraconjugais e...

- Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?

- Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?

- Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?

- O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.

- Mas isto tá ficando mais enrolado que lingüiça de venda. Te deita no pelego.

- Eu?

- Ela. Tu espera na salinha.


O Analista de Bagé - do livro O gigolô das palavras, L&PM Editores - Porto Alegre, 1982.

Sonhado por Marcia, 16:11
Sonharam:




Terça-feira, Abril 20, 2004

HELOISA SEIXAS

Li certa vez que Alma Mahler guardava, na sala de sua casa, o berço em que dormira na primeira infância. Era um berço antigo de madeira, tosco, desses com um dispositivo que os faz balançar docemente, ao menor toque. Ali, no bojo vazio daquela que um dia fora sua própria cama, Alma guardava seus livros prediletos.

Arrumava-os, empilhados, em várias camadas, enchendo todo o espaço onde um dia houvera um colchão, lençóis, brinquedos e uma criança - ela própria. Certamente, quando remexia nos livros, buscando algum em especial, um livro para enternecer-se, para recordar ou esquecer - que é para isso que serve reler livros prediletos -, certamente, então, seu braço, esbarrando na lateral gradeada, fazia o berço balançar. E ela os ninava, talvez sem perceber.

Essa imagem de livros queridos sendo acalentados me encheu de ternura. Assim como um dia me comoveu ler o depoimento de Isak Dinesen, falando sobre a ansiedade que sentia, em sua fazenda na África, enquanto aguardava a chegada dos livros encomendados na Inglaterra. E de como, ao recebê-los, tocava cada volume com a ponta dos dedos, como se retirasse da caixa copos de finíssimo cristal. Sabia, ao tocá-los, que aqueles seriam seus únicos exemplares durante meses, até que chegasse nova remessa. Eram um tesouro insubstituível.

"Por isso, eu torcia para que os escritores tivessem dado tudo de si ao escrevê-los", explicou. É curioso. Porque ela própria, Isak Dinesen, escrevia assim, sem economizar, sem fazer concessões, pegando cada camada da narrativa e dissecando-a até o último fio. Escrevia dando tudo de si, entregando-se em cada linha - como se esperasse ser lida por um náufrago numa ilha deserta.

Esse amor pelos livros me comove, um amor que venho aprendendo a desenvolver, nos últimos anos. Antes, guardava meus livros de qualquer jeito, sem qualquer ordem nas estantes. E, ao lê-los, pouco me importava se os abria demais, se os virava ao contrário, se deixava a ponta da capa se enrolar numa feia orelha.

Estou mudando. Hoje, presto atenção nas pessoas que sabem cuidar bem de suas bibliotecas e observo a maneira como decidem a posição de cada volume nas estantes, o carinho com que tiram os mais antigos das prateleiras para tentar restaurar as lombadas, alisando-as cuidadosamente com goma e pincel. São gestos de uma delicadeza comovente, cuja observação me faz refletir. E, cada vez mais, tenho diante dos livros uma atitude de reverência. Olho-os e vejo como eles são puros, íntegros - como as crianças e os cristais.

Livros - texto retirado do site http://www.[clickescritores.com.br
Imagem: http://www.camara.rj.gov.br/setores/bibli/


Sonhado por Marcia, 16:05
Sonharam:




Quarta-feira, Abril 14, 2004

Minha imobilidade é um artifício/ A todo tempo oscilo/ entre a inércia do meu corpo/ e a fluidez do rio que abrigo."


IRACEMA MACEDO

Iracema Maria de Macedo Gonçalves da Silva nasceu em 27 de junho de 1970, em Natal, Rio Grande do Norte. Filha de João Agripino da Silva e Francisca de Macedo Silva, a poetisa fez os primeiros estudos no Instituto Maria Auxiliadora e no Colégio
Nossa Senhora das Neves, licenciando-se em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em 1991. Nesse mesmo ano, em parceria com os poetas Eli Celso e André Vesne, teve seus primeiros poemas publicados na coletânea Vale Feliz.

Em 1995, o grupo lançou uma nova coletânea de poemas intitulado Gravuras com os mesmos autores e "Idealismo e amor-fati na estética de Nietzsche" foi o tema da dissertação de mestrado, defendida por Iracema na Universidade Federal da Paraíba. A parceria entre os três jovens poetas rendeu um terceiro livro, Ceia das cinzas, publicado em 1998.

Embora Iracema escreva desde os 15 anos, lançando seus trabalhos, sistematicamente, desde 1991, somente em 2000, a poetisa assinou sozinha um livro de poesia "Lance de dardos" reunindo o conjunto de sua produção anterior, acrescido de 25 novos poemas. O livro está divido em quatro partes: "Vale Feliz" (1991) que participou de coletânea homônima; "A casa" que fez parte da compilação "Gravuras"(1995); "Brincantes de reisado" que já integrou, em 1998, a também coletânea "Ceia das Cinzas" e por fim, Lance de Dardos.

Prêmios recebidos:

Prêmio Othoniel Menezes, 1992, Prefeitura Municipal de Natal.
Prêmio Myriam Coeli de Poesia Infanto-juvenil, 1992, Fundação José Augusto, Governo do Estado do RN.
Prêmio Auta de Souza, 1994, Fundação José Augusto, Governo do Estado do RN



BACANTE

Em meu ninho longínquo
inicio ventos
invento cios
canto e danço em volta do fogo
transformo meu leite em vinho
e ofereço meu corpo para os lobos


O TEU DEMÔNIO

O teu demônio me segue
anos a fio
ele tece flores para mim
divide meu corpo em partes
Ele me culpa
acena feliz por trás das labaredas
dança ao meu redor
cresce como uma planta
eu aparo suas bordas seu rabo seus chifres
O teu demônio me encanta
como um retrato antigo amarelado
uma xícara de louça no mercado
O teu demônio me espanta
canta para mim todas as noites
me arde me explora me atormenta
O hálito quente sobre a minha boca
a febre sempre
O teu demônio vai embora hoje
eu fujo dentro dele a galope
eu vivo dentro dele feito um passarinho
feito uma coisa miúda enorme pobre
dilatada como um crucifixo
dura como uma esmeralda
Me esmero e espero
um dia me chamo Laura
tu me abocanhas os peitos
eu te abocanho a alma


AS VESTES

"Enfrentei furacões com meus vestidos claros
Quem me vê por aí com esses vestidos
estampados
não imagina as grades, os muros
o chão de cimento que eles tornaram leves
Não se imagina a escuridão
que esses vestidos cobrem
e dentro da escuridão os incêndios que retornam
cada vez que me dispo
cada vez que a nudez me liberta dos seus laços"


DANDARA

Eu só acreditava em Drummond:
o amor chega tarde
Não conhecia o amor que fulgura sem aviso
esse que se sabe proibido
o amor que já se sabe perdido desde o início
Eu não acreditava no impossível
vinha tão sóbria, tão cheia de medidas
não conhecia o esplendor da queda
nem a violência dos abismos


POEMA DO LOBO-DO-MAR

Como proteger-me desse lobo que vem vindo
Em que ilhas poderei me ocultar
em que barcos ousarei fugir
desse lobo que domina os barcos e as ilhas?

Reúno roupas negras faca escudo
De que adianta enfrentá-lo do meu jeito
se ele me despe do jeito que ele quer?

Como proteger-me dessas ondas
de prazer que ele traz em suas brisas
De que vale ferí-lo com meus versos
De que vale me lançar ao mar

Se não há como esconder-me de mim mesma
do exílio que sinto quando fujo
da vontade que tenho de ficar?


LANCE DE DARDOS

Como se fossem de mármore
os dardos duram dentro de mim
perfeitos
E aprendi com eles a lançar-me
e aprendi com eles a ter medo
a me esconder dos nomes
fugir das luzes fortes
e da insensatez dos automóveis
Aprendi com os dardos
uma espécie de vida iluminada
uma sutileza para arremessos
estratégias de ataque
fugas
um modo impecável de me abrigar da chuva
E aprendi também uma crueldade
e uma coragem toda feita de começos

http://www.amulhernaliteratura.ufsc.br/catalogo/iracema_textos.html
http://www.palavrarte.com/Equipe/equipe_iracema.htm


Sonhado por Marcia, 13:26
Sonharam:




Domingo, Abril 11, 2004

FELIZ PÁSCOA


A Páscoa é a principal festa cristã, na qual todos os anos se comemora a ressureição de Jesus Cristo. É a partir dessa data que todas as outras datas do calendário são estabelecidas. No entanto, um detalhe curioso, é que a festa, apesar de ser uma
comemoração da ressurreição de Cristo, é celebrada há mais de três milênios. Mas como, se na época Jesus não havia nem nascido? Realmente, mas no início as comemorações eram para celebrar as colheitas, onde todos festejavam e bebiam o sucesso e o fruto do trabalho. Essa festa era celebrada 50 dias após a Páscoa.

Do hebreu Pessach, Páscoa significa a passagem da escravidão para a liberdade. Nela se comemora a Passagem de Cristo - "deste mundo para o Pai", da "morte para a vida", das "trevas para a luz". Por isso passou a significar também um marco na
história do povo judeu: a travessia do mar Vermelho ao se libertar de um longo período de escravidão no Egito. Com este sentido, a Páscoa foi instituída no ano 1513 a.C. e continua sendo festejada pelos judeus. Ela começa na noite de 14 de Nissan e dura oito dias, nos quais é proibido comer pão e outras comidas levedadas. O objetivo da proibição é lembrar a época em que um povo inteiro, conduzido pela vontade de Deus encarnada em Moisés, saiu tão apressadamente do Egito, que a massa preparada para a fabricação do pão não teve tempo de fermentar. Nas primeiras noites celebram-se o "Seder", durante o qual contam-se a Matzah (pão sem fermento), harosset (ervas amargas), que traz a recordação simbólica da escravidão no Egito e depois a libertação.

Entre os símbolos da Páscoa encontram-se o Coelho da Páscoa, o Ovo de Páscoa, o Cordeiro Pascal, a Cruz da Ressurreição, o Círio Pascal, o Pão e o Vinho.

Coelho da Páscoa

Para os antigos egípcios o coelho era símbolo de fertilidade porque é um animal que se reproduz com muita rapidez. Já para a Igreja, não representa somente a reprodução da vida, mas também, o aumento da quantidade de discípulos.

No Hemisfério Norte a Páscoa é comemorada no início da primavera e também celebra o fim do inverno, a volta da vida. A associação da data ao coelho também acontece porque é nessa época que esses animais saem das tocas após longo período de recolhimento.

Mas também existem algumas lendas. Uma delas seria que uma mulher queria presentear os filhos e não tinha dinheiro para fazê-lo. Sendo assim, ela decidiu pintar ovos de cores diferentes e os escondeu num ninho. No momento em que as crianças acharam o presente, passou um coelho. Foi assim que se espalhou a história de que o coelho tinha trazido os ovos

O ovo

É um dos principais símbolos da Páscoa. Na idade Media acreditava-se que o mundo havia surgido de um ovo, e dele, a vida no planeta. Acredita-se que a tradição de oferecer ovos na Páscoa tenha vindo da China. Inicialmente presenteavam-se os amigos com os ovos cozidos e coloridos para celebrar a chegada da primavera no hemisfério norte - mesma época em que se comemora a Páscoa. Embrulhados com casca de cebola, os ovos eram cozidos com beterraba ou ervas que soltavam tinta, formando desenhos variados na casca.

Para os persas, o vermelho utilizado na decoração dos ovos tinha significado especial, pois celebravam a "festa do ovo vermelho" na chegada do ano novo, comemorado por eles no início da primavera.

Assim como os chineses e os persas, os egípcios também ofertavam ovos no início da nova estação, simbolizando a reiniciação de um novo ciclo na natureza. E, na Idade Média, os antigos povos europeus homenageavam a Deusa da Primavera Ostara - ou Eostre (em inglês, Easter, derivada de Eostre, quer dizer Páscoa) -, que é representada segurando um ovo, símbolo da chegada de uma nova vida. Até hoje , povos da Europa central cultivam o costume de presentear ovos de galinha, pintados em cores vivas, para trazer boa sorte, fertilidade, amor e fortuna.

O Cordeiro

Na igreja cristã, o cordeiro transforma-se em um símbolo de Cristo, que sacrificou-se em favor de todo o mundo - o cordeiro de Deus.
O cordeiro simboliza a vida. Com seu pêlo branco, simboliza a pureza e a sua altitude pacífica deve ser um chamado de paz.

A Cruz da Ressurreição

Traduz, ao mesmo tempo, sofrimento e ressurreição.

O Círio

É a grande vela que se acende na Aleluia. Quer dizer: "Cristo, a luz dos povos". Alfa e Ômega nela gravadas querem dizer: "Deus é o princípio e o fim de tudo".

O Pão e o Vinho

Na ceia, o pão e o vinho foram escolhidos por Jesus Cristo para dar vazão ao seu amor. Representa o seu corpo e o seu sangue, para celebrar a vida eterna.


Sobre o Chocolate

O prazer do chocolate é tanto, que já foi considerado pecado. Essa história tem seu início com as civilizações dos Maias e Astecas, que consideravam o chocolate como algo sagrado, tal qual o ouro. Os astecas compravam ou trocavam produtos, usando o chocolate como moeda.

Na Europa, por volta do século (XVI), acreditava-se que o chocolate dava poder e força a quem o bebia. Por isso, a bebida era restrita para governantes e soldados.

Em 1828, mais ou menos quando começa a se desenvolver a indústria do chocolate, nasce o moderno ovo de Páscoa. Os primeiros eram de chocolate escuro, recheados, mas bastante simples. A evolução rápida e o refinamento atingem o auge nas décadas de 1830 e 40, quando os ovos chegam a alcançar tamanhos gigantescos e são super-decorados. Já aí, à tradição da Páscoa está aliada a um novo elemento, o chocolate, como fonte de alimento de alto valor nutritivo e energético.


Fontes: http://odia.ig.com.br/sites/pascoa2004/origem.htm
http://virtualbooks.terra.com.br/livros_online/
http://www.festaemcesta.hpg.ig.com.br
Jornal número 123 - ABN AMRO


Sonhado por Marcia, 07:46
Sonharam:




Segunda-feira, Abril 05, 2004

"O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta."


ADÉLIA PRADO



Depois de muita e boa chuva, Célia voltava de Belo Horizonte para sua casa no interior do Estado. Era bom viajar de ônibus, vendo, parecia-lhe que pela primeira vez, o verde rebrotando com força. Ouviu um passageiro falando pra ninguém: que cheiro de mato! Sol farto e os moradores desses conjuntos habitacionais de caixa de papelão e zinco, que brotam como grama à margem das rodovias, aproveitavam pra esquentar o couro rodeados de criança e cachorro. Os deserdados desfilavam, a moça e seu namorado com bota de imitação de peão boiadeiro iam de mãos dadas, com certeza à casa de uma tia da moça, comunicar que pretendiam se casar. Uma avó gorda com seu neto também passou, ela de sombrinha, ele de calcinha comprida de tergal. Iam aonde? Célia fantasiou, ah, com certeza na casa de uma comadre da avó, uma amiga dela de juventude. O menino ia sentir demais a morte daquela avó que lhe pegava na mão de um jeito que nem sua mãe fazia. Desceram três moços de bermuda e camisa do Clube Atlético Mineiro, e um quarto com grande inscrição na camiseta: SÓ CRISTO SALVA! Camiseta e bermuda não favorecem a ninguém, ela pensou desgostosa com a feiúra das roupas. Bermudas principalmente, teria que se ter menos de dez anos pra se usar aquela invenção horrorosa. Teve dó dos moços que só conheciam futebol e dupla sertaneja. Foi um pensamento soberbo, se arrependeu na hora. Tinha preconceitos, lembrou-se de que gostara muito de um jogo de futebol em Londrina, rodeada de palavrões e chup-chup com água de torneira e famílias inteiras se esturricando gozosamente entre pão com molho e adjetivos brutais, prodigiosamente colocados, lindos e surpreendentes como as melhores invenções da poesia. Concluiu sonolenta, o mundo está certo. Uma criança começou a chorar muito alto: quero ficar aqui não, quero sentar com meu pai, quero o meu pai. A mãe parecia muito agoniada e pelo tom do choro Célia achou que ela abafava a boca da criança com uma fralda ou a apertava raivosa contra o peito, envergonhada de ter filha chorona. Suposições. Tudo estava muito bom naquele dia, não sofria com nada, nem ao menos quis ajudar a mãe, botar a menina no colo, estas coisas em que era presta e mestra. Assistia ao mundo, rodava macio tudo, o ônibus, a vida, nem protagonista nem autora, era figurante, nem ao menos fazia o ponto naquele teatro perfeito, era só platéia. Aplaudia, gostando sinceramente de tudo. Contra céu azul e cheiro de mato verde Deus regia o planeta. Estava muito surpresa com a perfeita mecânica do mundo e muitíssimo agradecida por estar vivendo. Foi quando teve o pensamento de que tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada. Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer.

Rodando - do livro Filandras, Editora Record - Rio de Janeiro, 2001.

Sonhado por Marcia, 22:53
Sonharam:




Domingo, Abril 04, 2004

"O brasileiro quando é do choro, é entusiasmado/ Quando cai no samba, não fica abafado/ E é um desacato quando chega no salão ..." Waldir Azevedo


O BRASILEIRINHO DE DAIANE DOS SANTOS



Mais uma vez Daiane dos Santos levantou o público. Ao som de "Brasileirinho", a atleta foi ovacionada ao final da sua apresentação, o que também havia acontecido nas eliminatórias, na última sexta-feira. Sua apresentação no solo garantiu a medalha de ouro na etapa do Rio de Janeiro da Copa do Mundo de ginástica.

Para nossa alegria também tivemos Diego Hypólito, único brasileiro a conquistar duas medalhas de ouro em uma mesma etapa da Copa do Mundo. Isso tudo na mesma etapa em que conquistou a primeira medalha da ginástica masculina em uma competição mundial e Daniele Hypólito, sua irmã, que conquistou duas medalhas, prata nas barras assimétricas e ouro na trave.

E completando, estreando em pódios em Copas do Mundo Mosiah Rodrigues e Camila Comin. Único brasileiro que irá competir nas Olimpíadas de Atenas, Mosiah foi prata no cavalo com alças, no sábado. Camila foi prata na trave e bronze no solo.


PARABÉNS A TODOS PELA GARRA, CORAGEM E DEDICAÇÃO!


Fonte: http://esporte.uol.com.br/outros/ultimas/2004/04/04/ult803u258.jhtm
Felipe Varanda/Folha Imagem


Sonhado por Marcia, 16:11
Sonharam:




Quinta-feira, Abril 01, 2004

PRIMEIRO DE ABRIL: O DIA DA MENTIRA


Tudo começou em 1564, quando Carlos IX, rei de França, por uma ordonnance de Roussillon, Dauphine, determinou que o ano começasse no dia primeiro de janeiro, no que foi seguido por outros países da Europa. É claro que, no início, a confusão foi geral, de vez que os meios de comunicação ainda eram inexistentes. Não havia rádio, televisão, nem mesmo o jornal, pois a invenção da imprensa, por Gutenberg, só aconteceu muitos anos depois.

Antes de Carlos IX determinar que o dia primeiro de janeiro fosse o começo do ano, este tinha início no dia primeiro de abril, o que resultou ficar conhecido como o Dia da Mentira., por força das brincadeiras feitas com a intenção de provocar hilaridade.

Surgiram, então, as brincadeiras (que os franceses denominavam de plaisanteries) em todo o mundo, como a da carta que se mandava por um portador destinada a outra pessoa, na qual se lia o seguinte: "Hoje é primeiro de abril. Mande este burro pra onde ele quiser ir".

Seria um nunca acabar se fossem, aqui, relacionadas as brincadeiras referentes ao primeiro de abril. Até mesmo eram distribuídas cartas convidando amigos para assistirem ao enlace matrimonial de pessoas que nem sequer se conheciam, mencionando a igreja, o dia e a hora em que seria celebrado o suposto casamento.

Vejamos alguns primeiros de abril pregados pela imprensa mundial, conforme relata a revista Isto é, de São Paulo, n11 1488, edição de 8 de abril de 1998: 1) "A África do Sul comprou Moçambique por US$ 10 bilhões. 0 anúncio do negócio fora feito na Organização das Nações Unidas pelo presidente sul-africano Nelson Mandela. Deu no jornal Star, de Johannesburgo; 2) A Rádio Medi, de Tânger, no Marrocos, noticiou que o Brasil não iria participar da Copa do Mundo porque o dinheiro da seleção seria usado na luta contra o incêndio em Roraima; 3) A minúscula república russa Djortostão declarou guerra ao Vaticano. Motivo: arrebatar o título de menor Estado da Europa. Para tanto, ele teria doado seis metros quadrados de seu território a uma república vizinha. Isso tudo de acordo com o jornal Moscou Times; 4) Diego Maradona, ex-capitão da seleção argentina de futebol, é o novo técnico da seleção do Vietnã. Deu nos principais jornais vietnamitas; 5) Ao deixar o Senegal, o presidente americano Bill Clinton seria acompanhado de uma comitiva formada pelos primeiros 50 senegaleses que fossem à embaixada para pedir visto de entrada nos EUA. Assim informou o jornal Le Soleil, do Senegal. Centenas de senegaleses acreditaram na mentira e correram para a embaixada americana."

Noticiando o falecimento de Maurício Fruet, ex-prefeito de Curitiba e ex-deputado federal, a revista Isto é, São Paulo, nº 1510, edição de 9 de setembro de 1998, informou que ele "era considerado o parlamentar mais brincalhão e espirituoso que passara pela Câmara dos Deputados. Um exemplo: convocou uma falsa reunião de todo o secretariado do então governador coberto Requião no dia 1º de abril de 1990 (havia 15 dias que Requião tomara posse). Os Secretários, sem entender nada, passaram toda a madrugada no Palácio Iguaçu. De manhã, Fruet fez chegar a informação de que era um trote do Dia da Mentira."

Tudo faz crer que as brincadeiras, originárias das plaisanteries francesas, continuem sempre a existir, graças à eternidade das manifestações folclóricas no mundo inteiro.


Da série FOLCLORE, editada pelo Departamento de Antropologia da FJN - nº 255
http://www.soutomaior.eti.br/mario/paginas/cur_1abr.htm


Sonhado por Marcia, 17:37
Sonharam:




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"Entre o sono e o sonho
entre mim e o que em mim
é o que eu me suponho
corre um rio sem fim."
Fernando Pessoa

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:: Canção em segredo::
Dentro desta mulher
um anjo menino
brinca de ciranda na calçada
e tem fome de futuro.
Dentro desta mulher
uma criança se debruça na janela
vendo chegar o amor
e se julga imortal.

Dentro desta mulher
uma guerreira constrói sua vida
depois de parir filhos para o mundo.
Dentro desta mulher
outra mulher enterra o seu amor perdido
e mesmo assim espera.

(Dentro desta mulher
o mistério das coisas
finge dormir.)
Lya Luft

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