Brasil - Rio de Janeiro - Hoje é dia: /

Terça-feira, Junho 29, 2004

Eu

Eu sou a tangência de duas formas opostas e justapostas
Eu sou o que não existe entre o que existe.
Eu sou tudo sem ser coisa alguma.
Eu sou o amor entre os esposos,
Eu sou o marido e a mulher,
Eu sou a unidade infinita
Eu sou um deus com princípio
Eu sou poeta!

Eu tenho raiva de ter nascido eu,
Mas eu só gosto de mim e de quem gosta de mim.
O mundo sem mim acabaria inútil.
Eu sou o sucessor do poeta Jesus Cristo
Encarregado dos sentidos do universo.
Eu sou o poeta Ismael Nery
Que às vezes não gosta de si.


Eu sou o profeta anônimo.
Eu sou os olhos dos cegos.
Eu sou o ouvido dos surdos.
Eu sou a língua dos mudos.
Eu sou o profeta desconhecido, cego, surdo e mudo
Quase como todo o mundo.

Ele foi pintor, desenhista, poeta, arquiteto e cenógrafo, revelando-se também um pensador importante, que chegou a criar uma teoria filosófica conhecida como "essencialismo", baseada na abstração do tempo e do espaço. Seu estilo passou por três fases: expressionista, cubista e surrealista. As duas primeiras, interligadas, garantiram o realce das expressões das figuras e a mudança dos conceitos de perspectiva e dimensão. Cada corpo possuía sua força própria através da explosão de formas, linhas, luzes e cores.

Ismael Nery nasceu em Belém, Pará, em 09 de outubro de 1900. Ainda criança, mudou-se para o Rio de Janeiro e em 1917 matriculou-se na Escola Nacional de Belas Artes, mas não se adaptou ao caráter acadêmico do curso. Pintou grande quantidade de guaches e aquarelas, que se perderam no tempo, ficando apenas o registro de sua existência. Em 1920 viajou para Paris e frequentou por um ano a Académie Julien, período em que apareceram as influências expressionistas, já com o traço pessoal dramático que iria marcar sua obra. Nessa época, travou amizade com Fernand Léger, André Lhote e Pablo Picasso. Por ter dons intelectuais destacados, captou algo de cada um deles, numa mistura de idéias e criatividade.

Voltando ao Brasil, Nery se casa com a poetisa Adalgisa Nery, musa de suas principais pinturas. Passou a trabalhar como desenhista na seção de Arquitetura e Topografia da Diretoria do Patrimônio Nacional, órgão ligado ao Ministério da Fazenda, onde conheceu o poeta Murilo Mendes, grande amigo e incentivador de sua obra. Em 1924 ilustrou o livro Contos e Poemas Bíblicos, de Nelson Catunda e, até 1927, executou trabalhos expressionistas e cubistas.

Divino e satânico, masculino e feminino, cindido e justaposto, esse era o ser misterioso que Nery revelava em suas imagens, fruto de suas próprias angústias pessoais e religiosas. Em sua segunda viagem à Paris, em 1927, conheceu o pintor russo Marc Chagall, o que marcou, na volta ao Brasil, a fase surrealista de sua obra, e o transformou no pioneiro dessa corrente no Brasil.

Confissão

Não quero ser Deus por orgulho.
Eu tenho esta grande diferença de Satã.
Quero ser Deus por necessidade, por vocação.
Não me conformo nem com o espaço nem com o tempo,
Nem com o limite de coisa alguma.
Tenho fome e sede de tudo,
Implacável
Crescente.
Talvez seja esta a minha diferença de Deus
Que tem fome e sede de mim,
Implacável,
Crescente,
Eterna
- De mim que me desprezo e me acredito um nada.

Aos 30 anos, Ismael contraiu a tuberculose que o mataria em poucos anos. Internado por dois anos, diminuiu o ritmo de trabalho. No entanto a doença marcou seu imaginário, através de uma expressão surrealista de caráter orgânico, cujo tema mostra anatomias desfiguradas e viscerais, que lembram às vezes objetos mecânicos ou hidráulicos, traduzindo seu drama pessoal, a decomposição do corpo e sua consciência da proximidade da morte. Em 1932, desenhou a série História de Ismael Nery, uma melancólica autobiografia.

Ismael Nery morreu em 6 de abril de 1934, em casa, como era seu desejo. Foi enterrado vestindo um hábito dos franciscanos, numa singela homenagem dos frades à sua ardorosa fé católica. Seus poemas foram publicados postumamente na revista "A Ordem", por iniciativa de Murilo Mendes. Em 1946 ocorreu a publicação de oito de seus poemas na "Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos", organizada por Manuel Bandeira. Em 1948, uma série de artigos de Murilo Mendes publicados nos jornais "O Estado de S. Paulo" e "Letras e Artes" buscou resgatar a obra plástica, literária e filosófica do artista.

Poema para Ela

Acabaram-se os tempos.
Morreram as árvores e os homens,
Destruíram-se as casas,
Submergiram-se as montanhas.
Depois o mar desapareceu.
O mundo transformou-se numa enorme planície
Onde só existe areia e uma tristeza infinita.
Um anjo sobrevoa os destroços da terra,
Olhando a cólera de um Deus ofendido.
E encontrou nossos dois corpos fortemente enlaçados
Que a raiva do Senhor não quis destruir
Para a eterna lembrança do maior amor.


Tragado pela morte prematura, o destino impediu-o de provar até onde seria capaz de chegar. Ismael Nery deixou uma obra muito consistente, que foi redescoberta em 1966, com uma exposição na Petite Galerie do Rio de Janeiro. Em 1967, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro também realizou exposição do pintor. Essas duas exposições geraram uma releitura da sua obra, contextualizando-a no modernismo de 1920, embora Ismael Nery fosse independente desse grupo e nunca tivesse procurado construir uma obra interpretativa da brasilidade.

"Ele sabia que os homens de sua linhagem morrem cedo, pois estão em avanço sobre os acontecimentos e a própria ordem do mundo", disse mais tarde o amigo e poeta Murilo Mendes.

Fontes:
http://www.museus.art.br/autoretratos/ismael.htm
http://www.itaucultural.org.br/

sonhado por Marcia, 20:19
Sonharam:



Sexta-feira, Junho 25, 2004

Ela fez de sua vida um campo de batalha contra a intolerância, os desmandos e os grilhões impostos por senhores de uma sociedade retrógrada e, nos mais diversos aspectos, injusta. E mais do que isso, ela se fez mulher. Um espírito batalhador que foi capaz de ir muito além dos limites impostos por seu corpo físico e que inovou e revolucionou costumes.

PATRÍCIA GALVÃO - PAGU


Nascida em São João da Boa Vista, São Paulo, em 9 de junho de 1910, aos 15 anos de idade, Patrícia Rehder Galvão já colaborava com o jornal de sua escola. O apelido Pagu foi dado por Raul Bopp. Ela teria lhe mostrado alguns textos e o poeta sugeriu que ela adotasse um nome literário. Sugeriu Pagu, brincando com as sílabas do nome da escritora, que Bopp equivocadamente acreditava se chamar Patrícia Goulart.

Oswald de Andrade acabou se apaixonando pela jovem, que aos 18 anos era corajosa, cheia de idéias vanguardistas e de uma beleza intrigante. Foi correspondido e começou achá-la o "mais autêntico símbolo feminino da ousadia e inconformismo artístico e cultural de seu tempo". Mas, a grande admiração e amizade que Pagu tinha por Tarsila (esposa de Oswald), fez com que inicialmente o romance se tornasse complicado. Nesse período ela começou a escrever para a "Revista Antropofágica" (editada pelos modernistas) e a fazer grandes obras como "Álbum de Pagu", dedicado à Tarsila e o "Diário a quatro mãos", com Oswald de Andrade.

No início de 1930, separado de Tarsila, Oswald e Pagu se casam, numa cerimônia um pouco estranha. O acontecimento foi simbólico, realizado no cemitério da Consolação, em São Paulo. Só mais tarde, eles se retrataram na igreja. No ano seguinte, o casal se alistou na militância do Partido Comunista e nesta fase editam o jornal esquerdista "O Homem do Povo", através do qual faziam críticas severas, bem-humoradas e acima de tudo polêmicas à sociedade paulista da época. Nesse jornal, Pagu assinava uma coluna feminista, "A Mulher do Povo". Queria, através de seu trabalho, impulsionar a mulher à luta, ao trabalho e ao mundo.

Apesar de sua fidelidade e coragem, era vista pelos membros do PCB como uma agitadora sensacionalista. Seu feminismo ousado irritava os mais tradicionais do partido e, quando foi presa em um comício de estivadores realizado em Santos, não foi defendida pelo partido.

O casamento e as paixões eram temas freqüentes em seus artigos. Para ela o mundo moderno havia trazido consigo a falência do romantismo amoroso e a decomposição do amor eterno. As mulheres deveriam estar preparadas para isto e buscar uma sensualidade sadia e "autoconsciente". Pagu sabia que, em sua cultura e sociedade, a mulher estava, mais do que nunca, condicionada a represar a sua libido, mas que o mundo estava mudando e por isso a brasileira deveria constituir uma nova feminilidade.

Pagu, sempre foi uma mulher à frente de seu tempo. Casada e com uma filha, jamais se limitou à rotina da vida doméstica e muito menos às incoerências do seu Partido. Como jornalista, era ainda mais contundente, escrevendo sobre a condição feminina das mulheres das classes menos privilegiadas, em São Paulo. Em 1929, com o pseudônimo de Mara Lobo, escreveu sua obra mais famosa, "Parque Industrial". O pseudônimo foi adotado por exigência do seu Partido. Ao contrário da vertente regionalista de 30, Pagu trata de um Brasil urbano, em pleno processo de industrialização, e de uma problemática de classe, envolvendo uma classe média de valores burgueses e um proletariado que, embora explorado, não se cala frente à opressão. Após essa publicação, começou a viajar pelo mundo como correspondente dos jornais "Correio da Manhã", "Diário de Notícias" e "A Noite". Suas viagens renderam frutos, pois acabou sendo a primeira repórter latino-americana a presenciar a coroação do Imperador de Manchúria (China) à coroação de Pu Yi. Foi através deste evento que ela obteve as primeiras sementes de soja para serem plantadas no Brasil. Assim, Patrícia Galvão marcou sua presença na vida brasileira não apenas através de sua vida política e de suas contribuições culturais, mas também mostrando-se uma das responsáveis pela introdução de uma nova espécie agrícola, de grande importância para o país.

Chegando em Paris, arrumou uma identidade falsa, Leonnie, e alistou-se no PCF. Presa, identificada como estrangeira e na iminência de ser submetida a Conselho de Guerra ou deportada para a fronteira da Itália ou Alemanha, foi identificada pelo embaixador Souza Dantas, que conseguiu a repatriação de Pagu. Seu regresso não foi nada feliz, seu casamento com Oswald não estava bem e o Brasil era regido pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. Pagu foi novamente presa, sofrendo terríveis torturas nos quatro anos e meio que ficou em cárcere. Ao sair da cadeia, estava impressionantemente magra, com o seu físico e emocional em pedaços. Apesar de tudo, não se entregou, e lúcida, decidiu romper definitivamente com o Partido Comunista.

Após a separação de Oswald, Pagu casou-se com o jornalista Geraldo Ferraz e com ele teve seu segundo filho, indo morar em Santos. Juntos foram redatores de "A Manhã" e de "O Jornal", no Rio, e de "A Noite", em São Paulo.

Entre 1946 e 1948, Pagu integrou, sob a coordenação de Ferraz, a equipe do suplemento literário do "Diário de São Paulo". Assinava a seção "Cor Local", onde prolongava seu combate cultural. Em 1949, Pagu tentou o suicídio com um tiro na cabeça. Escreveu sobre isso em "Verdade e Liberdade", panfleto de 1950: "Uma bala ficou para trás, entre gazes e lembranças estraçalhadas".

Na década de 50, partiu para novas empreitadas fundando a Associação dos Jornalistas Profissionais. Em uma última tentativa de resgatar sua militância política, candidatou-se pelo Partido Socialista Brasileiro, mas não foi eleita. Seu discurso acabou não agradando. Nele revelava as condições degradantes a que fora submetida, que seus nervos e inquietações acabaram transformando-a "numa rocha vincada de golpes e amarguras, mas irredutível". Em 1955 tornou-se crítica de teatro, literatura e televisão do jornal "A Tribuna" de Santos. Traduziu para o teatro a peça de Tonesco, "A Cantora Careca". Dirigiu e também traduziu a peça de Arrabal "Fango e Lis" com um grupo amador (essa peça teve estréia mundial em Santos, sendo vista até em Paris, ficando mais de dez anos em cartaz). Incentivou o teatro amador, fez campanha para a construção do Teatro Municipal (instalado hoje no Centro de Cultura que leva seu nome), traduziu e dirigiu teatro de vanguarda, fundou a União do Teatro Amador, que revelou tantos artistas depois consagrados em teatro e televisão. Foi o caso de Plínio Marcos que conheceu Pagu, como o palhaço de circo Frajola. Foi ela quem incentivou o nascimento do dramaturgo. Dono de uma linguagem crua, a única que conhecia, e de uma densa carga dramática, apresentou a ela o texto de "Barrela". Em uma época em que dizer palavrão em público podia ser considerado um ato ofensivo, era praticamente impossível apresentar uma peça que tratava de estupro e códigos de conduta dentro de uma cela. Tanto que, logo após a primeira exibição, em 1959, "Barrela" foi premiada e censurada em seguida.

Em fins de setembro de 1962, viajou para Paris, na intenção de submeter-se a uma intervenção cirúrgica. A cirurgia não apresentou grandes resultados, o que levou Pagu a tentar novamente o suicídio. Nos últimos anos de vida, apesar de trabalhar incansavelmente pela cultura, começou a beber de forma compulsiva. Suas roupas ficam surradas, escuras e fora de moda. Seus cabelos viviam despenteados, seu olhar era angustiado, cansado, vago...

Datado de 23 de setembro de 1962, esse foi seu último texto, antes de viajar para Paris: "Nada, nada, nada. Nada mais do que nada. Abrir meu abraço aos amigos de sempre. Poetas compareceram, alguns escritores, gente de teatro, birutas no aeroporto. E nada." Precisava ser operada, o câncer a perseguia. Sem sucesso, voltou para o Brasil. Faleceu em 12 de dezembro de 1962.

"O escritor da aventura não teme a aprovação ou a renovação dos leitores. É-lhe indiferente que haja ou não, da parte dos críticos, uma compreensão suficiente. O que lhe importa é abrir novos caminhos à arte, é enriquecer a literatura com gérmens que venham a fecundar a literatura dos próximos cem anos".

Fontes:

http://www.spbancarios.com.br/rb88/rb12.htm
http://www.aleitamento.org.br/meninas/pagu.htm

sonhado por Marcia, 22:53
Sonharam:



Terça-feira, Junho 22, 2004

Anjo de outrora

O anjo de outrora, adormecido na minha alma,
Acordou esta noite e espiou nos meus olhos:
A lágrima caída ainda há pouco era dele.

Foi ele que a esqueceu à porta dos meus olhos,
Com o discreto pudor com que à porta da igreja
Deixamos cair a esmola na mão de um pobre.


Confidências, ternura, melancolia, solidão, adeus são algumas das palavras-matrizes que se encontram nos títulos de seus livros. Ele é poeta de uma doce meditação sobre as coisas, como um cismar despreocupado e atento

Ruy Esteves Ribeiro de Almeida Couto nasceu em Santos, São Paulo, em 12 de março de 1898. Filho de José de Almeida Couto e de Nísia da Conceição Esteves Ribeiro, portuguesa da ilha da Madeira, foi poeta, contista, romancista, jornalista, magistrado e diplomata. Com 14 anos estreou no jornalismo, na imprensa de sua cidade natal. Em 1915, iniciou o curso da Faculdade de Direito de São Paulo, trabalhando como revisor do Jornal do Commercio e depois no Correio Paulistano. Transferiu-se para o Rio de Janeiro e, em 1919, bacharelou-se na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Em 1921 foi publicado seu primeiro livro de poemas, "O Jardim das Confidências". No ano seguinte publicou dois volumes de contos: "A Casa do Gato Cinzento" e "O Crime do Estudante Batista".

No jardim em penumbra

Na penumbra em que jaz o jardim silencioso
A tarde triste vai morrendo... desfalece...
Sobre a pedra de um banco um vulto doloroso
Vem sentar-se, isolado, e como que se esquece.

Deve ser um secreto, um delicado gozo
Permanecer assim, na hora em que a noite desce,
Anônimo, na paz do jardim silencioso,
Numa imobilidade extática de prece.

Em lugar tão propício à doçura das almas
Ele vem meditar muitas vezes, sozinho,
No mesmo banco, sob a carícia das palmas.

E uma só vez o vi chorar, um choro brando...
Fiquei a ouvir... Caíra a noite, de mansinho...
Uma voz de menina ao longe ia cantando.

Exerceu o cargo de delegado de polícia em São Bento do Sapucaí e foi nomeado promotor público em São José do Barreiro, onde ocupou o cargo até 1925, ano em que se transferiu para Pouso Alto, Minas Gerais. Ali exerceu a promotoria pública até 1928. Nesse mesmo período, publicou "Poemetos de Ternura e de Melancolia" (1924), "A Cidade do Vício e da Graça" (1924) e "Baianinha e Outras Mulheres" (1927), livro de contos premiado pela Academia Brasileira de Letras. No início de 1925, o poeta casou-se com Ana Jacinta Pereira

Designado para o posto de auxiliar de consulado em Marselha, partiu em fins de 1928 para aquela cidade francesa, onde o cônsul-geral Matheus de Albuquerque o indicou para vice-cônsul honorário. Entre 1929 e 1955 serviu, como adido consular e embaixador, na França, em Portugal e na Iugoslávia. No início desse período, em 1931, publicou o romance "Cabocla", adaptado por Benedito Ruy Barbosa para novela de televisão em 1979 e que, agora, retorna em nova produção à tela da Rede Globo.

Esquecer

Longos dias de sonho e de repouso...
Ócio e doçura... Sinto, nestes dias,
Meu corpo amolecer, voluptuoso,
Num desfalecimento de energias.

A ler o meu poeta doloroso
E a fumar, passo as horas fugidias.
Entre um cigarro e um verso vaporoso
Sou todo evocações e nostalgias.

Quando por tudo a claridade morre
E sobre as folhas do jardim doente
A tinta branca do luar escorre,

A minha alma, a mercê de velhas mágoas,
É um pássaro ferido mortalmente
Que vai sendo arrastado pelas águas.

Entre 1932 e 1935, publicou "Espírito de São Paulo", "Clube das Esposas Enganadas", "Noroeste e Outros Poemas do Brasil", "Província" e "Presença de Santa Terezinha". Em 28 de março de 1934 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Constâncio Alves. Suas publicações, entre crônicas, posias e ensaios, continuaram: "Cancioneiro do Ausente" , "Uma Noite de Chuva e Outros Contos", "Dia é Longo", "Entre o Mar e o Rio", "Barro do Município", "Dois Retratos de Manuel Bandeira", "Sentimento Lusitano", "Histórias de Cidade Grande", "Poemas Reunidos" e "Longe". Suas obras em prosa, romances, contos e crônicas também refletem a mesma atmosfera, ao retratar episódios simples, a gente humilde dos subúrbios e a vida anônima das pequenas ruas e casas pobres.

Avesso aos manifestos, ele se inclui no modernismo de forma singular. Poeta menor, como já o chamaram, sua revolução está nessa anotaçào do que chama a trágica doçura da vida, na delicadeza com que esboça uma paisagem em que recorta detalhes que afirmam valores desconsiderados por uma modernidade, apressada e violenta.

Surdina

Minha poesia é toda mansa.
Não gesticulo, não me exalto...
Meu tormento sem esperança
tem o pudor de falar alto.

No entanto, de olhos sorridentes,
assisto, pela vida em fora,
à coroação dos eloqüentes.
É natural: a voz sonora
inflama as multidões contentes.

Eu, porém, sou da minoria.
Ao ver as multidões contentes
penso, quase sem ironia:
"Abençoados os eloqüentes
que vos dão toda essa alegria."

Para não ferir a lembrança
minha poesia tem cuidados...
E assim é tão mansa, tão mansa,
que pousa em corações magoados
como um beijo numa criança.

Publicou também dois livros de poemas em francês: "Rive Étrangère" (1951) e "Le Jour est Long" (1958), pelo qual conquistou, em Paris, o prêmio internacional de poesia, outorgado anualmente a poetas estrangeiros cuja obra honra a França.

Nos poemas de Ribeiro Couto, melancolia, desejo e nostalgia apagam os contornos de uma realidade pragmática. Na paisagem de névoa e chuva que criam, naufraga a representação habitual e surgem apenas pontos de cor ou sons, construídos por um olhar que intensifica certos instantes pela luz e pelo ritmo.

Faleceu em Paris, França, a 30 de maio de 1963, aos 65 anos.

Chuva

A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar - quem o faria? -
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de nós... Chove melancolia...


Fontes:
http://www.casaruibarbosa.gov.br/vera_lins/main_paisagem.htm
http://www.secrel.com.br/jpoesia/rib.html
http://www.academia.org.br/cads/26/ribeiro.htm

sonhado por Marcia, 22:39
Sonharam:



Sexta-feira, Junho 18, 2004

"Toda ação requer instrumento. E o instrumento máximo da vida é a instrução... E só vive, no sentido humano da palavra, o que pensa. Os outros se movem, tão somente."

ANTONIETA DE BARROS


Ela teve que romper muitas barreiras para conquistar espaços que, em seu tempo, eram inusitados para as mulheres, e, mais ainda, para uma mulher negra. Educadora, jornalista, escritora e primeira mulher eleita à Assembléia Legislativa de seu Estado, Antonieta de Barros nasceu em 11 julho de 1901, em Florianópolis, Santa Catarina. De família humilde muito cedo se tornou órfã de pai. Logo após ter se diplomado no magistério, o que só foi possível com o auxílio financeiro de amigos da família, fundou o Curso Antonieta de Barros, com o objetivo de combater o analfabetismo, com a convicção de que o ensino era a condição de libertação das pessoas pobres. Foi o início de uma das mais legítimas vocações de educadora de que o Brasil tem notícia. Foi também professora de português e de psicologia no Colégio Coração de Jesus, no Colégio Dias Velho e no Colégio Catarinense e diretora do Colégio Dias Velho e do Instituto de Educação. Antonieta continuou ensinando até o fim de sua vida.

"Educar é ensinar os outros a viver; é iluminar caminhos alheios; é amparar debilitados, transformando-os em fortes; é mostrar as veredas, apontar as escaladas, possibilitando avançar, sem muletas e sem tropeços; é transportar às almas que o Senhor nos confiar, à força insuperável da Fé."

Ser professora era a sua principal vocação, mas Antonieta não parou por aí. Em 1922 deu início às atividades de jornalista, criando e dirigindo em Florianópolis o jornal "A Semana", mantido até 1927. Três anos depois, passou a dirigir o periódico "Vida Ilhoa", na mesma cidade. Escreveu artigos para os jornais "O Estado" e "A Republica". Na década de 30, manteve intercâmbio com a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), como revela a correspondência trocada entre ela e Bertha Lutz, hoje preservada no Arquivo Nacional.

Influente, e com idéias firmes em defesa do magistério e do direito à educação para os menos favorecidos, em 1934, filiou-se ao Partido Liberal Catarinense e elegeu-se deputada estadual. Foi a primeira mulher a participar do processo constituinte no estado de Santa Catarina, atuando como parlamentar até o ano de 1937 quando o então presidente Getúlio Vargas determinou o fechamento do Congresso Nacional e das Assembléias Legislativas.

"Ides ensinar pequeninos. Ensinai-os, pelo exemplo, a ser bons, sem ser tímidos; a ter a coragem da lealdade, sem ser indelicados; a ser valentes, na defesa da própria felicidade e na do próximo, sem a estreiteza do egoísmo. Não deixeis que a raça, a cor, a fortuna e todos esses ridículos nadas em que se perdem, muitas vezes, as criaturas, sejam traços de distinção, entre os pequeninos que o Senhor vos confiar."

Depois da redemocratização do país com a queda do Estado Novo, foi reeleita deputada estadual, dessa vez pelo Partido Social Democrático (PSD). Assumiu a vaga na Assembléia Legislativa em 1947 e cumpriu seu mandato até 1951. Defendeu os professores e a implantação de concursos públicos para a categoria; apresentou projetos para a escolha de diretores de escolas e propõs bolsas escolares para os cursos superiores.

"O lar e a escola são as oficinas onde se formam e se aprimoram os caracteres. A ambos, pois, cabe, dentro da sua linda e soberba finalidade, preparar e adestrar o espírito do que, inevitavelmente, entrará, amanhã, no grande combate, que não só abate os fracos, mas também os desprevenidos. Só o conhecimento da ciência da vida permite ao homem fugir das paixões negativas que proliferam lá fora, onde as competições se chocam e os homens se entredevoram."

Usando o pseudônimo literário de Maria da Ilha, publicou o livro "Farrapos de Idéias", onde reune suas crônicas. A renda do livro foi destinada ao abrigo dos filhos de leprosos da Colônia Santa Tereza, conhecido como Filhos de Lázaro.

Antonieta de Barros faleceu no dia 18 de março de 1952, no Hospital de Caridade. Tinha apenas 51 anos. Não se casou e nem teve filhos.

"Que se mostre aos pequeninos, com a luz do coração e da experiência, "o caminho por onde devem andar", ensinado-lhes que todas as estradas são pedregosas e há espinhos em todas as veredas, mas que, por ser cada criatura o deus da sua trajetória, é seu dever imperativo a realização do divino milagre - tanto mais admirável quanto mais difícil: transformar em frutos e flores as pedras e os espinhos encontrados na dolorosa "senda de curvas estreitas."

Fontes
http://www.ihgsc.org.br/boletnoticia45.htm
http://www.alesc.sc.gov.br/alesc/antonieta/bibliografia.php
http://www.casadeculturadamulhernegra.org.br/mn_mn_t_histo01.htm#brasil_03

sonhado por Marcia, 13:57
Sonharam:



Terça-feira, Junho 15, 2004

"Não é preciso crer nas coisas, basta amá-las. Sendo que amar é muito mais que crer..."

Raul de Leoni


Ele foi altamente independente de seu tempo, capaz de passear por diversos estilos sem nenhum compromisso e filiações a movimentos literários. Sua poesia continha muita influência parnasiana, mas também possuía características simbolistas e uma bela simplicidade misturada a preocupações filosóficas. Embora tenha sido um poeta fino e sensível, verdadeiro mágico da musicalidade, teve uma existência curta, e uma produção reduzida. Por isso mesmo está longe de ser lembrado como sua obra certamente justificaria.
Argila

Nascemos um para o outro, dessa argila
De que são feitas as criaturas raras;
Tens legendas pagãs nas carnes claras
E eu tenho a alma dos faunos na pupila...

Às belezas heróicas te comparas
E em mim a luz olímpica cintila,
Gritam em nós todas as nobres taras
Daquela Grécia esplêndida e tranquila...

É tanta a glória que nos encaminha
Em nosso amor de seleção, profundo,
Que (ouço ao longe o oráculo de Elêusis)

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
O nosso amor conceberia um mundo
E do teu ventre nasceriam deuses...

Nascido em 30 de outubro de 1895, em Petrópolis, Raul de Leoni Ramos, formou-se Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro em 1916. Já atuava, desde 1914, como colaborador das revistas "Fon-Fon!" e "Para Todos", e dos periódicos "Jornal do Brasil", "Jornal do Comércio", "O Jornal" e "O Dia". Foi membro do corpo diplomático brasileiro e serviu em Montevidéu (Uruguai), em 1918. Seu primeiro livro de poemas, "Ode a um Poeta Morto", foi publicado em 1919, em homenagem ao amigo Olavo Bilac. Essa publicação foi tão reduzida que logo se tornou raridade bibliográfica. Em 1922, coincidindo com o ano da Semana de Arte Moderna, foi publicado "Luz Mediterrânea", reeditado em 1928.

Decadência

Afinal, é o costume de viver
Que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
O hábito melancólico de ser...

Vai-se vivendo... é o vício de viver...
E se esse vício dá qualquer prazer à gente,
Como todo prazer vicioso é triste e doente,
Porque o Vício é a doença do Prazer...

Vai-se vivendo... vive-se demais,
E um dia chega em que tudo que somos
É apenas a saudade do que fomos...

Vai-se vivendo... e muitas vezes nem sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobreviventes de nós mesmos!...

A importância de sua obra fez com que se editasse, em 1961, a antologia de poemas "Trechos Escolhidos".
Platônico

As idéias são seres superiores,
- Almas recônditas de sensitivas -
Cheias de intimidades fugitivas,
De crepúsculos, melindres e pudores.

Por onde andares e por onde fores,
Cuidado com essas flores pensativas,
Que tem pólen, perfumes, órgãos e cores
E sofrem mais que as outras cousas vivas.

Colhe-as na solidão... são obras-primas
Que vieram de outros tempos e outros climas
Para os jardins de tua alma que transponho,

Para com ela teceres, na subida,
A coroa votiva do teu Sonho
E a legenda imperial da tua Vida.

A qualidade da poesia de Raul de Leoni passou acima das controvérsias de estilo e foi igualmente aplaudida por parnasianos, modernistas, simbolistas e representantes de todas as correntes que fizeram a espécie de convulsão artística e intelectual que dominou as primeiras décadas deste século passado. Contudo, mesmo tendo obtido relativo êxito editorial e conquistado lugar cativo na memória do meio literário, Leoni não se salvou inteiramente da obscuridade que costuma envolver os que preferem dedicar-se serenamente à construção da própria obra do que afiliar-se a uma escola.

Pudor

Quando fores sentindo que o fulgor
Do teu Ser se corrompe e a adolescência
Do teu gênio desmaia e perde a cor,
Entre penumbras e deliquescência,

Faze a tua sagrada penitência,
Fecha-te num silêncio superior,
Mas não mostres a tua decadência
Ao mundo que assistiu teu esplendor!

Foge de tudo para o teu nadir!
Poupa ao prazer dos homens o teu drama!
Que é mesmo triste para os olhos ver

E assistir, sobre o mesmo panorama,
A alegoria matinal subir
E a ronda dos crepúsculos descer...

Na avaliação feita pelo crítico Fernando Py, sobre a obra de Raul de Leoni, "o pensamento filosófico antecede o literário, ou seja, a demonstração de verdades filosóficas está predominando sobre a busca da expressão mais bela e da mais correta forma"; "....deixou uma obra pequena, porém de extrema densidade e decantação que ainda hoje é objeto de estudos e de leitura fervorosa. O que ele plenamente merece."

A Alma das cousas somos nós

Dentro do eterno giro universal
Das cousas, tudo vai e volta à alma da gente,
Mas, se nesse vaivém tudo parece igual
Nada mais, na verdade,
Nunca mais se repete exatamente...

Sim, as cousas são sempre as mesmas na corrente
Que no-las leva e traz, num círculo fatal;
O que varia é o espírito que as sente
Que é imperceptivelmente desigual,
Que sempre as vive diferentemente,
E, assim, a vida é sempre inédita, afinal...

Estado de alma em fuga pelas horas,
Tons esquivos e trêmulos, nuanças
Suscetíveis, sutis, que fogem no Íris
Da sensibilidade furta-cor...
E a nossa alma é a expressão fugitiva das cousas
E a vida somos nós, que sempre somos outros!...
Homem inquieto e vão que não repousas!

Pára e escuta:
Se as cousas têm espírito, nós somos
Esse espírito efêmero das cousas,
Volúvel e diverso,
Variando, instante a instante, intimamente,
E eternamente,
Dentro da indiferença do Universo!...

Com uma doença no pulmão, Raul de Leoni abandonou o convívio de parentes e amigos, indo para Corrêas e a seguir, Itaipava, licenciando-se do cargo de inspetor na Companhia de Seguros, onde então trabalhava.

Ingratidão

Nunca mais me esqueci! ... Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
Eflorescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...

Raul de Leoni faleceu em Vila Serena, Itaipava, Petrópolis no dia 21 de novembro de 1926.
Diálogo Final

- Como são lindos os teus grandes versos!
Que colorido humano! que profundo
Sentido e que harmonia generosa
Encerram, nos seus símbolos diversos!...

- Sim, mas para fazê-los fui ao fundo
Das cousas, nessa Via Dolorosa
Do pensamento, que no fim é sempre triste.
Sofri muito entre os seres infelizes...

Tu não sabes de nada...tu não viste...
- Não, nunca imaginei o que me dizes...
Mas teus versos me fazem tanto bem,
São tão belos! de formas tão luxuosas!...

- É isso mesmo!...É a beleza irônica que vem
Da amargura invisível das raízes,
Para dar a vaidade efêmera das rosas...


Fontes:
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/poesia/home/dsp_home.cfm
http://www.secrel.com.br/jpoesia/miborja.html#leoni
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/escritores-011.ht

sonhado por Marcia, 22:54

Sonharam:



Sábado, Junho 12, 2004

ELIZABETH BARRETT E ROBERT BROWNING
A HISTÓRIA DE UM GRANDE AMOR



Embora tivesse alcançado grande fama como poetisa, ela vivia longe e separada do mundo pela saúde precária. Solteira ainda, há muito que Elizabeth Barrett, havia ultrapassado a primeira juventude e há seis anos que ali permanecia inválida, como que prisioneira dentro do seu próprio quarto. Um dia, o carteiro bateu à porta de sua casa. Ela recebia cartas habitualmente, pois mantinha viva correspondência com muita gente e, por princípio, lançava ao fogo todas as que provinham de admiradores fanáticos. Naquele dia, porém, não queimou a que chegou. Sem que pudesse imaginá-lo, aquela seria a chave que iria abrir as portas da sua prisão, o primeiro passo na transformação de uma mulher doente na heroína de um idílio eternamente famoso na história da literatura.

"Amo estes livros e amo-a a si também. Sabe que uma vez estive quase a conhecê-la pessoalmente? Uma manhã, o senhor Kenion perguntou-me: "Gostaria que eu o apresentasse a Miss Barret? "E foi anunciar-me, mas pouco depois voltou dizendo que a senhora não se sentia bem e assim regressei a casa. Será que nunca a conseguirei ver? De qualquer maneira, quero dizer-lhe que era necessário que os seus poemas fossem escritos para que tão grande alegria e tão sincera satisfação despertassem no seu devoto admirador Robert Browning ".

Essa carta foi como que uma rajada de autêntica felicidade para Elizabeth. Ela nunca tinha visto Robert Browning, embora lhe conhecesse a obra, que não era ainda tão famosa como a sua. Naquele momento, porém, sentiu que já o conhecia e, sem hesitar, começou a responder: "De todo o coração lhe agradeço, caro Sr. Browning" , e, seguidamente, passou a versar temas de poesia, como um poeta dirigindo-se a outro. No entanto, não deixou de responder à súplica de Browning quanto a um contato pessoal entre ambos. "Os invernos cerram-me todo o horizonte tal como cerram os olhos dos organazes". E acrescentou, a jeito de convite tímido: "Na primavera veremos". Elogiou, de novo, os seus poemas e terminou com as palavras: "Sua dedicada amiga, Elizabeth Barrett".

A liberdade de que Robert Browning desfrutava contrastava com a reclusão de Elizabeth. Ele vivia, com os pais e uma irmã, em uma casa muito agradável, situada em Camberwell e dedicava todo o seu tempo e toda a sua atividade a escrever poesias. Grande parte da sua cultura era produto não só dos inúmeros livros que havia lido mas também dos ensinamentos do pai. Por sua vez, contrastando com Elizabeth, pela sua versatilidade, cultura e boa aparência, Robert extrapolava dos seus limites domésticos, participando ativamente do mundo elegante e distinto da época. Como secretário de um diplomata tivera oportunidade de visitar a Rússia e esteve duas vezes na Itália, que sempre considerou como uma segunda pátria. Ao regressar à Inglaterra sentiu-se, porém, desorientado e experimentou a necessidade de encontrar um ideal que desse rumo novo à sua vida. Foi nesse estado de ânimo que começou a ler os poemas de Elizabeth Barret, editados em dois volumes, publicados enquanto se encontrava no estrangeiro.

Seduzido de forma irremediável pela poesia de Elizabeth, Robert Browning, que se julgava inatingível nos caprichos do amor, percebeu de forma arrebatadora que sucumbira aos versos fluentes, enamorando-se perdidamente pelo espírito e inteligência daquela poetisa.

Na realidade, Elizabeth Barrett não era, então, mais do que isso, pelo que tinha já renunciado a toda a esperança de levar uma vida ativa. Quando criança havia possuído uma vitalidade extraordinária. Era a filha mais velha de uma família numerosa e próspera que vivia num lugar de Herefordshire chamado Hope End (Fim da Esperança), nome sombrio que só um homem insensível como seu pai, Edward Moulton Barrett, podia ter dado a seu próprio lar. Mas, como Elizabeth escreveu mais tarde, ele era "uma pessoa muito estranha ". Herdeiro de uma considerável fortuna, educado em Harrow e Cambridge, portava-se como um verdadeiro tirano em casa.

Elizabeth teve, contudo, uma infância feliz. Brincava e estudava com o mais velho dos seus irmãos, aprendia grego e francês, lia com avidez e escrevia tragédias em verso. Mas a sua própria tragédia começou aos quinze anos, com uma tosse violenta e uma grave lesão nas costas que lhe afetou tanto a espinha dorsal como os pulmões e, com a perda de sua mãe que morreu pouco depois. A doença de Elizabeth se agravou, fazendo com que praticamente se isolasse do mundo exterior.

Voltando às cartas, Robert Browning havia interpretado a tímida frase "Na primavera veremos" como um convite, porém, a seguir, embora com moderação, Elizabeth respondeu-lhe: "A minha Primavera chega mais tarde"

Finalmente, numa terça-feira da segunda quinzena de maio, Robert Browning foi até a casa de Elizabeth. Referindo-se a esta primeira visita, ela escreveu: "Desde que chegaste foi como se fosse para sempre". Robert, loucamente enamorado, apressou-se a declarar-lhe, por escrito, a sua paixão. Tomada de profunda angústia, a poetisa devolveu-lhe a carta e, embora em tom de afeto, assinando a correspondência com amizade e gratidão, proibiu ao galante admirador de falar ou comentar tais assuntos.

A troca de correspondências continuou de modo intenso, estabelecendo-se uma completa e mútua compreensão entre eles. Robert visitava-a semanalmente e a sua presença era como um bálsamo para Elizabeth, dando-lhe novas forças para lutar contra a implacável doença. Todavia, com a consolidação dos fatos, não demorou muito para acontecer o que poucos, por mais otimistas e esperançosos que fossem, acreditavam que pudesse acontecer. Numa bela manhã de verão, sentindo-se muito bem disposta, Elizabeth liberta-se do velho sofá e num feito há muito não presenciado por ninguém, passeia pelo quarto e, postada junto à janela, respira fundo o ar puro. "Agora já me sinto viver" , exclamou.

Estimulada por Robert, Elizabeth, já com quarenta anos de idade, lutava contra a sua debilidade física na tentativa de recuperar as forças e se libertar dos longos e sofridos anos de invalidez de que foi vítima. Saía já do quarto e descia ao andar inferior, o que nunca havia feito nos invernos anteriores. Permanecia nela, contudo, o receio de se tornar um peso para Robert e o que a atemorizava ainda mais era a possibilidade de que as suas relações sentimentais viessem a ser descobertas. Se tal acontecesse, o pai era bem capaz de destruir todas as cartas existentes e de proibir a entrada de Robert em sua casa. Ao chegar a primavera, concordaram ambos em partir juntos para a Itália. Temerosa ainda, Elizabeth procurou o fortalecimento físico em pequenas caminhadas, passeios em lugares mais arborizados, enfim, criando energia e coragem para concretizar o sonho de uma união feliz com o seu amado. O verão estava já perto do fim e outro inverno se divisava que, por certo, a tornaria, de novo, cativa. Conspirando ainda mais com esses temores, o pai de Elizabeth resolveu reformar a casa, sendo necessário o remanejamento de toda a família para outro local. Tomada de pânico, no dia 10 de setembro, Elizabeth envia uma mensagem para Robert que, interpretando a carta como um pedido de socorro, responde: "Se partires, o nosso casamento será adiado pelo menos um ano. Já tivemos ocasião de verificar o que ganhamos em esperar até agora. Devemos, pois, casar imediatamente e partir para Itália. Hoje mesmo pedirei a licença e, deste modo, o casamento poderá realizar-se no próximo sábado".

Desta vez Elizabeth não vacilou. Na manhã do dia 12 de setembro de 1846, saiu de casa com a sua fiel criada, com o pretexto de visitar a uma amiga. No meio do caminho quase ia desmaiando, mas, reanimada, conseguiu finalmente, alcançar a igreja onde Robert, acompanhado de um primo, a aguardava. De forma discreta, finalmente o casamento se concretizou. Feliz, mas tensa e esgotada fisicamente, Elizabeth regressou a casa com a criada, adiando a fuga para quando ela se sentisse um pouco mais forte. Uma semana após o enlace matrimonial, dia 19 de setembro de 1846, Elizabeth, a criada e seu cachorro Flusx, deixaram definitivamente para trás a casa que teria sido uma verdadeira prisão. Perto dali, à porta de uma livraria, aguardava-as Robert Browning. Tomaram, imediatamente, um trem para a estação de Nine Elms, perto de Vauxhall, e dela partiram para a primeira jornada da sua viagem rumo ao sol e à felicidade.

Os dois viveram felizes por muitos anos. Visitaram Paris, Pisa, Florença e Roma, desfrutando de luz, calor, paz e poesia e alcançando a grande ventura do perfeito e comum entendimento. Com mais forças e gozando de melhor saúde, Elizabeth, na primavera de 1849 deu à luz um menino, redobrando assim a felicidade daquele matrimônio.

Na cidade de Florença, dia 29 de junho de 1861, acometida de um repentino e inesperado ataque de bronquite, imediatamente assistida pelo seu médico, nos braços de Robert, a poetisa faleceu. Mais tarde, num relato comovente o poeta escreveu: "Sempre sorrindo e com uma expressão de felicidade no seu rosto de menina, faleceu, em poucos minutos, com a cabeça apoiada na minha face".

Elizabeth Barrett Browning legou-nos um testemunho duradouro do seu grande e puro amor. Uma manhã, na Itália, entregou a Robert um caderno de poemas, mas tarde publicados sob o título de "Sonnets from the Portuguese" ( Sonetos traduzidos do Português ).


Minh'alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do Sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quiser,
Ainda mais te amarei depois da morte.


********

As minhas cartas! Todas elas frio,
Mudo e morto papel! No entanto agora
Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio
Da vida eis que retorno hora por hora.

Nesta queria ver-me - era estilo -
Como amiga a seu lado... Nesta implora
Vir e as mãos me tomar... Tão simples! Li-o
E chorei. Nesta diz quanto me adora.

Nesta confiou: sou teu, e empalidece
A tinta no papel, tanto o apertara
Ao meu peito, que todo inda estremece!

Mas uma... Ó meu amor, o que me disse
Não digo. Que bem mal me aproveitara,
Se o que então me disseste eu repetisse...

Tradução de Manuel Bandeira


Fontes:
http://users.hotlink.com.br/marielli/mestres/barrett.html
http://www.calendario.cnt.br/amor/AMOR.htm
http://geocities.yahoo.com.br/jerusalem_14/elisabethbarrett.html

sonhado por Marcia, 16:03
Sonharam:



Segunda-feira, Junho 07, 2004

Maria Firmina dos Reis, nasceu em 11 de outubro de 1825 em São Luís do Maranhão. Foi professora e colaboradora de jornais literários. Pobre, mestiça e mulher, enfrentou todas as barreiras do preconceito. A desumanização produzida pelo racismo e a escravidão não puderam sufocar sua ânsia de conhecimento e de expressão. Em 1859, com pouco mais de 30 anos, publicou Úrsula, considerado nosso primeiro romance abolicionista e um dos primeiros escritos por mulher brasileira. O negro, enquanto escravo, tem presença marcante no livro. A narradora denuncia a violência do sistema escravista e questiona a sua legitimidade. Os escravos eram arrancados da terra natal, transportados como animais nos navios negreiros, reprimidos sadicamente em caso de justa revolta e separados de suas famílias, sem respeito algum aos seus sentimentos. Trabalhavam sem descanso, alimentação, roupas ou moradia adequadas.

"E o mísero sofria; porque era escravo e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos e puros como a sua alma. Era infeliz, mas era virtuoso."

As páginas iniciais desse livro nos colocam dois personagens pertencentes a classes sociais diferentes, e, o que é melhor, a raças diferentes, mas unidas por um mesmo espírito generoso: um jovem senhor branco e um negro escravo. Ferido por seu cavalo, o branco desmaia e é socorrido pelo escravo. Ao despertar, o branco compreende que deve a vida ao negro e um belo sentimento de simpatia nascerá daí, figurando o sonho de uma nação formada pela união de raças:

"Apesar da febre, que despontava, o cavaleiro começava a coordenar suas idéias, e as expressões do escravo, e os serviços que lhe prestara, tocaram-lhe o mais fundo do coração. É que em seu coração ardiam sentimentos tão nobres e generosos como os que animavam a alma do jovem negro. (..) As almas generosas são sempre irmãs."

Desde o começo do romance, a voz enunciadora se coloca do lado daqueles que desejavam um Brasil liberto das desigualdades. É preciso lembrar da posição corajosa de Maria Firmina ao denunciar a ilegitimidade e violência da escravidão, justamente no Maranhão, província que era considerada como sendo fortemente escravista. O fato de o vilão da história ser o pior e mais cruel dos senhores, não quer dizer que a escravidão seja legítima para os escravos que possuem um bom senhor.

"O homem que assim falava era um pobre rapaz, que ao muito parecia contar vinte e cinco anos, e que na franca expressão de sua fisionomia deixava adivinhar toda a nobreza de um coração bem formado. O sangue africano refervia-lhe nas veias; o mísero ligava-se à odiosa cadeia de escravidão; e embalde o sangue ardente que herdara de seus pais, e que o nosso clima e a servidão não puderam resfriar, embalde - dissemos - se revoltava; porque se lhe erguia como barreira - o poder do forte contra o fraco!"

Com seu romance Úrsula, Maria Firmina dos Reis escreveu uma obra marcada pelo que poderíamos chamar hoje de sentimento de brasilidade. Ela anseia por uma pátria sem preconceitos e sem castas, uma pátria em que se atenuam as diferenças de classes. Uma pátria na qual uma mulher possa chegar a ter bastante cultura para escrever como escrevem os homens - coisa que, diga-se de passagem, ela o fez muito bem. Igualdade racial, igualdade social, igualdade sexual. Maria Firmina se colocou diante de nós como uma escritora consciente das questões que moviam o Brasil de então, em marcha para a construção da democracia.

Maria Firmina publicou, em 1887, um conto também abolicionista, chamado A Escrava. Apesar de ter sido publicado já nas vésperas da abolição, quando os escravos no Sul abandonavam em massa as fazendas, os personagens escravos mantêm o mesmo perfil: fiéis, honestos, submissos, humildes e gratos. Publicou também o livro de poemas Cantos à Beira Mar e uma novela intitulada Gupeva. Fez da literatura um instrumento de denúncia da escravidão, mostrando o quanto sua existência era contraditória com a fé cristã professada pela sociedade. Procurou ressaltar a superioridade moral do negro que conseguia preservar sua humanidade e sentimentos elevados ainda que na condição degradante de escravo. Aos 55 anos, antes de aposentar-se do Magistério Público, Firmina fundou em Guimarães uma escola mista e gratuita para crianças pobres que causou escândalo no povoado de Maçaricó e teve que ser fechada. Embora solteira e pobre, adotou várias crianças e teve inúmeros afilhados. Morreu anos 92 anos, na casa de uma amiga ex escrava.

AH! NÃO POSSO

Se uma frase se pudesse
Do meu peito destacar;
Uma frase misteriosa
Como o gemido do mar,
Em noite erma, e saudosa,
De meigo, e doce luar.

Ah! se pudesse!... mas muda
Sou, por lei, que me impõe Deus!
Essa frase maga encerra,
Resume os afetos meus;
Exprime o gozo dos anjos,
Extremos puros dos céus.

Entretanto, ela é meu sonho,
Meu ideal inda é ela;
Menos a vida eu amara
Embora fosse ela bela.
Como rubro diamante,
Sob finíssima tela.

Se dizê-la é meu empenho,
Reprimi-la é meu dever:
Se se escapar dos meus lábios,
Oh! Deus, fazei-me morrer!
Que eu pronunciando-a não posso
Mais sobre a terra viver.

SEU NOME

Seu nome! em repeti-lo a planta, a erva,
A fonte, a solidão, o mar, a brisa
Meu peito se extasia!
Seu nome é meu alento, é-me deleite;
Seu nome, se o repito, é dúlia nota
De infinda melodia.

Seu nome! vejo-o escrito em letras d'ouro
No azul sideral à noite quando
Medito à beira-mar:
E sobre as mansas águas debruçada,
Melancólica, e bela eu vejo a lua,
Na praia a se mirar.

Seu nome! é minha glória, é meu porvir,
Minha esperança, e ambição é ele,
Meu sonho, meu amor!
Seu nome afina as cordas de minh'harpa,
Exalta a minha mente, e a embriaga
De poético odor.

Seu nome! embora vague esta minha alma
Em páramos desertos, - ou medite
Em bronca solidão:
Seu nome é minha idéia - em vão tentara
Roubar-mo alguém do peito - em vão - repito,
Seu nome é meu condão.

Quando baixar benéfico a meu leito,
Esse anjo de deus, pálido, e triste
Amigo derradeiro.
No seu último arcar, no extremo alento,
Há de seu nome pronunciar meus lábios,
Seu nome todo inteiro!...


Fontes:
http://www.criola.ong.org/htm/mulher11.html
http://cucamott.sites.uol.com.br/escritorasnegras.htm
http://planeta.terra.com.br/educacao/csgiusti/Especiais/MFReis/Lihn.htm

sonhado por Marcia, 21:19
Sonharam:



Quarta-feira, Junho 02, 2004

ÀS VEZES

Às vezes, subitamente, a poesia te visita.
Pura.
Infinitamente pura.
Como uma rosa.
Melhor ainda:
como a idéia de rosa.

A trajetória poética de Emílio Guimarães Moura é constituída de aproximações e afastamentos alternativos ao núcleo do mistério. Sua lírica empenha-se na mescla da mulher amada com o mito e na formalização do mito em poesia. Sonho, mulher e mito alimentam a expressão dramática do poeta, no sofrido tributo de captar a amada ausente. Ao final da vida, Emílio Moura sentia mais o peso da contingência humana. A tarde, o crepúsculo e a noite invadiamm os seus poemas, enquanto o poeta buscava proteger-se com os parentes, os amigos e as reminiscências. Ele se entregou à transcendência, dedicou-se a unificar o diverso mediante a intuição poética, cuidou de uma experiência íntima que buscava o excesso de si mesmo.

CANÇÃO

Viver não dói. O que dói
é a vida que não se vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.

que tudo mais é perdido.


Nascido em Dores do Indaiá, Minas Gerais, em 14 de agosto de 1902, Emílio Moura fundou, em 1925, juntamente com Carlos Drummond, Gregoriano Canedo e Francisco Martins de Almeida, "A Revista", periódico pertencente à série de publicações de cunho modernista que se registra nos anos 20 no Brasil. Formou-se bacharel, em 1928, pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Rico de perplexidades, procurava disfarçar o tamanho de seu talento em timidez bem-educada e silenciosa. Seu primeiro livro de poesia, Ingenuidade, foi publicado em 1931. Seguiram-se Canto da Hora Amarga (1936), Cancioneiro (1943), O Espelho e a Musa (1949), O Instante e o Eterno (1953), Itinerário Poético (1969), entre outros.

POEMA

Renasces em ti mesma e por ti mesma.
Movimentas o sonho, a poesia e as aventuras imprevisíveis.
O imponderável é a sua matéria.

A poesia só me visita para que te realizes,
para que eu te sinta e te compreenda.

Que caminhos te prendem,
que ignotas rotas te iluminam?

Uma rosa se forma entre o teu sorriso e a aurora.

De repente,
tudo se torna tão irreal
que te sinto visível.
À MUSA

Nunca te exaltei, porque estas acima do tempo.
Não sei que mito se humanizou em ti para que pudesses realizar esse equilíbrio de realidade e de irrealidade.
Só sei que és a paz ou o desespero dos poetas que te conheceram ou que te desconhecem.

Vieste tão do alto!
Ainda estavas infinitamente longe e já o ruído de teus passos ressoavam vivamente dentro de meu sonho.

És anterior a ti mesma
e eu te esperei desde o princípio.
E foi para te descobrir que minha poesia veio alimentando pelos tempos afora a sua infinita sede de plenitude.

E parou em ti que és a própria poesia.

Na verdade, eu já te esperava desde o princípio.


Mesmo tendo sido o imenso poeta que foi, Emílio Moura jamais ultrapassou a soleira da porta da notoriedade escandalosa por onde tantos de seus contemporâneos procuraram entrar na casa da fama. Preferiu manter com a poesia, uma discreta relação platônica de indagação de essências, que nada tem a ver com o palanque da impaciência juvenil de outros modernistas.

LAMENTO EM VOZ BAIXA

A vida que não tive
morre em mim até hoje.
Chega, límpida, pura,
sorri, pálida, foge.

A vida que não tive
salta, viva, de tudo.
Se me sorri nos olhos,
com que ilusão me iludo.

A vida que não tive
é o que há de mim em mim,
chama, orvalho, segredo
do nunca de onde vim.


Emílio Moura foi um dos nomes mais representativos da Literatura Brasileira da fase modernista. Em 1949 ganhou o Prêmio de Poesia da Academia Mineira de Letras e em 1969 recebeu os prêmios do Pen Club do Brasil e de Poesia do Instituto Nacional do Livro.
EXÍLIO

Já nada vejo nessa bruma
que ora te esconde.
Quero encontrar-te, mas à noite
não me traz nenhuma
esperança de onde nem quando.

Amor, ah, quanto me deves!
Que é dos pés que, leves, leves,
roçaram por este chão?

Alma, és só tempo e solidão.

Sua poesia, plena de confessado misticismo, revela um desejo do inefável, em que a busca de Deus e da poesia se mesclam. No entanto, longe de significar uma fuga ao humano, tal busca enfrenta as contradições de um eu poético profundamente ancorado no humano.

LIBERTAÇÃO

Sou um poeta quase místico:
A vida é bela quando é um êxtase.

Ah! não ter um pensamento, um só pensamento no cérebro,
não vigiar a vida, a vida inquieta, a vida múltipla da sensibilidade,
mas vivê-la, de olhos cerrados, num silêncio cheio de ritmos;
não ouvir as palavras frias que mudam o destino,
ou que o fazem semelhante a um autômato;
e saber a toda hora,
saber sempre
que a vida é bela quando é um êxtase

Emílio Moura morreu em 1971. Dele, despediu-se o amigo Carlos Drummond: "Corredor ou caverna ou túnel ou presídio, não importa: uma luz violeta vai seguir-me: A saudade de Emílio Moura."

MEU CORAÇÃO

Penso agora nos mortos que não têm nome,
nos vivos que não têm nome;
penso agora naqueles que vieram cedo demais e se cansaram,
e naqueles que chegaram depois que todas as portas já estavam fechadas.
Penso agora na sede do homem desesperado que se deixou ficar no deserto;
nos que lutaram inutilmente por caminhos que não levaram a nada;
nos que se calaram, porque compreenderam,
e nos que disseram todas as palavras e não foram compreendidos.

Por que foi que, de repente,
todas as vidas se somaram
para me envolver neste momento?
Meu coração se multiplica:
agora é apenas meu coração que está palpitando no mundo.


Fontes:
http://mariomoura.sites.uol.com.br/personalidades/index.html
http://www.revista.agulha.nom.br/ag28moura.htm
http://members.tripod.com.br/emiliomoura/

sonhado por Marcia, 22:44
Sonharam:



:: Sonhando I ::
"Agarra-te aos sonhos porque, se os sonhos morrem, a vida se converte num pássaro de asas quebradas que deixa de voar."
Langston Hughes

:: :: :: ::

:: Sonhando II ::
"Estou sempre nos limiares:
sou sempre esta pausa antes
do início de uma canção,
sou um momento de espera,
quase um fim de solidão.
Sou margem de caminho para a morte,
gesto que pressente atrás do véu:
promessa de chuvas sob o céu,
e vôo que antes de partir
repousa."
Lya Luft

:: :: :: ::

:: E-mail ::
::
Fale comigo

:: :: :: ::

:: Blogs ::
::
::
::
::
::
::
Espaço Livre
::
::
::
::
::
::
::
::
::
::
::
::
::
::
::
::
::

:: :: :: ::

:: Sites ::
::
Carlos Drummond
::
Literatura
::
Mario Prata
::
Vinícius de Moraes

:: :: :: ::

:: Arquivos ::
::
Arquivos Anteriores

:: :: :: ::

:: Créditos ::
::
Blogger Brasil
::
Ecritures

:: :: :: ::

:: Agradecimentos ::
::
Eu estou no Blog List
::
O Ponto de Encontro dos Blogueiros do Brasil
::
Divulgue o seu blog!
::

:: :: :: ::