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Sábado, Maio 29, 2004

"... A imaginação, o sentimento, o novo, o imprevisto que saem de um espírito desenvolvido sendo coisa inacessível para eles, cabeças tapadas, cérebros obtusos, eternamente fechados à luz, eles precisam de alguém que a forneça. Eles diziam: ... nós nos servimos de uma alucinada para encontrar nossos temas. Devia haver alguns pelo menos que fossem gratos e soubessem dar alguma compensação à pobre mulher que despojaram do seu gênio: não! uma casa de alienados! Nem sequer o direito de ter minha casa! Porque é preciso que eu seja submissa à vontade deles! É a exploração da mulher, o esmagamento da artista que querem fazer até sangue..." (cartas do asilo - trecho)

CAMILLE CLAUDEL



Camille Claudel nasceu no dia 8 de dezembro de 1864 em uma pequena cidade do Tardenois, nos arredores de Paris, sendo a segunda entre quatro irmãos de uma família burguesa francesa. Sempre foi diferente das outras meninas, pois não aceitava as imposições da sociedade francesa, machista e preconceituosa. Ainda pequena Camille fugia de casa atrás de barro para suas esculturas, atividade que sempre contou com o apoio do pai. Com a mãe e sua irmã Louise, jamais conseguiu um bom relacionamento. Incentivada pelo pai, pôde desenvolver sua vocação artística, dedicando-se aos seus primeiros estudos de escultura. Em 1881, aos dezessete anos, mudou-se com a família para Paris, estimulada pela sugestão do escultor Boucher, que reconhecia em Camille um talento a ser desenvolvido e, pela preocupação de seu pai que procurava melhorar os padrões de educação e preparo dela e de seus irmãos.

Talentosa e determinada, Camille resolveu empregar-se no estúdio de Auguste Rodin, por indicação de Boucher. Tornou-se aluna, discípula, colaboradora e a primeira mulher a quem Rodin deu aulas. Passaram a ter uma relação amorosa e costumavam servir de modelo um para o outro. Por esculpir figuras nuas e ser amante assumida de Rodin, Camille passou então a ser rejeitada pela sociedade, passando assim a ser vítima de um duplo preconceito, por ser mulher e também por ser escultora.

Camille Claudel logo demonstrou sua grande habilidade. Participou da concepção e execução de vários projetos, de esculturas ou de parte delas, dentre as encomendas que chegavam ao atelier do grande escultor, sobrando-lhe pouco tempo para dedicar-se às suas próprias obras. Durante sua carreira Camille fez várias esculturas como: "Idade madura", "Sakuntala", "Perseu e Medusa", "A aurora" e "Pequena castelã".

O relacionamento amoroso entre Camille e Rodin durou quase 15 anos. Trabalharam juntos numa comunhão de talentos e de identidades criativas. Com o passar dos anos, a relação de amor, cumplicidade e admiração transformou-se numa relação conflituosa e cheia de mágoas, como consequência do pouco reconhecimento do trabalho de Camille em contraposição ao sucesso sempre crescente de Rodin, bem como do não cumprimento das promessas do escultor quanto à abandonar a companheira Rose e assumir a relação com a escultora.



Após a ruptura, que marcaria profundamente Rodin e sua obra, o sentimento de fracasso afetivo e a solidão encaminharam a frágil estrutura emocional de Camille Claudel ao desespero, ao ressentimento e ao ódio de seu antigo companheiro. No entanto, era em seu trabalho que encontrava forças. Em 1899, esculpiu Retrato do sr. Conde, Clotos (mármore), A idade madura (gesso), Os caminhos da vida. Em 1902, produziu Perseu (mármore). Em 1903, A idade madura (bronze), Abandono (mármore), Figura de joelhos, Perseu (bronze).

Passou a viver isolada em seu atelier, tornando-se a "reclusa do Quai Bourbon", restrita a um espaço úmido e mal-conservado, em plena Ile de Saint-Louis, no coração de Paris. Após várias manifestações de uma paranóia persecutória, naufragada na miséria, na solidão e no desespero da falta de reconhecimento que lhe teria sido importante num dado momento, Camille passou a responsabilizar de maneira crescente a Rodin pelos seus insucessos e dificuldades, a ponto de colocar em risco sua própria vida.



Vivendo pobremente, assistiu cerrarem-se suas oportunidades como escultora uma vez que lhe faltavam encomendas para obras em espaços públicos, o que ela atribuía a influências nefastas de seu antigo mestre. Passou a esculpir e, para logo em seguida, destruir e enterrar seus estudos e maquetes. Camille tinha medo de que Rodin assinasse-as roubando-lhe a sua autoria. Outro motivo seria o ciúme e a raiva que ela sentia por haver sido desprezada por Rodin.

Em 1913, depois da morte de seu pai, ela foi internada num hospício, pela família. Camille foi aprisionada numa instituição, quase como se estivesse numa prisão perpétua onde passou trinta anos. Morreu em 1943, frustrada, fracassada, aprisionada e louca, extinguindo-se assim a chama do talento e da vivacidade de uma grande escultura.


Fontes:
http://www.beatrix.hpg.ig.com.br/arte/claudel.htm
http://www.vaidarcerto.com.br/artigo.php?acodigo=155
http://www.artevida.hpg.ig.com.br/camille_texto.htm

Sonhado por Marcia, 17:16
Sonharam:




Quarta-feira, Maio 26, 2004

"O artista, retirando do universo as formas e as cores, com sua sensibilidade em sua arte, procura traduzir-nos as realidades invisíveis essenciais que estão presentes e que nossos olhos acostumados com as aparências, muitas vezes, não conseguem captar e admirar."


Ele nasceu em 26 de fevereiro de 1802, em Besançon, na França. Dono de uma inteligência palpitante, Vitor Marie Hugo viveu intensamente. Foi poeta, romancista, dramaturgo, desenhista, revolucionário, político e um dos mais importantes escritores românticos franceses. Foi também o porta-voz dos oprimidos, um ardente oponente da pena de morte e a voz do Republicanismo. Uma das obras mais conhecidas de Victor Hugo é "Notre-Dame de Paris" (também conhecida como O Corcunda de Notre-Dame) escrita em 1831, além da obra "Les Miserables" (Os miseráveis) de 1862.

Victor Hugo criou poemas e romances que integravam questões políticas e filosóficas em histórias que procuravam retratar a sua época, mesmo quando ambientadas em outro período histórico, à exemplo de Notre Dame de Paris, ele levava o leitor a refletir sobre o seu tempo. Muitos dos seus poemas são destinados às inquietações sociais da França pós revolucionária. Ele procurava escrever com simplicidade procurando retratar de forma bastante humana as alegrias e vicissitudes da vida.

O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher é o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono;
Para a mulher, um altar.
O trono exalta; o altar santifica.
O homem é o cérebro;
a mulher, o coração, o amor.
A luz fecunda; o amor ressuscita.


Filho de um general do Império, estabeleceu-se em 1812 em Paris com sua mãe depois que os pais se separaram. Aos quinze anos recebeu um prêmio em um concurso de poesia da Academia Francesa, o Jeux Floraux. Teve sucesso precoce como poeta e romancista e resolveu dedicar-se a carreira literária. Escreveu seu primeiro romance, Han d'Island, com 21 anos. Em 1822 casou com seu amor de infância Adèle Foucher. Além da encantadora Adèle Foucher, Victor Hugo teve duas amantes Juliette Drouet e Léonie Biard. Nesse período integrou-se ao romantismo transformando-se em um verdadeiro porta-voz desse movimento. Nos seus escritos reservou lugar de destaque aos estados da alma, demonstrando uma forte tendência ao estranho, ao maravilhoso, ao exótico e ao pitoresco. Em 1830 estréia Hernani sua primeira obra teatral, que representou o fim do classicismo, e desencadeou uma polêmica apaixonada.

O homem é o gênio;
a mulher, o anjo.
O gênio é imensurável;
o anjo, indefinível.
A aspiração do homem é a suprema glória;
a aspiração da mulher,
a virtude extrema.


A busca de Victor Hugo por mais liberdade na arte é exemplificada no romance épico Cromwell (1827). Muitos dos seus romances usam cenários históricos. Notre Dame de Paris é uma história melodramática poderosa que retrata a Paris medieval através da devoção de um batedor de sino deformado a uma garota cigana pobre. Les Misérables centra-se na vida de Jean Valjean, uma vitima da injustiça social, trazendo como pano de fundo vários episódios históricos que retratam a França pós-napoleônica nos primeiros anos do século XIX.

A glória traduz grandeza;
a virtude traduz divindade.
O homem tem a supremacia;
a mulher, a preferência.
A supremacia representa força.
A preferência representa o direito.


A publicação da terceira coletânea de poemas de Victor Hugo, intitulada Odes and Ballads (1826), marcou o início de um período de intensa criatividade. Durante os próximos 17 anos ele publicou ensaios, três novelas, cinco volumes de poemas, e a maior parte de sua obra dramática. Sua glória de poeta é finamente consagrada em 1841, com a sua eleição para a Academia Francesa. No mesmo ano Luís Felipe o nomeia "pair de France". A essa altura, Victor Hugo é um homem bem sucedido, leva uma vida burguesa e dedica-se muito pouco a toda criação verdadeiramente nova. Em 1843, entretanto, o fracasso de seu drama Les Burgraves, seguida da morte de sua filha amada Leopoldine, interrompeu sua prodigiosa criatividade.

O homem é forte pela razão;
a mulher invencível pelas lágrimas.
A razão convence; a lágrima comove.
O homem é capaz de todos os heroísmos;
A mulher de todos os martírios.
O heroísmo enobrece; os martírios sublimam.


Nos anos seguintes, o escritor sente que a questão social se impõe de forma irresistível. Os motins da fome e da miséria multiplicam-se. Eleito deputado, o programa de Victor Hugo, em 1849, escandaliza a o Parlamento: "Destruir a miséria". Na Assembleia, o deputado Hugo faz um discurso com uma acentuada fibra social: "Declaro que, com efeito, haverá sempre infelizes, mas que é possível deixar de haver miseráveis". Foi assim pela questão social - ou, dir-se-ia hoje, por preocupações humanitárias - que Victor Hugo aderiu ao ideal republicano. A partir daí, defenderá a República contra tudo e contra todos, e sobretudo contra Napoleão III, o herdeiro de Bonaparte eleito presidente, e que, graças a um golpe de Estado, restaura o Império em 1851. Procurado pela polícia, Victor Hugo foge para Bruxelas, e depois para a ilha britânica de Jersey, antes de ancorar nos rochedos vizinhos de Guernesey.

O homem é o código;
a mulher o evangelho.
O código corrige; o evangelho aperfeiçoa.
O homem é o templo; a mulher, um sacrário.
Ante o templo, nos descobrimos;
Ante o sacrário ajoelhamo-nos.
O homem pensa; a mulher sonha.
Pensar é ter cérebro;
Sonhar é ter na fronte uma auréola.


Nos dezoito anos de exílio Hugo alcança a maturidade como escritor, produzindo o primeiro volume do seu visionário poema épico A Lenda dos Séculos (1859-1883). Escreve sua última coletânea de poemas Contemplações (1856) e, do mesmo modo, escreve alguns romances,entre eles Os Miseráveis ( 1862). Volta à França após a instalação da III República, em 1870, mas não adere à Comuna de Paris. É eleito membro da Assembléia Nacional e Senador. Sua atividade literária se reduz então consideravelmente. Seus últimos anos de vida são marcados pela morte de seus filhos, de sua mulher e de sua amante. Mas ele continua a escrever alguns poemas e permanece na atividade política até 1878. Quando morre, em Paris no dia 23 de maio de 1885, a República lhe presta homenagens fúnebres nacionais. Seu corpo foi levado do Arco do Triunfo ao Pantheon, acompanhado por um milhão de pessoas pelas ruas de Paris. Virou mito, lenda, referência.

O homem é um oceano; a mulher um lago.
O oceano tem a pérola que embeleza;
O lago tem a poesia que deslumbra.
O homem é a águia que voa; a mulher o rouxinol que canta.
O homem tem um fanal; a consciência;
A mulher tem uma estrela : a esperança.
O fanal guia, a esperança salva.
Enfim ...
O homem está colocado onde termina a terra;
A mulher onde começa o céu...


A mais bela obra desse poeta não são seus versos. São seus romances, algumas peças de teatro, mas, acima de tudo, seus discursos políticos e indignações proféticas contra a infelicidade dos pobres. E são, enfim, de maneira ainda mais enigmática, seus desenhos com fuligem, que ele fazia para distrair sua solidão e aos quais esse homem tão preocupado com suas posições não dava muita importância.

"Toda a minha alma lhe pertence. Se minha inteira existência não fosse sua, a harmonia do meu ser ter-se-ia perdido e eu teria morrido." (em carta a Adèle Foucher)


Fontes:
http://www.estadao.com.br/divirtase/noticias/2002/jan/19/151.htm
http://www.beatrix.hpg.ig.com.br/literatura/hugo.htm#linkhugo
http://www.mittelrheintal.de/kultur/images/victorhugo.jpg

Sonhado por Marcia, 23:49
Sonharam:




Sexta-feira, Maio 21, 2004

"Ouse, ouse... ouse tudo!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!"



LOU ANDREAS-SALOMÉ
UMA MULHER MUITO À FRENTE DO SEU TEMPO




Nascida em São Petersburgo, Rússia, em 12 de fevereiro de 1861 e filha de um general, oficial do czar russo, Lou era a única mulher numa família de cinco rapazes.
Aos 19 anos mudou-se para Roma. Munida de uma carta de recomendação, procurou Malwida von Maysenburg, uma mulher extraordinária, que abrira mão de títulos de nobreza para dedicar-se a "ajudar a emancipar a mulher dos limites que a sociedade lhe impôs". Na casa de Malwida, conheceu Paul Rée, filósofo e amigo de Nietzsche. O sentimento que ligou Rée a Lou não demorou a se transformar em um amor unilateral. Lou o admirava e tinha até um plano ousado para a época - passarem a morar juntos, como amigos.

A convite de Rée, Nietzsche foi para Roma e desde o primeiro encontro com o casal, a idéia da Santa Trindade tomou corpo. Pensaram em instalar-se em Viena mas depois acharam que Paris seria melhor. Só que algo aconteceu, ameaçando o futuro da Santa Trindade: Nietzsche também apaixonou-se por Lou e foi tomado pela idéia de desposá-la.

Nietzsche amou Salomé e a considerava um "pequeno gênio" - certamente jamais teve um sentimento tão intenso por mulher alguma. Mas eles nunca foram amantes e o que atraiu Lou para a companhia do filósofo foi muito mais sua obra do que o homem Nietzsche.

Em fins de abril de 1882, Lou e a mãe viajaram para o norte da Itália. Nietzsche e Rée foram encontrá-las em Milão e juntos foram para a região dos Alpes. Num final de tarde, depois de um passeio, Nietzsche teve finalmente a chance de ficar à sós com Lou, enquanto a senhora Salomé e Rée descansavam no hotel. Os dois decidiram fazer uma caminhada até o Monte Sacro, uma colina encantadora de 915 metros. O passeio durou bem mais que a uma hora prevista. O que aconteceu durante o passeio foi mantido em segredo. Nietzsche escreveu para Lou: "eu devo a você o sonho mais bonito de minha vida". E Lou disse anos depois: "não me lembro se beijei Nietzsche em Monte Sacro". Pouco depois, os quatro se separaram voltando a se encontrar novamente em Lucerne onde Nietzsche propôs casamento para Lou, que rejeitou prontamente a idéia.

Lou encontra-se pela primeira vez com a irmã de Nietzsche, Elizabeth Nietzsche. Protestante rígida, ficou chocada com a liberdade de pensamento de Lou, sua preferência pela companhia masculina, seu sucesso junto aos homens. Já não gostava de Lou, antes mesmo de conhecê-la, pois sentia ciúmes do irmão. Apesar disso, viajaram juntas para Tautenburgo, onde Nietzsche passava o verão mas, estava disposta a proteger o irmão da mulher "imprópria". A cada dia, Elizabeth se escandalizava mais com Lou: como uma mulher podia falar tão abertamente sobre Deus, sexo, moral? Além disso, desaprovava os longos passeios que fazia com Nietzsche pela floresta e o fato do irmão permanecer no quarto de Lou até tarde.

A estada de Lou em Tautenburgo provocou um rompimento entre os irmãos Nietzsche, o qual Elizabeth fez questão de tornar público, escrevendo para os amigos do irmão longas cartas denegrindo a imagem de Lou, distorcendo fatos, criticando, julgando.
Ao deixar Tautenburgo, Lou entregou a Nietzsche um poema que havia escrito meses antes. Este texto foi musicado pelo filósofo.

Claro, como se ama um amigo
Eu te amo, vida enigmática -
Que me tenhas feito exultar ou chorar,
Que me tenhas trazido felicidade ou sofrimento,
Amo-te com toda a tua crueldade,
E se deves me aniquilar,
Eu me arrancarei de teus braços
Como alguém se arranca do seio de um amigo.
Com todas as minhas forças te aperto!
Que tuas chamas me devorem,
No fogo do combate, permite-me
Sondar mais longe teu mistério.
Ser, pensar durante milênios!
Encerra-me em teus dois braços:
Se não tens mais alegria a me ofertar
Pois bem - restam-te teus tormentos. . .


Os três encontraram-se novamente em Leipzig. Lou fazia um estudo sobre a história das religiões, que Nietzsche lia e comentava. Ele ficava feliz em colaborar com o trabalho dela. Depois, quando Nietzsche começou a tecer duras críticas ao rival, Lou foi perdendo o encanto pelo filósofo. Assim, Lou e Rée partiram para Paris, onde passaram a dividir a mesma casa, sempre como amigos, contrariando as expectativas de Rée, a quem Lou via como um irmão. Nietzsche escreveu várias cartas mostrando a sua amargura e revolta, nas quais falava sobre um possível suicídio.

Lou e Rée viveram juntos em Berlim, por cinco anos, sempre como irmãos. Ela encontrou no amigo um companheiro "de uma nobreza de alma absolutamente única". Os amigos brincavam que Rée era a dama de companhia de Lou. O temperamento alegre da amiga refletiu em Rée, que mostrava-se menos atormentado e mais confiante. Foi nessa época que começou seu sucesso como escritora, com o livro "Uma Luta por Deus", o qual assinou como Henri Lou.

Aos 26 anos Lou conheceu o professor de língua persa Carl Andreas, quinze anos mais velho, casando-se, para espanto de todos, em junho de 1887. Foi um casamento estranho, que de fato nunca se concretizou, na realidade um acordo entre os dois previa que Andreas não faria valer seus "direitos" de marido. Nunca houve contato físico. Além disso, Andreas deveria respeitar a liberdade da esposa, ficando acertado que as relações entre Lou e Rée não mudariam. Apesar de Rée aparentemente
ter concordado com a situação, um profundo mal estar surgiu e ele decidiu então mudar-se de Berlim. Um ano depois da partida do amigo, Lou registrou em seu diário sobre a falta que Rée lhe fazia.

"Às vezes acontece que meus gestos ou minhas palavras se assemelham aos teus - sem o querer, por acaso - sinto sempre nesses momentos que me és querido. Lembro-me que um dia, bem no meio de uma briga me disseste com um misto de bondade e ironia: "se nós brigássemos de verdade e anos depois por acaso a gente se encontrasse - que felicidade seria para todos dois!" E teus olhos se encheram de lágrimas. Penso muito nisso atualmente e me digo: Sim, sim."

Nos primeiros anos de casada, Lou escreveu Personagens Femininos de Ibsen e, após o sucesso do livro, começou a escrever com mais frequência. Em 1894 escreveu Friedrich Nietzche em sua obra e, em 1895, o romance Ruth.

Nesse mesmo ano, Lou conheceu o médico vienense Friedrich Pineles, que tinha então 27 anos. Pelo que parece, este foi o homem com quem Lou teve sua primeira relação. Essa ligação durou cerca de doze anos. Este insistia sempre em que ela pedisse o divórcio para que pudessem realizar o casamento.

Lou teorizava sobre as relações humanas, a condição feminina, o amor e o erotismo com serenidade de quem as estudava e experimentava sem preconceitos e com muita intensidade, não se preocupando, por exemplo, com relacionamentos sexuais antes que estes se tornassem parte de seus anseios e desejos de vida.

Em maio de 1897, foi apresentada ao poeta René-Marie Rilke, quatorze anos mais jovem que ela. A passagem de Lou na vida de Rilke foi de fundamental importância para o crescimento do poeta - ela lhe ensinou a buscar a essência das coisas e, pela primeira vez em sua vida, encontrou um homem que a atraía intelectualmente e fisicamente.

"Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento, cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. (...) O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe."

Algumas semanas depois do primeiro encontro, alugaram uma casinha nos arredores de Berlim. Logo depois se mudaram para uma espécie de granja, numa colina, em Wolfratshausen. Ficaram ali durante o verão e receberam Andreas no outono. Enquanto este passava horas trancado no quarto estudando, Lou e Rilke passeavam pela floresta, discutindo os projetos de vida. Foi Lou quem decidiu que o nome René-Marie era muito feminino, mudando-o para Rainer Maria.

Em abril de 1899 Lou, Andreas e Rilke foram para a Rússia. Passaram uma semana em Moscou, onde foram recebidos por Tolstoi e depois dirigiram-se para São Petersburgo, onde Rilke conheceu a família de Lou. A redescoberta do país natal ao lado do homem amado fizeram com que Lou desabrochasse por completo: "Hoje posso ser o que os outros são aos dezoito anos, hoje posso ser eu mesma".

Depois de dois meses, o trio retornou para a Alemanha mas, a experiência da viagem foi tão marcante, que nova viagem à Rússia aconteceu um ano depois, desta vez sem a presença de Andreas. Rilke sentiu o amor pelo país de Lou mais vivo. Atravessaram o país, vendo paisagens encantadoras. Lou decidiu partir para a Alemanha e deixou Rilke sozinho na cidade natal. Na verdade, ela estava um pouco apreensiva com os estranhos acessos de depressão e exaltação de Rilke. Sentia que o poeta deveria conquistar sozinho o domínio de si mesmo.

Em março de 1901, Rilke casa-se com Clara Westhoff, fato que não interrompeu a correspondência com Lou. Escrevia sempre, contando as alegrias e tristezas, aconselhando-se, buscando apoio, enviando poemas para críticas. "Ninguém me conhece como tu", escrevia Rilke. O poeta amadurecia, mas o homem permanecia carente de conselhos e proteção.

No mesmo ano do casamento de Rilke, aconteceu a morte de Paul Rée - uma morte com a qual Lou sofreu pelo resto da vida, sentindo-se de certa forma responsável, pois pairava a suspeita de suicídio.

Pineles, consultado sobre o abatimento de Lou, recomendou-lhe repouso e passeios. Foram juntos para o Tirol, onde ela descobriu-se grávida. Pineles decidiu contar para Andreas, desejando que ele concedesse o divórcio. Lou não permitiu, alegando que Andreas poderia atentar contra a vida do médico. Mas, a gravidez foi interrompida como conseqüência de uma queda sofrida por Lou ao colher maçãs. Foi o início do enfraquecimento da relação entre os dois, a qual durou alguns anos mais.

Essas experiências levaram Lou a refletir sobre o amor e o sexo. Ela publicou em 1902 um livro de contos, Na Zona Crepuscular e em 1910 o ensaio denominado O Erotismo.

Em 1911, participou do Congresso de Psicanálise de Weimar, marcando o início de uma nova fase em sua vida. Teve a oportunidade de conhecer Freud, a quem já apreciava, pois lia tudo o que se publicava sobre psicanálise. Com a autorização de Freud passou a assistir as conferências ministradas por ele e, ainda, participar das reuniões semanais sobre psicanálise. Tornou-se a única mulher no grupo de discípulos. Viajou para Viena com o firme propósito de dedicar-se mais profundamente ao estudo da matéria, levando consigo sua fama de escritora, conhecimentos de filosofia e história da arte e o mistério de sua feminilidade.

Durante o resto da vida, Lou foi defensora e colaboradora da psicanálise e, por muitos anos, encorajada e aconselhada por Freud, foi analista na Alemanha. O que a atraía na psicanálise era a "combinação entre a experiência e o conhecimento". Achava incrível que Freud, através de um método de investigação fundado sobre a razão, houvesse descoberto o irracional e o inconsciente.

A Revolução de Outubro de 1917 fez com que Lou perdesse a pensão que recebia do governo russo, por ser filha de general, que a ajudou a manter-se durante tantos anos. Essas novas experiências pelas quais passavam o país natal fizeram nascer em Lou a nostalgia, que ela retratou no livro escrito em 1923 - Rodinka (A Pequena Pátria), dedicado a Anna Freud.

Em 1928, dois anos após a morte de Rilke, ela escreveu a biografia do poeta. Em 1931, tornou pública sua gratidão para com Freud, publicando o livro Carta Aberta a Freud, quando este completava 75 anos.

Andreas morreu aos 85 anos e Lou começou a sofrer de diabetes. Com problemas de visão, consequência do agravamento de sua doença, pediu ajuda ao amigo fiel da última fase da vida, Ernest Pfeiffer. Entregou a ele todos os seus papéis e correspondência para que os publicasse postumamente.

Na noite de 5 de fevereiro de 1937, Lou morreu durante o sono. Dias depois de sua
morte, a Gestapo confiscou seus livros e papéis, por considerar a psicanálise uma ciência judaica.

Postumamente, Ernest Pfeiffer publicou quatro livros de Lou, incluindo a autobiografia intitulada Revendo Minha Vida.

"Sempre não tive a idéia fixa de que a velhice me traria muito? Em meus jovens anos escrevi em algum lugar: primeiro nós vivemos nossa juventude, em seguida nossa juventude vive em nós. Não sei bem, ainda hoje, o que eu queria dizer com isso outrora. Mas eu tinha realmente medo de não atingir a idade de viver esta experiência; eu o sabia profundamente, uma longa vida, com todas as suas dores, vale ser vivida. Claro, o valor da vida pode nos ficar escondido pelos desgastes sofridos pela nossa carne, nosso espírito (...) do mesmo modo que a juventude mais empreendedora pode se ver entravada em sua felicidade e em seu sucesso, por um fatal concurso de circunstâncias; mas, por além das perdas, a velhice adquire muito mais que a famosa aptidão à serenidade e à lucidez: ela permite que se chegue a uma plenitude mais acabada."

Fontes:
http://www.cefetsp.br/edu/eso/paixaolouandreassalome.html
http://www.odebate.com.br/downloads/lou/sa_home.htm
http://www2.tvcultura.com.br/provoca/poesia.asp?poesiaid=51

Sonhado por Marcia, 19:08
Sonharam:




Domingo, Maio 16, 2004

"Minha poesia é serena, mesmo quando ela tem amargura, quando ela tem dor".


HELENA KOLODY



Helena Kolody nasceu em 12 de outubro de 1912, em Cruz Machado, Paraná. Primeira brasileira numa família de ucranianos, desde criança foi amante da literatura e, aos 15 anos, escreveu seu primeiro poema "A Lágrima". Como profissão escolheu o magistério, lecionando por 23 anos na antiga Escola Normal, atual Instituto de Educação de Curitiba.

SONHAR

Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Num vôo poderoso e audaz de fantasia.

Grande parte de seus poemas são haicais e tankas (poemas com a mesma estrutura dos haicais, mas com mais dois versos heptassilábicos). Com eles, ela conseguia transpor para as palavras as imagens captadas em seu dia-a-dia de modo que não perdessem a magia, o que impressionava seu amigo Carlos Drummond de Andrade:"Você domina a arte de exprimir o máximo no mínimo...", escreveu em carta à poeta. Tornou-se "haijin" (pessoa que cultua o haikai), com o nome artístico de Reika, concedido em 1993 pela sociedade japonesa, e que significa "perfume da poesia":

AQUARELA

Sol de primavera.
Céu azul, jardim em flor.
Riso de crianças.
Na pauta de fios elétricos,
uma escala de andorinhas.

ARCO-ÍRIS

Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
que há pouco chorou.

PRISÃO

Puseste a gaiola
Suspensa de um ramo em flor,
Num dia de sol.
A poetisa escreveu:

Em 1941 lançou o seu primeiro livro, Paisagem interior. Seguiram-se: Música submersa, Vida breve, Correnteza, Sempre palavra, entre outros, até que em 1988 a Universidade Federal do Paraná reuniu sua obra num único volume: Viagem no espelho. Depois outros mais, Ontem agora, Caixinha de música, chegando a Poemas do amor impossível em 2002, ao atingir a marca de 22 títulos publicados.

PÁSSAROS LIBERTOS

Palavras são pássaros.
Voaram!
Não nos pertencem mais.

Em 1991 entrou para a Academia Paranaense de Letras, sendo a segunda mulher admitida no fechado círculo masculino.No ano seguinte foi homenageada pelo cineasta Silvio Back com o curta-metragem A Babel de luz, filme sobre a poeta que recebeu o prêmio principal do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Em 1997 lançou o CD de poesias Helena Kolody por Helena Kolody, pelo selo Luz da cidade. A grande poeta paranaense morreu no dia 14 de fevereiro de 2004, em Curitiba.

INFÂNCIA

Pão feito em casa,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair.
Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos...

Helena Kolody relata um acontecimento que revela o poder da palavra e a responsabilidade gerada por ela. É a história de uma jovem depressiva que tentaria o suicídio. Antes do gesto trágico, abriu o livro que a poetisa lhe dera de presente. Leu um de seus poemas, "Prece", e desistiu de seu intento. Helena Kolody escreveu vários poemas depressivos, mas por sorte não foi um desses o escolhido. Ela diz que depois disso seus poemas se tornaram mais abertos, mais otimistas. O poema "Prece" recebeu duas versões musicais e um "imprimatur" da igreja, e é lido como se fosse uma oração:

PRECE

Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
De ser o coração singelo que perdoa,
A solícita mão que espalha, sem medidas,
Estrelas pela noite escura de outras vidas
E tira d'alma alheia o espinho que magoa.

Para ela, o amor ficou sendo só um sentimento, um sonho, e Helena Kolody soube muito bem transformar esses sentimentos em palavras melodiosas, o que levou alguns poemas seus a serem musicados. São versos carregados de um lirismo puro, que embalam reminiscências de amores de outrora (até mesmo a própria palavra tornou-se antiga) quando não era vergonhosa a expressão verdadeira dos sentimentos:

VITÓRIA ÍNTIMA

Como a penumbra da noite,
A meditação desceu em seu olhar
E acendeu dentro de mim a lâmpada serena.

ARCO-ÍRIS

Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
que há pouco chorou.

SEM AVISO

Sem aviso,
o vento vira
uma página da vida.

VIAGEM INFINITA

Estou sempre em
viagem.
O mundo é a paisagem
que me atinge
de passagem.


Fontes:
http://www.secrel.com.br/jpoesia/rkamita.htm#mundo
http://www.jornal.panorama.nom.br/principal.asp

Sonhado por Marcia, 17:10
Sonharam:




Quinta-feira, Maio 13, 2004

DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ


Ele costumava olhar a cidade como quem passa de trem, e não pode possuir a paisagem. Que belas mulheres, que admiráveis lugares de diversões, e que restaurantes... e que bebidas! Feliz era o turista que chupava a cidade por um canudo. Mas ele - ele era o seu escravo! De casa para o trabalho, do trabalho para casa. Quando chegava o dia de folga - a mulher, que estava dia a dia ficando mais feia e ácida, se agarrava com ele. Ela era quem escolhia o cinema, ou a visita...

Numa segunda-feira, em que o homem sentia a vida como um nó na garganta, um companheiro de trabalho deu certa notícia:

- "Sabe? O chefe vai mandar-me a Buenos Aires por quinze dias!"

- "Mas você é um homem de sorte! Eu que sempre quis conhecer aquela terra!"

A viagem do colega a Buenos Aires deu ao nosso conhecido um complexo: o da liberdade! A inveja nele doía. E então, pediu ao felizardo:

- "Tive uma idéia. Vou tomar férias. E como não tenho dinheiro para viajar... fico por aqui mesmo. Mas quero que minha mulher pense que estou fora. Meu amigo - eu vou é me acabar! Vou-me divertir para o resto da minha vida. Você vai para Buenos Aires, mas a gente rica de lá vem passear aqui. Quer dizer que isto é bom. O de que se precisa é liberdade, para gozar o Rio."

Como o amigo concordasse com sua fantasia - o carioca que queria gozar o Rio como turista disse à mulher:

- "Meu bem, tenho uma novidade para contar. O chefe me despachou para Buenos Aires por duas semanas! Vou ter muitas saudades de você. Nós que não nos separamos nunca!"

E ele não quis que a mulher o acompanhasse ao Aeroporto:

- " Vou ficar muito emocionado."

Nesse dia em que deveria embarcar, ele madrugou e foi levar o amigo, entregando-lhe meia dúzia de telegramas que deveria passar...

E caiu na orgia. À noite, depois de um dia de companhia alegre, de passeio de lancha, de teatro ao lado de uma loira, à noite, lá pelas onze horas, uns conhecidos que chegavam a uma boate deram com nosso personagem num pileque terrível. Daí a meia hora estava dormindo sobre a mesa: ninguém sabia que ele tomara um quarto em hotel... nem conhecia sua trama inventada. Os amigos, penalizados, o puseram num automóvel e sabendo do seu endereço, o deixaram em casa, onde a mulher o recebeu com espanto, que se transformou em cólera tremenda. Quando, de manhãzinha, o homem acordou em seu quarto - mediu toda a extensão da sua ... desgraça:

- " Meu bem, os amigos, lá no aeroporto... O avião atrasara quatro horas... me deram uma festinha de despedida... e eu perdi a hora... Mas não foi minha culpa. Você me perdoe. Isso aconteceu, porque eu não tenho hábito dessas coisas... Mas eu me arranjarei com o chefe... Até foi bom. Ele manda outro funcionário, e eu não me separo mais da minha mulherzinha."

A senhora estava furiosa. Foi preciso muito juramento e muita declaração de amor para que amansasse um pouquinho. À tarde, quando estava já querendo fazer as pazes tocou a campainha da porta. Era um telegrama. Ela o abriu:

- " Viagem ótima. Morrendo saudades querida mulherzinha."

Foi a tempestade. A senhora arrumou a bagagem. Ia para a casa do pai, pois não era uma abandonada. O marido se arrojou ao chão, inventou histórias, disse que se mataria. Ela ficou. Mas quando se recolhiam ao quarto de pazes feitas, chegou novo telegrama:

- " Buenos Aires sem ti não vale nada."

E os quinze dias do homem que quis quebrar sua rotina foram tremendos. Mesmo porque o amigo que levara os telegramas mudara de hotel, em Buenos Aires, e se desincumbiu religiosamente da sua missão. O último despacho que mandou foi assim:

- " Volto amanhã teus braços." E estava gentilmente assinado: " Maridinho."


O homem que se evadiu - do livro Quadrante 2, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1968.

Sonhado por Marcia, 20:45
Sonharam:




Domingo, Maio 09, 2004

MÃE, OBRIGADA POR VOCÊ EXISTIR.
UM DIA MARAVILHOSO PARA A MINHA E PARA TODAS AS MÃES!




MINHA MÃE

Vinicius de Moraes


Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: - Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão. que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.


Do livro "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998.
Imagem: http://hearandsaycentre.com.au/milestones.htm

Sonhado por Marcia, 13:00
Sonharam:




Quarta-feira, Maio 05, 2004

"Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte. Como o marido que tem que dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma obrigação. Sou uma máquina de escrever com algum uso, mas em bom estado de funcionamento."


RUBEM BRAGA


Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

O Desaparecido - do livro A Traição das Elegantes, Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1969.

Sonhado por Marcia, 16:28
Sonharam:




Sábado, Maio 01, 2004

UMA CURVA, UMA BATIDA E 150 MILHÕES DE VÍTIMAS

O dia 21 de junho de 1986, um sábado, foi triste para o esporte verde-amarelo. Mas poderia ter sido bem pior se a redenção não viesse logo no domingo. Um dia depois de o Brasil ser eliminado da Copa do México, um promissor piloto paulista vencia o GP de Detroit de Fórmula-1. Àquela altura, nenhum dos 150 milhões de brasileiros poderia imaginar que, no mesmo fim de semana em que uma geração de craques dava adeus ao sonho do título mundial, nascia um ídolo completo para substituí-los. Quando parou sua Lotus para comemorar a vitória com uma bandeira do Brasil, Ayrton Senna da Silva não tinha a dimensão de seu gesto. Era, no fundo, a passagem de um bastão.

Senna preencheu com maestria o vácuo deixado pelo futebol no coração dos brasileiros. Foi o maior ídolo do país de 1986 até o Dia do Trabalho de 1994, há exatamente 10 anos, quando se chocou violentamente contra um muro do Circuito de Ímola. Ironicamente, como na devolução daquele mesmo bastão, Senna morreu no GP de San Marino apenas poucos meses antes de a seleção brasileira voltar a nos lembrar, na Copa dos EUA, que aqui era mesmo o país do futebol.

Como numa religião, o culto de adoração a Ayrton Senna acontecia nas manhãs de domingo. Até quem não gostava muito de automobilismo acordava cedo para ver o piloto que unia ousadia, talento, obstinação pela vitória e um raro orgulho de ser brasileiro. Pela TV, seus fãs assistiram a 41 vitórias, três títulos mundiais e, finalmente, a um dos acidentes mais impressionantes da história da F-1. Senna perdeu o controle do seu Williams a cerca de 300Km/h. O motivo? Até hoje não se sabe - ou alguém não quer contar.

A Era Senna chegou ao fim em meio a uma comoção tão grande que todo mundo lembra onde estava no dia 1 de maio de 1994. Seu velório reuniu 110 mil pessoas que pareciam estar se despedindo de um parente querido. Aos domingos, não haveria mais a apoteose de um campeão que, ainda menino, ficou tão inconformado por rodar de kart numa pista molhada que, desde então, ia treinar em Interlagos sempre que chovia em São Paulo.

O herói estava morto, mas o mito sobreviveu à curva Tamburello.

Fellipe Awi - Jornal O Globo - 01/05/2004
Imagem: http://members.aol.com/benchams/start.htm

Sonhado por Marcia, 16:41
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"Entre o sono e o sonho
entre mim e o que em mim
é o que eu me suponho
corre um rio sem fim."
Fernando Pessoa

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:: Canção em segredo::
Dentro desta mulher
um anjo menino
brinca de ciranda na calçada
e tem fome de futuro.
Dentro desta mulher
uma criança se debruça na janela
vendo chegar o amor
e se julga imortal.

Dentro desta mulher
uma guerreira constrói sua vida
depois de parir filhos para o mundo.
Dentro desta mulher
outra mulher enterra o seu amor perdido
e mesmo assim espera.

(Dentro desta mulher
o mistério das coisas
finge dormir.)
Lya Luft

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