Sexta-feira,
Julho 30, 2004
Retorno
e agradecimentos
Queridos amigos, o blog volta a funcionar. Os comentários
foram perdidos mas, como costumo dizer, sempre existe o
lado bom em tudo, mesmo quando passamos por situações desagradáveis.
E é engraçado como a vida nos reserva grandes surpresas.
As vezes, a ajuda de que precisamos, vem de quem a gente
menos espera. Gente que a gente nem conhece. Gente que é
GENTE!
Há algum tempo eu venho querendo consertar algumas coisas
que não estavam legais por aqui, mas como o meu conhecimento
de HTML é mínimo, tudo ía ficando só no querer. Para completar
o que não estava bem, os comentários desapareceram e aí,
nesse meio de caos total, surgiram 2 pessoas para as quais
faço um agradecimento especial.
Leo, obrigada por tudo que você fez e continua fazendo
no blog. Quando te pedi ajuda, jamais poderia imaginar que
eu ganharia tantas coisas bonitas. Apesar de não nos conhecermos
direito, você não se negou a ajudar e passou horas e horas
fazendo correções, arrumando e melhorando este cantinho.
Só não conseguiu recuperar os comentários porque não dependia
de você, mas aí veio outra surpresa com o cadastro...assim
a solução para o problema ficaria mais fácil. Ao ler seu
e-mail me informando login e a senha que eu poderia utilizar,
fiquei até sem saber o que dizer. O seu gesto me tocou profundamente...você
é uma pessoa rara. Mais uma vez obrigada.
Sheila, carinhosamente Shê, obrigada por sua
atenção e empenho na recuperação dos comentários do blog.
Te encontrei através de outra pessoa que passou pelo mesmo
problema, enviei um e-mail e você, imediatamente, me orientou
com procedimentos que poderiam ajudar. Mas os comentários
não estavam dispostos a aparecer e, apesar da sua boa vontade,
eles não quiseram voltar para o blog. Sem problemas, o importante
é que você tentou. Novo sistema foi instalado, a migração
está sendo feita e estamos funcionando. Você é um exemplo
de que seriedade no trabalho combina perfeitamente com alto
astral e bom humor, e isso muita gente está esquecendo nos
dias atuais. Adorei te conhecer...e pra quem não conhece,
ela está aqui
E é isso, em um mundo de competições, onde muitas vezes
o egoísmo e a falta de humildade imperam, encontramos pessoas
iguais a voces, que, além de competentes, são simples, humildes
e solidárias.

Agradeço também a todos os amigos que, durante esse período,
estiveram sempre em contato comigo através de e-mails. Obrigada
pelo carinho.
"Sigo acreditando no homem, como sigo acreditando na
natureza quando, no mais árido deserto vejo abrir-se uma
flor." Phil Bosmans
sonhado por Marcia, 01:05
Sonharam:
Sábado, Julho 17, 2004
Sua
poesia foi marcada por lágrimas, decepções e amarguras.
A religiosidade, mais do que o misticismo que os críticos
vislumbram na sua poesia, encobria a frustração da vida.
Ela encontrou no próprio sofrimento a expressão exata do
sofrimento alheio. Uma biografia simples como os seus versos
e o seu coração.
"Quando eu morrer, vou assim:
Sustendo meu coração...
Saudade da terra? Sim!"
Auta de Souza nasceu a 12 de setembro de 1876, em
Macaíba, Rio Grande do Norte, sendo seus pais Elói Castriciano
de Souza e D. Henriqueta Leopoldina de Souza. Foram seus
irmãos, Eloi de Souza, parlamentar e jornalista político,
Henrique Castriciano de Souza, poeta e escritor dos mais
ilustres do Rio Grande do Norte, Irineu Leão Rodrigues de
Souza e João Câncio Rodrigues de Souza. Estudou no Colégio
São Vicente de Paulo, coordenado por religiosas francesas,
onde aprendeu e dominou o francês, o que lhe possibilitou
a leitura no original de autores como Vitor Hugo, Chateaubriand,
Fénelon e Lamartine.
As mãos
de Clarisse
Causam-me tantos martírios
As tuas mãos adoradas,
Com estes dedos de fadas,
Tão formosos e pequenos...
Que eu chamaria dois lírios,
Se houvesse lírios morenos!
Num leque
Na gaze loura deste leque adeja
Não sei que amora místico e encantado...
Doce morena! Abençoado seja
O doce aroma de teu leque amado
Quando o entreabres, a sorrir, na Igreja,
O templo inteiro fica embalsamado...
Até minh'alma carinhosa o beija,
Como a toalha de um altar sagrado.
E enquanto o aroma inebriante voa,
Unido aos hinos que, no coro, entoa
A voz de um órgão soluçando dores,
Só me parece que o choroso canto
Sobe da gaze de teu leque santo,
Cheio de luz e de perfume e flores!
Aos quatorze anos, quando lhe apareceram os primeiros sintomas
da tuberculose, mal que a levou a morte, não havia senão sombras
em seu espírito: já era órfã de pai e mãe, tendo assistido
ao espetáculo inesquecível do aniquilamento de um irmão devorado
pelas chamas. Com o início da doença, Auta abandonou os estudos
para, através de constantes viagens, buscar climas mais adequados
a sua saúde. Angicos, no Rio Grande do Norte, teria sido o
local mais procurado.
Cantiga
Meu sonho dourado e leve,
Que buscas tu a voar?
Um ninho branco de neve
Onde me deixem cantar.
E em busca das nuvens belas
Lá vai meu sonho a cantar...
Meu sonho cor das estrelas,
Meu sonho cor do luar.
Pergunto ao sonho chorando,
Por que foges a cantar?
E ele responde, cantando:
Por que foges a cantar?
E em busca das nuvens belas
Foi-se meu sonho a cantar...
Meu sonho cor das estrelas,
Meu sonho cor do luar.
Em 1893, começou a divulgar seus primeiros versos, publicando-os
em jornais como "A República", "A Tribuna",
o "Oito de Setembro", de Natal, e nas revistas "Oásis"
e "Revista do Rio Grande do Norte", órgão do Congresso
Literário. Em 1900 foi publicado seu único livro de poemas
sob o título de "Horto", prefaciado por Olavo Bilac
e que obteve significativa repercussão na crítica nacional,
com a edição esgotada em dois meses. O livro é um cântico
de dor, mas, também, de fé cristã. Versos comovidos e ternos,
ora ardentes, ora tristes, lavrados à sombra da enfermidade,
no cenário desolador do sertão de sua terra.
Cores
A Cecília Burle
Enquanto a gente é criança
Tem no seio um doce ninho
Onde vive um passarinho
Formoso como a Esperança.
E ele canta noite e dia
Porque se chama: Alegria.
Depois... vai-se a Primavera...
É o tempo em que a gente cresce...
O riso se muda em prece,
A alma não canta: espera!
E ao ninho do Coração
Desce outra ave: a Ilusão.
Mas esta, como a Alegria,
Nos foge... E fica deserto
O coração, na agonia
Do inverno que já vem perto.
Nas ruínas da Mocidade
É quando pousa a saudade...
A tuberculose, no entanto, não lhe deu trégua e, aos 24 anos,
no dia 7 de fevereiro de 1901, faleceu Auta de Souza.
Página
azul
A Zulmira Rosa
No país de minh'alma há um rio sem mágoas,
Um rio cheio de ouro e de tanta harmonia,
Que se cuida escutar no marulhar das águas
Do sussurro de um beijo a doce melodia.
Este rio é o meu sonho, um sonho azul e puro,
Como um canto do Céu, como um braço do Mar;
Loura réstia de sol a rebrilhar no escuro,
Casta luz que cintila em torno de um altar.
De um altar que palpita e que sofre e que sonha,
Soletrando a cantar a linguagem do Amor...
Do altar do Coração, a paisagem risonha
Onde brotam sorrindo as ilusões em flor.
Vem beber, meu amor, neste rio que é fonte,
É fonte de esperanças e lago de quimera...
Vem morar n'um país que não tem horizonte,
Onde não chora o Inverno e só há Primavera.
Em 1910 saiu a segunda edição, em Paris, do "Horto";
em 1936, a terceira, no Rio de Janeiro, com prefácio de Alceu
de Amoroso Lima; a quarta publicada em 1964 pela Fundação
José Augusto de Natal. Em 2000, comemorando os cem anos do
"Horto", foi publicada a quinta edição.
"Sua poesia alcançou uma intensidade de sentimento cristão
que até hoje não envelheceu. E o esgotamento sucessivo de
duas edições do "Horto", único que a precariedade de sua saúde
e os curtos anos que viveu lhe permitiram deixar, bem mostra
que os seus versos despertaram ecos em muitos corações. Auta
de Sousa não pertence nem a uma escola nem a um momento literário.
Filiada, por natureza, à corrente das letras femininas em
nosso país, nela se destaca, no dizer de Jackson de Figueiredo
- "como a mais alta expressão do nosso misticismo, pelo menos,
no sentimento cristão, na poesia brasileira". Morreu, como
tantos dos nossos grandes poetas, aos vinte e poucos anos.
E o pensamento da morte domina toda a sua poesia, ao lado
do sentimento da infância." Lima, Alceu Amoroso, pref.
[1936]. In: Sousa, Auta de. Horto. 4.ed. p.9.
Eterna
dor
Alma de meu amor, lírio celeste,
Sonho feito de um beijo e de um carinho,
Criatura gentil, pomba de arminho,
Arrulhando nas folhas de um cipreste.
Ó minha mãe! Por que no mundo agreste,
Rola formosa, abandonaste o ninho?
Se as roseiras do Céu não têm espinhos,
Quero ir contigo, ó lírio meu celeste!
Ah! se soubesses como sofro, e tanto!
Leva-me à terra onde não corre o pranto,
Leva-me, santa, onde a ventura existe...
Aqui na vida - que tamanha mágoa! -
O próprio olhar de Deus encheu-se d'água...
Ó minha mãe, como este mundo é triste!
Fontes:
http://www.fundaj.gov.br/observanordeste/obte023.html
http://www.secrel.com.br/jpoesia/asouza.html
sonhado por Marcia, 01:06
Sonharam:
Domingo, Julho 11, 2004
Descrito por muitos como
o mais completo autor do século XX. Um dos mais importantes
marcos da história da literatura em Portugal e possuidor
de uma sensibilidade rara, ele deixou nos múltiplos vetores
da sua atividade intelectual as marcas inconfundíveis do
seu talento criador e da firme personalidade que o caracterizava.
Destacou-se como ficcionista, dramaturgo, poeta, crítico
e ensaísta, tendo sido professor do ensino secundário, e
um obstinado colecionador de arte popular, sobretudo sacra,
exprimindo-se também através das artes plásticas, do grafismo
e da literatura confessional. Deus e o Diabo traçaram-lhe
o percurso, mas foi a sua destreza intelectual que lhe concedeu
a imortalidade.
José Régio, pseudônimo
literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do
Conde a 17 de setembro de 1901. Coimbra ofereceu-lhe a aventura
intelectual, nos anos 20, e Portalegre, onde deu aulas no
Liceu Nacional entre 1929 e 1962, foi o seu refúgio produtivo,
a cidade da sua maturação, o seu «desterro» e o bálsamo da
sua tranquilidade. A sua obra explora quase obsessivamente
as contradições do ser humano, oscilando dramaticamente entre
"Deus e o Diabo". É fortemente marcada pelo tom psicologista
e, simultaneamente, por um misticismo inquieto que se revela
em motivos como o angelismo ou a redenção no sofrimento. A
sua poesia, de grande tensão lírica e dramática, apresenta-se
frequentemente como uma espécie de diálogo entre níveis diferentes
da consciência. A mesma intensidade psicológica, aliada a
um sentido de crítica social, tem lugar na ficção.
Narciso
Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!
Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!
Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:
Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
...Lá no fundo do poço em que me espelho!
[...] Um dos nossos gostos
comuns era [...] desenhar ou até "pintar". Tínhamos cada um
a sua caixa de tintas, com bisnagas. Frequentemente trabalhávamos
ao lado um do outro, ou estudávamos. Meu irmão nunca mais
deixou de pintar e desenhar [...] Eu desviei-me das artes
plásticas para a literatura, e fiquei um desenhista "de domingo"
que quase só desenha quando não pode escrever[.]
Seu livro de estréia, "Poemas
de Deus e do Diabo" (1925), apresentou quase todos
os temas que viria desenvolver nas obras posteriores: os conflitos
entre o humano e o divino, o espírito e a carne, o indivíduo
e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor
humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade
e do logro perante os outros e perante a si mesmo.
Em 1927, na companhia de João Gaspar Simões e Branquinho da
Fonseca, fundou a revista "Presença",
marco inicial da segunda fase do modernismo português. A revista,
um órgão de total liberdade de expressão do artista, não obedeceu
a qualquer orientação política, religiosa ou outra. Aberta
a todas as tendências literárias, contra a literatura livresca
e retórica, tornou-se um instrumento de livre-pensamento que
divulgou os valores do lº Modernismo, como Fernando Pessoa
e acolheu os melhores nomes do Neo-Realismo, levando a cabo
um trabalho pedagógico sobre a literatura em geral. A "Presença",
foi a primeira revista a atribuir ao cinema o estatuto de
arte, deu um exemplo raro de disciplina crítica, de cultura,
de lucidez e afrontamento político contra as ideologias totalitárias.
Régio não quis casar nem constituir família, tendo justificado
essa opção na resposta a um questionário que um dia lhe foi
enviado por Jorge de Sena:
"Penso que o matrimônio ainda
será o estado mais normal do homem (Digo estado normal e não
natural. Parece-me que, naturalmente, o homem é polígamo).
Ter filhos - também me parece o mais normal. Acho que vale
a pena tê-los, apesar das preocupações que daí possam advir.
Se eu resolvi muito novo não me casar (...), foi por me parecer
que me dedicaria por demais à mulher, aos filhos, à casa -
e isso prejudicaria a obra gigantesca que eu me propunha realizar
(A que distância fica a gente do que na adolescência sonha!)".
O Amor
e a Morte
Canção cruel!
Corpo de ânsia.
Eu sonhei que te prostrava,
E te enleava
Aos meus músculos!
Olhos de êxtase,
Eu sonhei que em vós bebia
Melancolia
De há séculos!
Boca sôfrega,
Rosa brava
Eu sonhei que te esfolhava
Pétala a pétala!
Seios rígidos,
Eu sonhei que vos mordia
Até que sentia
Vómitos!
Ventre de mármore,
Eu sonhei que te sugava,
E esgotava
Como a um cálice!
Pernas de estátua,
Eu sonhei que vos abria,
Na fantasia,
Como pórticos!
Pés de sílfide,
Eu sonhei que vos queimava
Na lava
Destas mãos ávidas!
Corpo de ânsia,
Flor de volúpia sem lei!
Não te apagues, sonho! mata-me
Como eu sonhei.
Entre suas publicações estão "Biografia", uma coletânea de
sonetos; "As Encruzilhadas de Deus", onde atingiu os momentos
mais altos da sua poesia, torrencial e reflexiva, lírica e
dramática ao mesmo tempo; "Jogo da Cabra-Cega", "Histórias
de Mulheres", "O
Príncipe com Orelhas de Burro", romance poético
e profundamente embrenhado na temática mais funda e obsessiva
do seu autor e a "A Velha Casa".
Igualmente importantes são as facetas do dramaturgo, dos mais
impressionantes da história do nosso teatro, desde "Jacob
e o Anjo", passando por "Benilde"
ou a "Virgem-Mãe"
e "El-Rei Sebastião";
ainda da sua obra poética temos "Fado",
"Mas Deus é grande"
e "A Chaga do lado".
No campo do ensaio e da crítica realizou estudos sobre Camões,
Camilo, Raul Brandão e Florbela Espanca, mas apenas o dedicado
a Antonio Boto foi editado separadamente.
Recebeu, em 1961, o Prêmio Diário de Notícias e, em 1963 o
Grande Prêmio da Novelística, atribuído pela Sociedade Portuguesa
de Escritores pela obra "Há
Mais Mundos". Postumamente, em 1970, o Prêmio Nacional
de Poesia, pelo conjunto da sua obra poética.
José
Régio dedicou os últimos tempos da sua vida a uma espécie
de balanço interior, extravasado nas páginas da "Confissão
dum Homem Religioso", livro que retrata a sua busca
espiritual mas que deixou incompleto, ao ser surpreendido
por problemas cardíacos em outubro de 1969, falecendo dois
meses depois. Vila do Conde e Portalegre, as duas cidades
onde Régio passou a sua vida, homenagearam o poeta, transformando
as suas residências em museu.
Na obra de José Régio temos presente uma diversidade de estruturas,
temas, alegorias, mitos, símbolos e motivos, com que o autor
procura exprimir não só o seu caso pessoal mas a condição
humana nas suas alturas e nos seus abismos, nas suas condições
labirínticas e nas aspirações de eternidade e absoluto, nas
suas impossibilidades e nos seus limites, nas suas esperanças
e nos seus desesperos, nas suas vulgaridades e nas suas sublimidades.
Admirado por uns, depreciado por outros, mas sempre lido e
estudado por muitos escritores e críticos, José Régio continua
a representar o paradigma do escritor atormentado com os seus
fantasmas e, acima de tudo, as mil e uma contradições do enigma
humano que se condensa na essência disso a que chamamos "poesia".
Testamento
do Poeta
Todo esse vosso esforço é vão, amigos:
Não sou dos que se aceita... a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos;
Não peço a vossa esmola de mendigos.
O mesmo vos direi, sonhos antigos
De amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
Que fostes o melhor dos meus pascigos!
E o mesmo digo a tudo e a todos, - hoje
Que tudo e todos vejo reduzidos,
E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge.
Para reaver, porém, todo o Universo,
E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!....
Basta-me o gesto de contar um verso.
Fontes:
http://www.terravista.pt/guincho/4599/regio/
http://www.instituto-camoes.pt/escritores/regio/biografia.htm
sonhado por Marcia, 22:26
Sonharam:
Sábado, Julho 03, 2004
Ela foi a maior poetisa da
língua portuguesa em seu tempo e a mais fiel representante
do Parnasianismo no Brasil, a única que conseguiu atingir
o respeito à forma e a impassibilidade exigidos pelo movimento:
a arte pela arte. Criadora de versos perfeitos, sua obra,
parnasiana no início, volta-se à poesia simbólica e mística
ao final da vida. Seus versos em nada ficou a dever à chamada
"trindade parnasiana", Olavo Bilac, Raimundo Correa e Alberto
de Oliveira, que foram seus admiradores e principais incentivadores.
Musa Impassível
I
Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.
Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.
Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;
Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.
Nascida
em 31 de agosto de 1871, Francisca
Júlia da Silva, desde criança já demonstrava sua
vocação literária. Sua estréia aconteceu no jornal "O
Estado de São Paulo", onde publicou seus primeiros
sonetos. A partir de então, começou a colaborar assiduamente
para o "Correio Paulistano"
e "Diário Popular". Colaborou
também para jornais do Rio de Janeiro e para as revistas "O
Álbum" e "A Semana".
Seu primeiro livro de poesias, "Mármores",
foi publicado em 1895. Prefaciado por João Ribeiro, o livro
foi um sucesso imediato. Todos os grandes poetas e críticos
da época reconheceram em Francisca Júlia uma extraordinária
poetisa. Olavo Bilac, numa crônica emocionada, destacou: "Em
Francisca Júlia surpreendeu-me o respeito da língua portuguesa,
não que ela transporte para a sua estrofe brasileira a dura
construção clássica: mas a língua doce de Camões, trabalhada
pela pena dessa meridional, que traz para a arte escrita todas
as suas delicadezas de mulher, toda a sua faceirice de moça,
nada perde da sua pureza fidalga de linhas. O português de
Francisca Júlia é o mesmo antigo português, remoçado por um
banho maravilhoso de novidade e frescura."
II
Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o impassível mora.
Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.
Transporta-me de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,
E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.
A estréia de Francisca Júlia na revista "A
Semana", uma das mais conceituadas na Capital Federal,
provocou grande alvoroço: os redatores não acreditavam que
uma mulher pudesse escrever versos tão perfeitos. Não foi
sem razão que João Ribeiro exclamou: "Isto
não é verso de mulher! Deve ser uma brincadeira do Raimundo
Correa!..."
Em 1899, juntamente com o irmão Júlio César, escreveu o "Livro
da Infância", obra didática logo adotada pelo Governo
de São Paulo em escolas do primeiro grau. Seu segundo e último
livro de poesias, "Esfinges",
porém, só apareceria em 1903, sendo igualmente apaudido pela
crítica. Nesse livro ela republicou grande parte dos sonetos
de "Mármores" e
incluiu outros inéditos, sonetos místicos que a aproximaram
do Simbolismo, estética que se afinava com suas inquietações
religiosas. Poetas famosos não deixaram de manifestar, em
crônicas emocionadas, vibrantes elogios à mais nova produção
literária de Francisca Júlia.
Francisca Júlia casou-se em 1909, com Filadelfo Edmundo Munster,
telegrafista da Estrada de Ferro Central do Brasil. Apesar
da grande diferença intelectual, Francisca Júlia amava com
devoção o seu esposo e viveram um casamento amoroso e feliz.
Decidiu deixar a poesia de lado e se dedicar exclusivamente
ao lar.
Alguns anos mais tarde, outra vez em colaboração com o irmão
Júlio César, produziu "Alma
Infantil", editado em 1912.
Em 1915 retornou às rodas literárias e começou a publicar
alguns sonetos na revista "A
Cigarra", de São Paulo. Nessa época, pensava em
escrever uma série de sonetos inspirados na moral de Pitágoras,
a cujo livro daria o nome de "Versos
Áureos". Apesar de ter escrito alguns sonetos,
não chegou a concretizar esse projeto.
Rústica
Da casinha, em que vive, o reboco alvacento
Reflete o ribeirão na água clara e sonora.
Este é o ninho feliz e obscuro em que ela mora;
Além, o seu quintal, este, o seu aposento.
Vem do campo, a correr; e úmida do relento,
Toda ela, fresca do ar, tanto aroma evapora
Que parece trazer consigo, lá de fora,
Na desordem da roupa e do cabelo, o vento...
E senta-se. Compõe as roupas. Olha em torno
Com seus olhos azuis onde a inocência bóia;
Nessa meia penumbra e nesse ambiente morno,
Pegando da costura à luz da clarabóia,
Põe na ponta do dedo em feitio de adorno,
O seu lindo dedal com pretensão de jóia.
Aos 46 anos, Francisca Júlia recebeu a maior homenagem que
lhe prestaram em vida, quando um grupo de admiradores organizou
uma sessão literária e ofereceu seu busto à Academia Brasileira
de Letras. Era a consagração da talentosa artífice de versos,
da "Musa Impassível",
como ficou conhecida.
Acometido de tuberculose, após demorado tratamento, Filadelfo
Munster faleceu em 31 de outubro de 1920. A perda do companheiro
tão querido foi arrasadora para a sensível poetisa e sua vida
não teve mais sentido. Desolada, Francisca Júlia retira-se
para seus aposentos jurando que "jamais
poria véu de viúva". Teria ingerido uma excessiva
dose de narcóticos. No dia seguinte, durante o velório de
seu esposo, ao abraçar o caixão, no auge do desespero e da
dor, a inconsolável poetisa veio a falecer. Era o dia 1 de
novembro de 1920. Seu corpo foi enterrado no Cemitério do
Araçá, em São Paulo.
Em 1961 foi publicada a antologia póstuma "Poesias".
A obra de Francisca Júlia é uma das mais significativas do
Parnasianismo brasileiro. A despeito da importância incontestável
de sua obra, Francisca Júlia não ocupou o lugar que lhe é
devido no cenário da poesia brasileira.
À Noite
Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra,
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um requiem doloroso.
No alto uma estrela triste as pálpebra descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...
Em noite assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor cheia de alma...
É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.
Fontes:
http://www.folhetim.com.br/index3.php
http://www.itaucultural.org.br/
sonhado por Marcia, 20:50
Sonharam:
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