Segunda-feira,
Agosto 30, 2004
Para encerrar o clima olímpico aqui no blog, vou falar
de um atleta que viu o sonho da conquista de uma medalha
de ouro se acabar pela atitude de um homem. Apesar da
situação inesperada, ele se levantou, seguiu em frente
e ao chegar foi ovacionado por todo o estádio. Ao falar
sobre o episódio não teve palavras de indignação, não
xingou, nem blasfemou...agradeceu a Deus por sua conquista
e ainda teve ânimo para comemorar fazendo "aviãozinho"
na corrida. E nós que estávamos revoltados diante do acontecimento,
aprendemos com ele uma verdadeira lição de humildade.

O protesto religioso feito na maratona ofuscou a boa organização
das Olimpíadas. Sem que ninguém percebesse, o invasor
saiu do meio da torcida, furou o bloqueio de segurança
e, com um cartaz e vestindo roupas tipicamente irlandesas,
empurrou e quase derrubou o atleta Vanderlei Cordeiro
de Lima. Com a ajuda do público e diante de um policiamento
ineficiente, Cordeiro conseguiu voltar para a pista e
agüentou firme até o fim dos 42,195 Km, conseguindo a
medalha de bronze, inédita para o país na prova e a única
do atletismo na Grécia.
A diferença para o segundo colocado, que era de cerca
de 45 segundos, caiu para aproximadamente 11, pouco depois.
Assim, com 2h de disputa, Vanderlei perdeu posições para
o italiano Baldini e para o norte-americano Keflezighi,
respectivamente.
Apesar do problema, Vanderlei comemorou muito o resultado.
Antes mesmo de cruzar a linha de chegada, ele abriu um
sorriso e abriu os braços. Aplaudido, ele mandou beijos
para a torcida.
O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) protestou na Federação
Internacional de Atletismo (Iaaf), tentando que o ouro
fosse dado também a Vanderlei. Mas o presidente do júri
de apelação Amadeo Francis manteve o resultado, justificando
que o regulamento da entidade não prevê alteração de resultado
de provas por este motivo. O COB promete recorrer ao Tas
(Tribunal Arbitral do Esporte).
Os dirigentes nacionais prometeram levar a decisão do
caso até a Corte Arbitral do Esporte, na Suíça. Sem poder
intervir no caso, o Comitê Olímpico Internacional (COI)
decidiu premiar Vanderlei com a medalha do Barão Pierre
de Coubertin, idealizador dos Jogos.
Bicampeão da maratona do Pan-Americano, de Winnipeg 1999
e Santo Domingo 2003, Vanderlei Cordeiro de Lima participou
das Olimpíadas pela terceira vez. Nos Jogos de Atlanta
1996, chegou em 41º e abandonou em Sydney 2000. O paranaense
ganhou também as Maratonas de Reims, 1994, de Tóquio,
em 1996, de São Paulo, em 2002, e de Hamburgo, em 2004.
Seu próximo sonho é vencer a São Silvestre, tradicional
prova de rua no fim de todos os anos na capital de São
Paulo.
-
Mas, se não vier, não tem problema. Já estou superfeliz
- disse Vanderlei Cordeiro de Lima
Fontes:
http://esportenaglobo.globo.com/
http://esporte.uol.com.br/olimpiadas/medalhistas/vanderlei.jht
Sonhado por Marcia, 01:45
Sonharam:
Quinta-feira, Agosto 26,
2004
Continuando em clima de Olimpíadas, trouxe para este espaço
mais um exemplo de garra e determinação. No momento em
que a nossa delegação olímpica conta com 122 atletas do
sexo feminino, vale lembrar que nem sempre foi assim,
considerando todo preconceito já sofrido por elas no mundo
esportivo. Dentro desse contexto vou falar de um mito
do esporte brasileiro, atualmente com 89 anos, cuja história
faz parte da difícil, porém persistente, trajetória feminina
nesse mundo. Corajosa, venceu preconceitos, superou barreiras
e provou que não existem limites quando se há disciplina,
dedicação e amor, no esporte e na vida.
Tudo começou com uma pneumonia dupla. Depois do susto,
os pais acharam que a natação faria bem à saúde da filha
de 10 anos. Na ausência de piscinas, a paulistana
Maria
Emma Hulda
Lenk Zigler deu suas primeiras braçadas
no então belo e limpo rio Tietê. Era o início de uma carreira
brilhante e vitoriosa da natação feminina do Brasil. Nascida
em 1915, aos 17 anos já era uma atleta de nível internacional.
Foi a pioneira da natação feminina do Brasil e depois,
a primeira mulher sul-americana a competir em uma Olimpíada.
Maria Lenk serviu de exemplo a todas as mulheres que pensaram,
ousaram e se destacaram no esporte e na vida, a partir
de então.

Nos jogos Olímpicos de 1932, em Los Angeles, a nadadora
representou o Brasil nas provas de 100 metros livre, 100
metros costa e 200 metros peito. Ela se tornou um marco
no esporte feminino no Brasil, abrindo as portas das Olimpíadas
para as mulheres sul-americanas, numa época em que o preconceito
ainda dominava o esporte. Como o Brasil não tinha dinheiro
para custear as despesas de seus atletas em Los Angeles,
o navio Itaquicê que os transportou aos Estados Unidos
levou 55 mil sacas de café. Os grãos, que seriam mesmo
queimados no país devido à queda do preço no mercado internacional,
foram vendidos na parada em cada porto para arrecadar
os dólares tão necessários para custear a estadia. Com
o dinheiro obtido dentro do navio, apenas 24 atletas puderam
desembarcar na costa leste norte-americana e se inscrever
nas Olimpíadas. Mesmo sem trazer medalhas ou bater recordes,
Maria Lenk estava feliz apenas por estar competindo entre
eles.
"
Competi com um uniforme emprestado, que tive de devolver
quando as provas acabaram".
Voltando a questão do preconceito, as meninas bem que
tentavam ingressar no mundo esportivo, iam aos clubes
e aprendiam a nadar. Mas quando começavam a competir os
pais não queriam, os namorados implicavam e os jornais
falavam que as mulheres que praticavam esportes não iam
ter filhos, ou que não seria uma prática muito religiosa.
Maria Lenk não dava ouvidos e seguia apenas o seu impulso
de querer fazer esporte, competir e ganhar.
"Na época em que fui a primeira mulher da América do
Sul a participar de uma Olimpíada, havia muito preconceito,
uma mentalidade de que o lugar da mulher é dentro de casa.
Houve muitas pessoas contrárias. Mas tive o meu pai, um
ginasta alemão, que me apoiou muito em vez de proibir."
Vestida de enormes maiôs, nadando em rios e praias, Maria
Lenk deu as primeiras braçadas em competições nacionais.
Os primeiros passos de emancipação feminina, como o direito
de voto e ingresso no mercado de trabalho, ainda eram
conquistas recentes. No esporte, as mulheres começavam
a se destacar. Depois dos Jogos Olímpicos de Los Angeles,
a Federação Paulista de Natação começou a organizar competições
para equipes femininas.
Em 1935, no sul americano de natação, na piscina do Guanabara,
no Rio de Janeiro, Maria Lenk venceu e bateu os recordes
sul americanos de 100 metros nado de costas e 200 metros
nado de peito.
Nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, outro fato marcante
em sua carreira foi a participação inovadora, sob o olhar
de Adolfo Hitler, que confiava nas vitórias de seus atletas
para mostrar ao mundo a superioridade da raça ariana.
Na ocasião, destacou-se como precursora do nado borboleta
entre as mulheres. Ela se utilizou da braçada desse estilo
nos 200 metros peito e, novamente, chegou às semifinais
da prova. Somente a partir de 1956, nos Jogos Olímpicos
de Melbourne, o estilo borboleta ganhou provas próprias,
com os nadadores utilizando o estilo inventado por Lenk.

A
foto mostra Maria Lenk treinando num tanque improvisado,
a bordo do cargueiro alemão que levou parte da delegação
brasileira aos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936.
Ela conta no seu livro "
Braçadas & Abraços": "
tudo
teria sido ótimo, não fosse o balanço do navio que, a
cada onda maior, esvaziava parcialmente a "piscina",
jogando os nadadores de encontro às paredes de tábuas."
Em 1938 bateu os recordes mundiais de 200 e 400 metros
do nado borboleta e ficou a um décimo nos 100 metros.
Durante dez anos, essas marcas foram melhoradas por uma
holandesa e, depois, uma húngara.
Sem técnico e seguindo seus próprios métodos de treinamento,
Maria Lenk bateu, em 1939, dois recordes mundiais, nos
200 e 400 metros peito. Em 1940, na Olimpíada de Helsinque,
a guerra reduziu o nado e todos os seus sonhos se foram,
provocando uma desilusão muito grande. Maria Lenk tinha
capacidade para brilhar muito e foi duro demais ver as
Olimpíadas não se realizarem.
Em 1942, Lenk parou de nadar competitivamente e foi lecionar
educação física, profissão que exerceu até a aposentadoria.
Ela retornou, gloriosamente, à raia das piscinas para
competir na categoria Master, em 2000. A competição foi
em Munique e ela ganhou sete medalhas de ouro, batendo
12 recordes mundiais
Maria Lenk teve fundamental importância no ensino e no
crescimento da Educação Física no Brasil. Formada pela
Escola de Educação Física de São Paulo, foi professora
do Instituto de Educação, no Rio de Janeiro, co-fundadora
da primeira escola civil de Educação Física da América
do Sul, dentro da Universidade do Brasil, depois Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Encerrou sua carreira no magistério
superior como Diretora e Professora Emérita.
No 2003 United States Masters Championship Long Course
disputado em New Jersey, Maria Lenk disputou 6 provas
com 2 medalhas de ouro (200 metros costas e 200 metros
peito) e 4 de prata (100, 200, 400 e 800 metros livre).
Aos 88 anos disputou na categoria 85 a 89 representando
a equipe do New Mexico Masters Swimming do Estado de New
Mexico.
Ano passado, aos 88 anos, Maria Lenk lançou seu quinto
livro "
Longevidade e Esporte", prefaciado por João
Havelange. Com a obra, ela mostra que envelhecimento e
saúde podem conviver muito bem.
"
Não se entreguem à preguiça nem fiquem na cadeira
de balanço, mas procurem fazer algum exercício, ainda
que moderado, com orientação médica, para prolongar a
sua independência e o seu bem-estar".
Fontes:
http://esporte.uol.com.br/olimpiadas/
http://www.museudosesportes.com.br/
http://www.gazetaesportiva.net/historia/seculo/natacao/nat_marialenk.htm
Sonhado por Marcia, 23:49
Sonharam:
Quarta-feira, Agosto 25,
2004
Não poderia esquecer de homenagear
uma pessoa muito especial. Ela muito contribuiu para
que este blog voltasse a funcionar corretamente. Prestativa,
alegre, comunicativa... como se diz hoje em dia... "ela
é tudo de bom!"
Então vamos comemorar, pois...
E para quem quiser conhecer o blog da Shê, clique
aqui.
Sonhado por Marcia, 22:38
Sonharam:
Terça-feira, Agosto 24,
2004
"O excesso de vontade e nervosismo às vezes atrapalha
bastante. Dei três passos e ultrapassei a linha. Só ali
devo ter perdido 0,3 pontos. Não digo que estou frustrada,
mas um pouco triste. Não pela medalha, mas porque eu poderia
ter feito melhor hoje."
Foi-se o sonho de ganhar um ouro na ginástica em Olimpíadas
e de ganhar o primeiro pódio olímpico na modalidade para
o Brasil. Daiane dos Santos decidiu realizar uma versão
ousada da série "Brasileirinho", numa apresentação mais
difícil, com a execução do duplo twist esticado e carpado.
Como ela mesma disse:
"Eu poderia ter vencido se tivesse optado por uma mais
conservadora. Mas não me arrependo de nada. Tive uma cobrança
pessoal, podia muito bem ter feito a outra série. Sabia
do risco e resolvi assumir."
VALEU DAIANE DOS SANTOS! Infelizmente a medalha
não veio mas estamos entre as melhores do mundo. O brilho
do ouro está no talento de suas acrobacias, na sua garra
e determinação. Você merece toda a nossa admiração.
E para terminar, confiram
aqui,
uma homenagem que achei genial, feita para a nossa Brasileirinha.
Sonhado por Marcia, 00:58
Sonharam:
Domingo, Agosto 15, 2004
"A autêntica riqueza da experiência humana perderia
parte de sua alegria se não existissem limitações a superar.
O cume da colina não teria nem metade de sua maravilha
se não houvesse vales obscuros para atravessar." Halina
Boulez
Em clima de olimpíadas, resolvi trazer para este espaço,
aquela que é o maior nome da história da ginástica artística
brasileira e que poderá trazer a primeira medalha olímpica
na modalidade para o Brasil. De origem pobre e desacreditada
em seu início no esporte, ela deu uma verdadeira lição
de superação. Apesar de ter começado tarde, com garra
e determinação, não desanimou diante das dificuldades,
enfrentadas muitas vezes até chegar ao topo desse esporte.
Dona de uma força nas pernas incomum, essa gauchinha de
1,44m e 41kg, faz acrobacias que nenhuma outra no mundo
consegue. Vamos então falar de Daiane dos Santos ou simplesmente
"
Dai" para os mais íntimos.
"
Tudo é possível até que se prove impossível. E ainda
assim o impossível pode sê-lo apenas por um momento."
Pearl S. Buck
Daiane Garcia
dos Santos nasceu em 10 de
fevereiro de 1983, em Porto Alegre. Sua especialidade
é o solo e faz exercícios que nunca foram feitos antes,
por ninguém.
Daiane jamais poderia imaginar que suas brincadeiras na
pracinha, no bairro Menino Deus, chamariam atenção e traçariam
seu futuro. Assim que a técnica Cleusa de Paula a viu,
ficou impressionada pela força muscular da menina e, mais
ainda, com sua ginga. Daiane então foi convidada a fazer
um teste no Centro Estadual de Treinamento Esportivo e
aos 11 anos começava a treinar no Grêmio Náutico União.
"As condições para a conquista são sempre simples.
Só devemos trabalhar um tempo, crer sempre e retroceder,
jamais." Sêneca
Daiane dos Santos foi responsável por momentos históricos
para o esporte brasileiro. No Mundial de Anaheim (EUA)
ela conquistou a inédita medalha de ouro, após apresentar
um "
duplo twist carpado". Esse movimento foi inventado
especialmente para ela, pelo seu técnico, o ucraniano
Oleg Ostapenko - um salto mortal com meia volta e dois
giros no ar. O "
duplo twist carpado" mereceu a
classificação Super-E, que define os movimentos com grau
máximo de dificuldade. Além disso, a acrobacia foi registrada
pela Federação Internacional de Ginástica com o nome de
"
Dos Santos".
"
São muitos os que se obstinam em seguir pelo caminho
escolhido: poucos os que perseguem um objetivo." Friedrich
Nietzsche
Na final da Copa do Mundo, em Stuttgart, na Alemanha,
Daiane voltou a conquistar o ouro, onde superou a estrela
da ginástica russa, Svetlana Khorkina. Em 2004 foi medalha
de ouro no solo nas etapas de Lyon (FRA) - onde apresentou
pela primeira vez o "
duplo twist esticado"-, de
Cottbus (ALE) e do Rio de Janeiro.
"
Deve-se tentar atingir o impossível. O fácil aí está,
já o sei fazer, tenho-o incorporado a meu corpo." Julio
Bocca
Hoje, ao som de "
Brasileirinho", Daiane executou
os seus dois principais saltos, o "
duplo twist carpado"
e o "
duplo twist esticado". Antes da apresentação,
a preocupação era em relação aos "
joelhinhos de cristal",
alcunha dada à atleta por Vicélia Florenzano, da CBG (Confederação
Brasileira de Ginástica), em referência às três cirurgias
sofridas por Daiane - a última delas em junho. Entretanto,
em nenhum momento a atleta pareceu sentir a contusão.
Mesmo não tendo sido uma grande apresentação, Daiane foi
bastante aplaudida pelo público e com a nota de 9.637,
terceira maior nota na fase eliminatória, está na final
dos exercícios de solo nos Jogos Olímpicos de Atenas.
Que venha o ouro olímpico!
Conquistas:
2004
1º Lugar individual no solo na etapa de Cottbus, na Alemanha,
Copa do Mundo de Ginástica (março)
1º Lugar individual no solo na etapa de Lyon, na França,
Copa do Mundo de Ginástica (março)
2º Lugar individual no salto na etapa de Lyon, na França,
Copa do Mundo de Ginástica (março).
2003
1º Lugar individual no solo na etapa de Stuttgart, na
Alemanha, da Copa do Mundo de Ginástica
1º Lugar individual no solo no Mundial de Anaheim, Califórnia
8º Lugar por equipes no Mundial de Anaheim, Califórnia
3º Lugar por equipes no Pan Americano de Santo Domingo
3º Lugar Solo na 4ª Etapa da Copa do Mundo na Alemanha
5º Lugar Paralelas assimétricas na 4ª Etapa da Copa do
Mundo na Alemanha
3º Lugar na Classificação Geral individual do Campeonato
Brasileiro
1º Lugar individual no Salto sobre o cavalo no Campeonato
Brasileiro
2º Lugar individual no solo no Campeonato Brasileiro
2002
4º Lugar Solo na 3ª etapa da Copa do Mundo de Berci, na
França
2001
1º Lugar Solo no Pan- Americano em Cancun
5º Lugar Solo no Mundial da Bélgica
1999
2º Lugar salto sobre o cavalo nos Jogos Pan-Americanos
de Winnipeg
3º Lugar solo nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg
Fontes:
http://atenas.brtdata.com.br/atletas/daiane.php
http://esporte.uol.com.br/
Sonhado por Marcia, 21:40
Sonharam:
Quarta-feira, Agosto 11,
2004
Ousada e com estilo fortemente sensual, ela cultivou o
verso livre, lançando a semente renovadora em nossa poesia.
Sua poética era marcadamente erótica e causava uma reação
negativa na sociedade da época, que a chamava de "
matrona
imoral". Mesmo assim, os jovens poetas viam em sua
obra, a novidade de elaborar, de um modo audacioso e metafórico,
o universo da mulher. Apesar de pertencer ao Simbolismo,
movimento que usava e abusava das alegorias para expressar
sentimentos, sua poesia é muito importante por revelar
a voz feminina em um momento super-repressivo.
Reminiscência
Na noite fria
Tua voz quente
expunha anseios tais,
tinha um tal despudor,
vinha tão nua,
que minha boca sentiu desejos
de vesti-la de beijos...
Na noite fria
tua voz quente
errava, louca de destemor,
pelos gelados e ermos espaços...
E tive pena de tua fala...
E abri minha alma para abrigá-la
Na noite fria
tua voz quente
pediu tanto,
chorava tanto...
Que minha vida te dei,
com a mágoa
com que se lança
velho tesouro às mãos travessas
de uma criança
Gilka da Costa de Melo
Machado nasceu no
Rio de Janeiro, no dia 12 de março de 1893. Educada entre
artistas, começou a fazer versos na infância, influenciada
pelo poeta Hermes Fontes. Estreou na literatura vencendo,
aos 13 anos, um concurso de poesia organizado pelo jornal
"
A Imprensa".
Ser Mulher...
Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...
Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...
Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
Volúpia do Vento
Na plena solidão de um amplo descampado,
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda a feição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho
O Vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora lagoroso, ora forte, medonho!
E tanto penso em ti, ó meu ausente amado!
que te sinto no Vento e a ele, feliz me exponho
Com carícias brutais e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me toda tua...
-Sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças...
E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico, assim, neste ermo, toda nua,
completamente exposta à Volúpia do Vento!
Em 1915, publicou no "
Jornal da Manhã" um livreto
chamado "
Cascos e Carícias", onde descreveu a vida
dos jornalistas mais "
emancipados", escandalizando
os moralistas do seu tempo com crônicas da sociedade cultural
carioca. Nesse mesmo ano, já casada com o poeta Rodolfo
de Melo Machado, foi publicado "
Cristais Partidos",
seu primeiro livro, caracterizado por uma preocupação
em ver o lado espiritual da vida. No ano seguinte foi
publicada a sua conferência "
A Revelação dos Perfumes".
Seguiram-se "
Estados de Alma", "Poesias, 1915/1917",
"Mulher Nua", "Meu Grande Amor", "Meu Glorioso Pecado",
"Carne e Alma", mais liberários, manifestando seu
desejo de "
viver somente sujeito às leis da natureza
e aos caprichos do amor".
Esboço
Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforescentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...
Em 1932 foi publicada em Cochabamba, na Bolívia, a antologia
"
Sonetos Y Poemas de Gilka Machado", prefaciada
por Antonio Capdeville. No ano seguinte ela foi eleita
"
a maior poetisa do Brasil", por concurso da revista
"O Malho", do Rio de Janeiro. Foram lançadas nas
décadas seguintes, suas obras poéticas "
Sublimação",
"Meu Rosto" e "
Velha Poesia". Em 1979, foi
agraciada com o prêmio Machado de Assis, pela Academia
Brasileira de Letras. Nesse mesmo ano a Assembléia Legislativa
do Estado do Rio de Janeiro prestou homenagem à mulher
brasileira na pessoa da poeta.
Bailado das Ondas
Vede-as, ei-las que vêm- eternas bailarinas
para a festa noturna e fádica do luar,
segue-as o coro alegre e álacre das ondinas:
vede-as, ei-las que vêm, todas juntas, bailar.
Seios nus, braços nus que flavas serpentinas
cingem, abstratas mãos de brancura polar,
surgem, despetalando orquídeas argentinas
sobre a pelúcia azul do tapete do mar.
De quando em vez, na praia, uma a sorrir se apruma
desliza, rodopia e alva como de espuma
desnastra, erguendo o corpo em bamboleios no ar.
E a lua, entre coxins, muito pálida e loura,
em serena mudez de nobre espectadora,
pelas ondas alonga o indiferente olhar

Frustração
Amei o Amor, ansiei o Amor, sonhei-o
uma vez, outra vez (sonhos insanos!)...
e desespero haja maior não creio
que o da esperança dos primeiros anos.
Guardo nas mãos, nos lábios, guardo em meio
do meu silêncio, aquém de olhos profanos,
carícias virgens para quem não veio
e não virá saber dos meus arcanos.
Desilusão tristíssima de cada
momento, infausta e imerecida sorte,
de ansiar o amor e nunca ser amada!
Meu beijo intenso e meu abraço forte,
com que pesar penetrareis o Nada,
levando tanta vida para a morte!...
Gilka Machado faleceu aos 87 anos, no Rio de Janeiro.
"
Se é intensiva a experiência de Gilka Machado, como
poetisa e mulher reivindicadora, há outras barreiras a
vencer entre a militância poética e a militância doméstica.
Havia uma distância, na sua época, entre o campo da sacralidade
da arte e certos aspectos da vida rotineira, que o simbolismo
intensifica, o modernismo desenvolve e autoras mais contemporâneas,
como Adélia Prado, consumam. Gilka Machado, a viúva do
poeta Rodolfo Machado, a mulher dona de pensão que cozinhava
para tantos poetas de sua época, como Tasso da Silveira
e Andrade Muricy, por exemplo, enquanto fazia poesia,
esta ainda habita os porões do cenário poético. Já fizera
emergir dos porões, no entanto, um dos "monstros"
proibidos: o modo de representação da ansiedade erótica
que delineia um projeto novo ou um novo jeito de querer
ser mais mulher; e que justifica, penso eu, o considerar
a poesia de Gilka Machado como precursora na luta pelos
direitos de acesso à representação do prazer erótico na
poesia feminina brasileira."
Gotlib, Nádia Battella [1982]. Com dona Gilka Machado,
Eros pede a palavra: poesia erótica feminina brasileira
nos inícios do século XX. Polímica: Revista de Crítica
e Criação. p.46-47.
Meu Glorioso Pecado II
Quantas horas felizes, quantos dias
nos contemplamos sem jamais trocar
uma frase! - Eu temia... Tu temias...
Mas como era expressivo nosso olhar!...
Nem uma frase! E tantas melodias
no meu, no teu silêncio, no do mar,
no do céu, no das árvores sombrias,
como tudo se amava sem falar!
Trocamos o vocábulo e (oh! tristeza!)
Quantas injúrias, que contradição
nessas palestras de alma
em ciúme acesa!
Ah! se mudos ficáramos então,
não profanara o orgulho
e a singeleza
das palavras sem voz
do coração!
"
A forma ousada dos seus versos, de um ritmo livre
e bastante pessoal, harmoniza-se com a liberdade de inspiração,
onde predomina um forte sensualismo, tão forte que Humberto
de Campos notava-lhe nos poemas verdadeiras 'tempestades
de carne'... Seus livros provocavam, simultaneamente,
admiração e escândalo, já que a poetisa confessava sentir
pêlos no vento', desejava penetrar o amado 'pelo olfato,
assim como as espiras/invisíveis do aroma...' e declarava,
sem rebuços: 'Eu sinto que nasci para o pecado'."
Góes, Fernando [1960]. Gilka da Costa Melo Machado. In:
___. Panorama da poesia brasileira: o pré-modernismo.
v.5, p.165.
Poema de Amor
Ser a atmosfera
que respiras,
conter-te em mim
como numa redoma,
entrar-te pelo olfato,
assim como as aspiras
invisíveis, do aroma...
Ser teu ambiente,
ser teu espaço circundante,
sentindo em mim roçar,
constantemente,
teu gesto palpitante...
Ser o silêncio
em que te enfurnas,
guardar teus
lentos pensamentos,
pelas horas noturnas...
Ser o teu sono,
sentir-te assim
como ninguém te sente
- abandonado
completamente
completamente esquecido
em mim...
Oh! meu prazer!
- sentir-te
e penetrar-te;
- em toda hora,
em toda parte,
gozar teu ser!
Sem que
o pudesses perceber;
- ser por ti absorvida;
- encher com minha vida
a tua vida
Fontes:
http://www.secrel.com.br/jpoesia/poesia.html
http://geocities.yahoo.com.br/edterranova/gilka.htm
Sonhado por Marcia, 14:54
Sonharam:
Domingo, Agosto 08, 2004
Um Feliz Dia dos Pais para todos os amigos que por
aqui passam. Beijo grande para o meu pai que amo de paixão
e um carinho especial para essas pessoinhas queridas que
também são pais...Leo e o Gegê, futuro vovô do Pedrinho...será
que já nasceu?
Para os amigos cujos pais já partiram para outro plano,
que a data traga boas lembranças de um tempo que jamais
será esquecido.
Sonhado por Marcia, 09:01
Sonharam:
Sexta-feira, Agosto 06,
2004
"Eu tenho em mim o inferno e
o paraíso:
um é o teu tédio, o outro o teu sorriso."
Sua poesia vai do romantismo ao parnasianismo, passando
pelo simbolismo. A perfeição na rima em métrica dá cadência
e musicalidade à sua obra. O amor e a mulher eram seus
temas preferidos. Com verdadeira obsessão pelo mito da
beleza, da sensualidade, da idealizada companhia feminina,
cantou o amor com toda a sua força e com todas as suas
formas de atração, menos a da direita e explícita carnalidade
física.
Luís
Delfino dos Santos, o primeiro autor catarinense a
se tornar um nome nacional, nasceu na antiga Desterro
(hoje, Florianópolis) a 25 de agosto de 1834. Aos 16 anos
mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em Medicina,
sendo um dos mais importantes médicos da época. Casou-se
com Maria Carolina Puga Garcia, com quem viveu até sua
morte.
O AMOR
O amor!... Um sonho, um nome, uma quimera,
Uma sombra, um perfume, uma cintila,
Que pendura universos na pupila,
E eterniza numa alma a primavera;
Que faz o ninho e dá meiguice à fera,
E humaniza o rochedo, e o bronze, e a argila,
Sem o afago do qual Deus se aniquila
Dentro da própria luminosa esfera.
A música dos sóis, o ardor do verme,
O beijo louco da semente inerme,
Vulcão, que o vento arrasta em tênue pós:
Curvas suaves, deslumbrantes seios
De vida e formas variegadas cheios.
É o amor em nós, e o amor fora de nós.
Avesso aos círculos literários de sua época, raramente
era visto em companhia de outros escritores, um distanciamento
que lhe rendeu o estigma de poeta instintivo, mais inspirado
do que disciplinado, pouco afeito a lapidar seus versos
e, por isso, refratário a discussões formais, embora fosse
presença certa em festas onde pudesse declamar seus sonetos.
Não publicou nenhum livro em vida, o que fez com que sua
obra quase se perdesse no tempo. Sua poesia era publicada
freqüentemente na maioria dos jornais e revistas da sua
época, o que o fez conhecido e amado como poeta. Chegou
a ser eleito, pelos próprios colegas escritores, em 1898,
o "
Príncipe dos Poetas Brasileiros". Foi chamado,
também, de "
Victor Hugo brasileiro".
Seus primeiros poemas, na adolescência, foram influenciados
pelo francês Lamartine, embora sua estréia na imprensa
com o conto "
O Órfão do Templo" tenha tido como
acessório a influência pesarosa e melancólica do ultra-romantismo,
experiência equivocada que o afastou definitivamente da
ficção. À sugestão lamartineana dos versos da mocidade
somou-se a influência de Victor Hugo que o acompanharia
por toda a vida. A partir de 1864, afastou-se das páginas
veiculadas pela imprensa, buscando o reconhecimento como
médico. 15 anos depois ele retornou à poesia, ligando-se
às novas tendências estilísticas européias, ainda que
se mantivesse alheio à opinião pública.
Em meados dos anos 80, nem a presença do romantismo a
macular o rigor do verso perfeito impediu que Delfino
fosse considerado, segundo Clóvis Beviláqua, o "
chefe
unânime do parnasianismo brasileiro". Em 1855, o concurso
público da revista "
A Semana" para eleger o maior
poeta brasileiro de todos os tempos apontou Luís Delfino
como o terceiro nome mais votado, superado na contagem
apenas por Castro Alves e Gonçalves Dias, então falecidos.
Colaborou para esta consagração a publicação, em 1883
por "
A Estação", o poema "
Jesus ao Colo de Madalena",
trabalho transcrito em jornais de todo o Brasil, uma das
obras maiores do poeta catarinense.
A Deusa
O seu pescoço esplêndido e robusto
Implantado às espáduas fortemente,
Presta-lhe um ar olímpico e imponente;
De Vênus dá-lhe gesto altivo e augusto;
E sustém-lhe a cabeça bela: é justo,
Porque dos deuses vem; e se presente
No andar, na voz, no riso negligente:
Mete em tudo, que a cerca, estranho susto:
Tão grande e superior ela parece,
Que não é muito a admiração e o espanto:
Segue-se ao espanto o amor, ao amor a prece.
És tu, Helena, a deusa, o enleio, o encanto:
É de ti, que em mim só, todo um céu desce:
A ti meus olhos, como a um céu, levanto...
Em 1888 um novo período de afastamento, publicando apenas
um poema por ano em virtude de sua atividade política
como senador à Constituinte por Santa Catarina. O retorno
de seus poemas à vitrine pública, em 1896, foi marcado
pela presença de dois novos elementos estilísticos: a
inquietação metafísica e o amor, resultado de um romance
conturbado com sua afilhada adolescente, Eugênia Caldeira
- a Helena dos poemas -, quarenta anos mais moça. A paixão
rendeu a sua poética uma multiplicidade de direcionamentos,
às vezes reverenciando o hedonismo carnal, em outras tomando
uma postura fetichista e exaltadora em contraste com freqüentes
tons paternais e até místicos, registrados no representativo
poema "A Primeira Lágrima".
A Primeira Lágrima
Quando a primeira lágrima caindo,
Pisou a face da mulher primeira,
O rosto dela assim ficou tão lindo
E Adão beijou-a de uma tal maneira,
Que anjos e Tronos pelo espaço infindo
Qual rompe a catadupa prisioneira,
As seis asas de azul e d'ouro abrindo,
Fugiram numa esplêndida carreira.
Alguns, pousando à próxima montanha,
Queriam ver de perto os condenados
Da dor fazendo uma alegria estranha.
E ante o rumor dos ósculos dobrados,
Todos queriam punição tamanha,
Ansiosos, mudos, trêmulos, pasmados..
A febre simbolista que, no final do século 19, não atingiu
Delfino: por não ter livro publicado e manter-se afastado
dos círculos literários, encarnava uma postura alternativa
que fugia à imagem dos contemporâneos e agradava aos novos
nomes que surgiam na poesia nacional, facilitando o desenvolvimento
de uma cena simbolista. Passou, então, a colaborar com
revistas como "
Vera-Cruz" e "
A Meridional",
onde publicou seu poema mais famoso, "
As Três Irmãs",
alegoria para seu amor de pai, de marido e de amante prestes
a ser abandonado.
Luís Delfino morreu, em decorrência de arteriosclerose
generalizada, em 31 de janeiro de 1910, no Rio de Janeiro,
sem publicar um único livro. Sua obra é imensa - escreveu
mais de cinco mil poemas - mas, somente uma pequena parte
dessa obra foi publicada em 14 livros, por seu filho,
Tomás Delfino, entre 1926 e 1943. Entre suas melhores
composições citam-se "
Poesias líricas", "
A angústia
do infinito", "
Rosas negras", "
Esboço da
epopéia americana" e "
Posse absoluta".
Cio
Inspirar-me em corpos nus
sedutores...
Que contenham performance de amor,
eloqüente
Que traduzam sentimentos
não bizarros
E que surgem de almas simples mas,
ardentes
Uma musa,
deitada na areia....
olhos claros e cabelos d'oiro
É uma imagem sublime,
feminina
Que vale muito mais que
grilharias
Semi-nua com teus seios pardos
Olhar de mulher,
de desejos mil.....
Lábios suaves, vives fantasias...
Mas é nas tuas coxas
que sinto o cheiro do teu cio.
Fontes:
http://www.secrel.com.br/jpoesia/ld.html
http://an.uol.com.br/2000/jan/31/0ane.htm
http://geocities.yahoo.com.br/prosapoesiaecia/luisdelfinoautores.htm
Sonhado por Marcia, 17:00
Sonharam:
Quarta-feira, Agosto 04,
2004
Desde cedo, ela fugiu às normalizações e às convenções
estabelecidas socialmente. Sua paixão foi o estopim de
um movimento político que marcou época no Brasil. Com
o seu vanguardismo escandalizou a sociedade: usava pintura,
cabelos curtos, saía às ruas sozinha, fumava, não queria
casar nem ter filhos, fazia poemas e condenava, em textos
publicados em algumas revistas, o isolamento e a humilhação
a que eram submetidas as mulheres, "vivendo sob leis
francamente patriarcais".
Nasci
Nasceu
Cresceu
Namorou
Noivou
Casou
Noite nupcial
As telhas viram tudo
Se as moças fossem telhas não se casariam
Anayde Beiriz nasceu em 18 de fevereiro de1905,
em João Pessoa. Diplomou-se pela Escola Normal Oficial
do Estado com apenas 17 anos e passou a lecionar em uma
colônia de pescadores, perto de sua cidade natal. Aos
20 anos, ganhou um concurso de beleza, promovido pelo
Correio da Manhã, como a mais bela paraibana. Poeta e
amante das artes, circulava nos meios intelectuais, onde
se declarava publicamente a favor da liberdade e da autonomia
feminina.
"Muitas atitudes minhas, incompreensíveis aos olhos
desses fariseus por aí, vinham do angustioso recalque
dos ímpetos de minha alma e da obrigação em que estava,
de dizer pela metade, aquilo que eu poderia dizer totalmente."
(Lima Barreto, conforme citação de Anayde Beiriz)
Sendo uma mulher emancipada para os costumes do seu tempo,
Anayde perturbou a sociedade da Paraíba, nos anos 30.
Ousou exprimir uma sensibilidade que chocou o modelo de
moralidade que prevalecia na época: sua maneira de vestir
(usou decotes), o corte de cabelos "à la garçonne",
as suas idéias políticas (quando as mulheres não tinham
sequer o direito ao voto), o gosto de frequentar as rodas
literárias, onde sempre era a única mulher e a maneira
de vivenciar o amor livre causaram escândalo.
"Elevemos a mulher ao eleitorado; é mais discreta que
o homem, mais zelosa, mais desinteressada. Em vez de a
conservarmos nesta injusta minoridade, convidemo-la a
colaborar com o homem na oficina da política. Que perigo
pode vir daí?" (Anayde, apud Joffily, 1980:43)
Em 1928, Anayde iniciou seu romance com o deputado João
Dantas, que era adversário de João Pessoa, candidato à
presidência (equivalente a governador na época atual)
da Paraíba. Em 1930, o Brasil sofreu reviravoltas importantes:
historicamente, a chamada política do "café com leite"
dividia o poder entre os Estados de São Paulo e Minas
Gerais, causando o mal-estar dos outros Estados. O bloco
político, do qual a Paraíba fazia parte, interveio nas
disputas políticas, que se tornaram violentas e as questões
pessoais se misturaram às questões da vida pública.
A ligação amorosa entre João Dantas e Anayde Beiriz não
era bem vista pela sociedade da época, uma vez que não
eram casados. Apaixonados, trocavam cartas e poemas, guardados
num cofre no escritório de Dantas. Essa correspondência
caiu nas mãos da polícia, após uma invasão ao escritório
de Dantas, sem que se saiba se o ocorrido foi com ou sem
o conhecimento prévio de João Pessoa. As cartas foram
publicadas no Diário Oficial do Estado da Paraíba, de
nome "A União". Sensual e libertária, Anayde foi
duramente exposta à sociedade paraibana. Exposto também
à humilhação pública, Dantas responsabilizou João Pessoa
pelo escândalo. O que era uma invasão de cunho político,
mobilizou todo o Brasil ao ganhar o contorno de uma grande
paixão, vivida às escondidas.
Acróstico feito por Dantas e Anayde:
MEU SANGUE
E m minhas veias circula
U m sangue de carniceiro...
G olfante, rubro, pullula
N a artéria prisioneiro, -
A rtéria que te estrangula,
S angue mau, de cangaceiro...
TEU SANGUE
S angue... sangue venenoso,
A rroio quente, opalino,
N o teu systema venoso...
G olfeja! Dá-me, assassino,
U m banho infernal de gozo
E m teu visco viperino!...
No dia 26 de julho, João Dantas, furioso com a publicação
de suas cartas de amor, matou com três tiros João Pessoa,
sendo preso logo em seguida. O crime aconteceu na Confeitaria
Glória, no Recife. Este ocorrido, entre outros fatos,
serviu de pivô para uma convulsão nacional que culminou
na Revolução de 30. Isto é, as cenas da vida privada,
provocaram uma revirada na ordem das forças políticas
nacionais, as quais eram representadas, de um lado, pelos
correligionários políticos de João Pessoa, e do outro
lado, pelas facções que tinham o apoio de João Dantas.
A morte de João Pessoa comoveu todo o Brasil, pois ele
nessa época já era muito famoso, ao ter concorrido à presidência
como vice de Getúlio Vargas. Em outubro daquele ano o
movimento revolucionário foi deflagrado e Anayde passou
a ser perseguida e apontada na rua como "a prostituta
do bandido que matou o presidente."
João Dantas morreu na prisão, no dia 3 de outubro, oficialmente
um caso de suicídio, versão até hoje contestada por historiadores.
Obrigada a sair da capital paraibana, Anayde abrigou-se
no Asilo Bom Pastor, em Recife, onde acabou se matando
em 22 de outubro de 1930. Foi enterrada no cemitério de
Santo Amaro como indigente e sua memória foi renegada
durante anos pelos paraibanos.
Grande parte de sua produção literária foi queimada depois
que ela e João Dantas, morreram. O resgate de sua história
se deu 50 anos depois pelas mãos do escritor e pesquisador
José Joffily, através do livro "Anayde - Paixão e Morte
na Revolução de 30" (Editora Record). Posteriormente
foi tema do filme "Parahyba Mulher Macho", dirigido
por Tizuka Yamazaki, ficando a interpretação da personagem
a cargo da atriz Tânia Alves.
Fontes:
http://www.bocc.ubi.pt/pag/paiva-claudio-Mitologias-Feminino.html
http://www.terra.com.br/istoegente/100mulheres/comportamento/anayde.htm
http://www.seol.com.br/mneme/
Sonhado por Marcia, 00:09
Sonharam: