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Segunda-feira, Agosto 30, 2004

Para encerrar o clima olímpico aqui no blog, vou falar de um atleta que viu o sonho da conquista de uma medalha de ouro se acabar pela atitude de um homem. Apesar da situação inesperada, ele se levantou, seguiu em frente e ao chegar foi ovacionado por todo o estádio. Ao falar sobre o episódio não teve palavras de indignação, não xingou, nem blasfemou...agradeceu a Deus por sua conquista e ainda teve ânimo para comemorar fazendo "aviãozinho" na corrida. E nós que estávamos revoltados diante do acontecimento, aprendemos com ele uma verdadeira lição de humildade.


O protesto religioso feito na maratona ofuscou a boa organização das Olimpíadas. Sem que ninguém percebesse, o invasor saiu do meio da torcida, furou o bloqueio de segurança e, com um cartaz e vestindo roupas tipicamente irlandesas, empurrou e quase derrubou o atleta Vanderlei Cordeiro de Lima. Com a ajuda do público e diante de um policiamento ineficiente, Cordeiro conseguiu voltar para a pista e agüentou firme até o fim dos 42,195 Km, conseguindo a medalha de bronze, inédita para o país na prova e a única do atletismo na Grécia.

A diferença para o segundo colocado, que era de cerca de 45 segundos, caiu para aproximadamente 11, pouco depois. Assim, com 2h de disputa, Vanderlei perdeu posições para o italiano Baldini e para o norte-americano Keflezighi, respectivamente.

Apesar do problema, Vanderlei comemorou muito o resultado. Antes mesmo de cruzar a linha de chegada, ele abriu um sorriso e abriu os braços. Aplaudido, ele mandou beijos para a torcida.

O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) protestou na Federação Internacional de Atletismo (Iaaf), tentando que o ouro fosse dado também a Vanderlei. Mas o presidente do júri de apelação Amadeo Francis manteve o resultado, justificando que o regulamento da entidade não prevê alteração de resultado de provas por este motivo. O COB promete recorrer ao Tas (Tribunal Arbitral do Esporte).

Os dirigentes nacionais prometeram levar a decisão do caso até a Corte Arbitral do Esporte, na Suíça. Sem poder intervir no caso, o Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu premiar Vanderlei com a medalha do Barão Pierre de Coubertin, idealizador dos Jogos.

Bicampeão da maratona do Pan-Americano, de Winnipeg 1999 e Santo Domingo 2003, Vanderlei Cordeiro de Lima participou das Olimpíadas pela terceira vez. Nos Jogos de Atlanta 1996, chegou em 41º e abandonou em Sydney 2000. O paranaense ganhou também as Maratonas de Reims, 1994, de Tóquio, em 1996, de São Paulo, em 2002, e de Hamburgo, em 2004. Seu próximo sonho é vencer a São Silvestre, tradicional prova de rua no fim de todos os anos na capital de São Paulo.

- Mas, se não vier, não tem problema. Já estou superfeliz - disse Vanderlei Cordeiro de Lima

Fontes:
http://esportenaglobo.globo.com/
http://esporte.uol.com.br/olimpiadas/medalhistas/vanderlei.jht

Sonhado por Marcia, 01:45
Sonharam:




Quinta-feira, Agosto 26, 2004


Continuando em clima de Olimpíadas, trouxe para este espaço mais um exemplo de garra e determinação. No momento em que a nossa delegação olímpica conta com 122 atletas do sexo feminino, vale lembrar que nem sempre foi assim, considerando todo preconceito já sofrido por elas no mundo esportivo. Dentro desse contexto vou falar de um mito do esporte brasileiro, atualmente com 89 anos, cuja história faz parte da difícil, porém persistente, trajetória feminina nesse mundo. Corajosa, venceu preconceitos, superou barreiras e provou que não existem limites quando se há disciplina, dedicação e amor, no esporte e na vida.

Tudo começou com uma pneumonia dupla. Depois do susto, os pais acharam que a natação faria bem à saúde da filha de 10 anos. Na ausência de piscinas, a paulistana Maria Emma Hulda Lenk Zigler deu suas primeiras braçadas no então belo e limpo rio Tietê. Era o início de uma carreira brilhante e vitoriosa da natação feminina do Brasil. Nascida em 1915, aos 17 anos já era uma atleta de nível internacional. Foi a pioneira da natação feminina do Brasil e depois, a primeira mulher sul-americana a competir em uma Olimpíada. Maria Lenk serviu de exemplo a todas as mulheres que pensaram, ousaram e se destacaram no esporte e na vida, a partir de então.


Nos jogos Olímpicos de 1932, em Los Angeles, a nadadora representou o Brasil nas provas de 100 metros livre, 100 metros costa e 200 metros peito. Ela se tornou um marco no esporte feminino no Brasil, abrindo as portas das Olimpíadas para as mulheres sul-americanas, numa época em que o preconceito ainda dominava o esporte. Como o Brasil não tinha dinheiro para custear as despesas de seus atletas em Los Angeles, o navio Itaquicê que os transportou aos Estados Unidos levou 55 mil sacas de café. Os grãos, que seriam mesmo queimados no país devido à queda do preço no mercado internacional, foram vendidos na parada em cada porto para arrecadar os dólares tão necessários para custear a estadia. Com o dinheiro obtido dentro do navio, apenas 24 atletas puderam desembarcar na costa leste norte-americana e se inscrever nas Olimpíadas. Mesmo sem trazer medalhas ou bater recordes, Maria Lenk estava feliz apenas por estar competindo entre eles.

"Competi com um uniforme emprestado, que tive de devolver quando as provas acabaram".

Voltando a questão do preconceito, as meninas bem que tentavam ingressar no mundo esportivo, iam aos clubes e aprendiam a nadar. Mas quando começavam a competir os pais não queriam, os namorados implicavam e os jornais falavam que as mulheres que praticavam esportes não iam ter filhos, ou que não seria uma prática muito religiosa. Maria Lenk não dava ouvidos e seguia apenas o seu impulso de querer fazer esporte, competir e ganhar.


"Na época em que fui a primeira mulher da América do Sul a participar de uma Olimpíada, havia muito preconceito, uma mentalidade de que o lugar da mulher é dentro de casa. Houve muitas pessoas contrárias. Mas tive o meu pai, um ginasta alemão, que me apoiou muito em vez de proibir."

Vestida de enormes maiôs, nadando em rios e praias, Maria Lenk deu as primeiras braçadas em competições nacionais. Os primeiros passos de emancipação feminina, como o direito de voto e ingresso no mercado de trabalho, ainda eram conquistas recentes. No esporte, as mulheres começavam a se destacar. Depois dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, a Federação Paulista de Natação começou a organizar competições para equipes femininas.

Em 1935, no sul americano de natação, na piscina do Guanabara, no Rio de Janeiro, Maria Lenk venceu e bateu os recordes sul americanos de 100 metros nado de costas e 200 metros nado de peito.

Nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, outro fato marcante em sua carreira foi a participação inovadora, sob o olhar de Adolfo Hitler, que confiava nas vitórias de seus atletas para mostrar ao mundo a superioridade da raça ariana. Na ocasião, destacou-se como precursora do nado borboleta entre as mulheres. Ela se utilizou da braçada desse estilo nos 200 metros peito e, novamente, chegou às semifinais da prova. Somente a partir de 1956, nos Jogos Olímpicos de Melbourne, o estilo borboleta ganhou provas próprias, com os nadadores utilizando o estilo inventado por Lenk.

A foto mostra Maria Lenk treinando num tanque improvisado, a bordo do cargueiro alemão que levou parte da delegação brasileira aos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936.

Ela conta no seu livro "Braçadas & Abraços": "tudo teria sido ótimo, não fosse o balanço do navio que, a cada onda maior, esvaziava parcialmente a "piscina", jogando os nadadores de encontro às paredes de tábuas."

Em 1938 bateu os recordes mundiais de 200 e 400 metros do nado borboleta e ficou a um décimo nos 100 metros. Durante dez anos, essas marcas foram melhoradas por uma holandesa e, depois, uma húngara.

Sem técnico e seguindo seus próprios métodos de treinamento, Maria Lenk bateu, em 1939, dois recordes mundiais, nos 200 e 400 metros peito. Em 1940, na Olimpíada de Helsinque, a guerra reduziu o nado e todos os seus sonhos se foram, provocando uma desilusão muito grande. Maria Lenk tinha capacidade para brilhar muito e foi duro demais ver as Olimpíadas não se realizarem.

Em 1942, Lenk parou de nadar competitivamente e foi lecionar educação física, profissão que exerceu até a aposentadoria. Ela retornou, gloriosamente, à raia das piscinas para competir na categoria Master, em 2000. A competição foi em Munique e ela ganhou sete medalhas de ouro, batendo 12 recordes mundiais


Maria Lenk teve fundamental importância no ensino e no crescimento da Educação Física no Brasil. Formada pela Escola de Educação Física de São Paulo, foi professora do Instituto de Educação, no Rio de Janeiro, co-fundadora da primeira escola civil de Educação Física da América do Sul, dentro da Universidade do Brasil, depois Universidade Federal do Rio de Janeiro. Encerrou sua carreira no magistério superior como Diretora e Professora Emérita.

No 2003 United States Masters Championship Long Course disputado em New Jersey, Maria Lenk disputou 6 provas com 2 medalhas de ouro (200 metros costas e 200 metros peito) e 4 de prata (100, 200, 400 e 800 metros livre). Aos 88 anos disputou na categoria 85 a 89 representando a equipe do New Mexico Masters Swimming do Estado de New Mexico.

Ano passado, aos 88 anos, Maria Lenk lançou seu quinto livro "Longevidade e Esporte", prefaciado por João Havelange. Com a obra, ela mostra que envelhecimento e saúde podem conviver muito bem.

"Não se entreguem à preguiça nem fiquem na cadeira de balanço, mas procurem fazer algum exercício, ainda que moderado, com orientação médica, para prolongar a sua independência e o seu bem-estar".


Fontes:
http://esporte.uol.com.br/olimpiadas/
http://www.museudosesportes.com.br/
http://www.gazetaesportiva.net/historia/seculo/natacao/nat_marialenk.htm

Sonhado por Marcia, 23:49
Sonharam:




Quarta-feira, Agosto 25, 2004


Não poderia esquecer de homenagear uma pessoa muito especial. Ela muito contribuiu para que este blog voltasse a funcionar corretamente. Prestativa, alegre, comunicativa... como se diz hoje em dia... "ela é tudo de bom!"
Então vamos comemorar, pois...




E para quem quiser conhecer o blog da Shê, clique aqui.


Sonhado por Marcia, 22:38
Sonharam:




Terça-feira, Agosto 24, 2004



"O excesso de vontade e nervosismo às vezes atrapalha bastante. Dei três passos e ultrapassei a linha. Só ali devo ter perdido 0,3 pontos. Não digo que estou frustrada, mas um pouco triste. Não pela medalha, mas porque eu poderia ter feito melhor hoje."

Foi-se o sonho de ganhar um ouro na ginástica em Olimpíadas e de ganhar o primeiro pódio olímpico na modalidade para o Brasil. Daiane dos Santos decidiu realizar uma versão ousada da série "Brasileirinho", numa apresentação mais difícil, com a execução do duplo twist esticado e carpado. Como ela mesma disse:

"Eu poderia ter vencido se tivesse optado por uma mais conservadora. Mas não me arrependo de nada. Tive uma cobrança pessoal, podia muito bem ter feito a outra série. Sabia do risco e resolvi assumir."

VALEU DAIANE DOS SANTOS! Infelizmente a medalha não veio mas estamos entre as melhores do mundo. O brilho do ouro está no talento de suas acrobacias, na sua garra e determinação. Você merece toda a nossa admiração.

E para terminar, confiram aqui, uma homenagem que achei genial, feita para a nossa Brasileirinha.




Sonhado por Marcia, 00:58
Sonharam:




Domingo, Agosto 15, 2004



"A autêntica riqueza da experiência humana perderia parte de sua alegria se não existissem limitações a superar. O cume da colina não teria nem metade de sua maravilha se não houvesse vales obscuros para atravessar." Halina Boulez

Em clima de olimpíadas, resolvi trazer para este espaço, aquela que é o maior nome da história da ginástica artística brasileira e que poderá trazer a primeira medalha olímpica na modalidade para o Brasil. De origem pobre e desacreditada em seu início no esporte, ela deu uma verdadeira lição de superação. Apesar de ter começado tarde, com garra e determinação, não desanimou diante das dificuldades, enfrentadas muitas vezes até chegar ao topo desse esporte. Dona de uma força nas pernas incomum, essa gauchinha de 1,44m e 41kg, faz acrobacias que nenhuma outra no mundo consegue. Vamos então falar de Daiane dos Santos ou simplesmente "Dai" para os mais íntimos.


"Tudo é possível até que se prove impossível. E ainda assim o impossível pode sê-lo apenas por um momento." Pearl S. Buck

Daiane Garcia dos Santos nasceu em 10 de fevereiro de 1983, em Porto Alegre. Sua especialidade é o solo e faz exercícios que nunca foram feitos antes, por ninguém.

Daiane jamais poderia imaginar que suas brincadeiras na pracinha, no bairro Menino Deus, chamariam atenção e traçariam seu futuro. Assim que a técnica Cleusa de Paula a viu, ficou impressionada pela força muscular da menina e, mais ainda, com sua ginga. Daiane então foi convidada a fazer um teste no Centro Estadual de Treinamento Esportivo e aos 11 anos começava a treinar no Grêmio Náutico União.


"As condições para a conquista são sempre simples. Só devemos trabalhar um tempo, crer sempre e retroceder, jamais." Sêneca

Daiane dos Santos foi responsável por momentos históricos para o esporte brasileiro. No Mundial de Anaheim (EUA) ela conquistou a inédita medalha de ouro, após apresentar um "duplo twist carpado". Esse movimento foi inventado especialmente para ela, pelo seu técnico, o ucraniano Oleg Ostapenko - um salto mortal com meia volta e dois giros no ar. O "duplo twist carpado" mereceu a classificação Super-E, que define os movimentos com grau máximo de dificuldade. Além disso, a acrobacia foi registrada pela Federação Internacional de Ginástica com o nome de "Dos Santos".


"São muitos os que se obstinam em seguir pelo caminho escolhido: poucos os que perseguem um objetivo." Friedrich Nietzsche

Na final da Copa do Mundo, em Stuttgart, na Alemanha, Daiane voltou a conquistar o ouro, onde superou a estrela da ginástica russa, Svetlana Khorkina. Em 2004 foi medalha de ouro no solo nas etapas de Lyon (FRA) - onde apresentou pela primeira vez o "duplo twist esticado"-, de Cottbus (ALE) e do Rio de Janeiro.


"Deve-se tentar atingir o impossível. O fácil aí está, já o sei fazer, tenho-o incorporado a meu corpo." Julio Bocca

Hoje, ao som de "Brasileirinho", Daiane executou os seus dois principais saltos, o "duplo twist carpado" e o "duplo twist esticado". Antes da apresentação, a preocupação era em relação aos "joelhinhos de cristal", alcunha dada à atleta por Vicélia Florenzano, da CBG (Confederação Brasileira de Ginástica), em referência às três cirurgias sofridas por Daiane - a última delas em junho. Entretanto, em nenhum momento a atleta pareceu sentir a contusão. Mesmo não tendo sido uma grande apresentação, Daiane foi bastante aplaudida pelo público e com a nota de 9.637, terceira maior nota na fase eliminatória, está na final dos exercícios de solo nos Jogos Olímpicos de Atenas. Que venha o ouro olímpico!


Conquistas:

2004
1º Lugar individual no solo na etapa de Cottbus, na Alemanha, Copa do Mundo de Ginástica (março)
1º Lugar individual no solo na etapa de Lyon, na França, Copa do Mundo de Ginástica (março)
2º Lugar individual no salto na etapa de Lyon, na França, Copa do Mundo de Ginástica (março).

2003
1º Lugar individual no solo na etapa de Stuttgart, na Alemanha, da Copa do Mundo de Ginástica
1º Lugar individual no solo no Mundial de Anaheim, Califórnia
8º Lugar por equipes no Mundial de Anaheim, Califórnia
3º Lugar por equipes no Pan Americano de Santo Domingo
3º Lugar Solo na 4ª Etapa da Copa do Mundo na Alemanha
5º Lugar Paralelas assimétricas na 4ª Etapa da Copa do Mundo na Alemanha
3º Lugar na Classificação Geral individual do Campeonato Brasileiro
1º Lugar individual no Salto sobre o cavalo no Campeonato Brasileiro
2º Lugar individual no solo no Campeonato Brasileiro

2002
4º Lugar Solo na 3ª etapa da Copa do Mundo de Berci, na França

2001
1º Lugar Solo no Pan- Americano em Cancun
5º Lugar Solo no Mundial da Bélgica

1999
2º Lugar salto sobre o cavalo nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg
3º Lugar solo nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg



Fontes:
http://atenas.brtdata.com.br/atletas/daiane.php
http://esporte.uol.com.br/

Sonhado por Marcia, 21:40
Sonharam:




Quarta-feira, Agosto 11, 2004




Ousada e com estilo fortemente sensual, ela cultivou o verso livre, lançando a semente renovadora em nossa poesia. Sua poética era marcadamente erótica e causava uma reação negativa na sociedade da época, que a chamava de "matrona imoral". Mesmo assim, os jovens poetas viam em sua obra, a novidade de elaborar, de um modo audacioso e metafórico, o universo da mulher. Apesar de pertencer ao Simbolismo, movimento que usava e abusava das alegorias para expressar sentimentos, sua poesia é muito importante por revelar a voz feminina em um momento super-repressivo.

Reminiscência

Na noite fria
Tua voz quente
expunha anseios tais,
tinha um tal despudor,
vinha tão nua,
que minha boca sentiu desejos
de vesti-la de beijos...

Na noite fria
tua voz quente
errava, louca de destemor,
pelos gelados e ermos espaços...
E tive pena de tua fala...
E abri minha alma para abrigá-la
Na noite fria
tua voz quente
pediu tanto,
chorava tanto...
Que minha vida te dei,
com a mágoa
com que se lança
velho tesouro às mãos travessas
de uma criança

Gilka da Costa de Melo Machado nasceu no Rio de Janeiro, no dia 12 de março de 1893. Educada entre artistas, começou a fazer versos na infância, influenciada pelo poeta Hermes Fontes. Estreou na literatura vencendo, aos 13 anos, um concurso de poesia organizado pelo jornal "A Imprensa".

Ser Mulher...

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

Volúpia do Vento

Na plena solidão de um amplo descampado,
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda a feição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho

O Vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora lagoroso, ora forte, medonho!
E tanto penso em ti, ó meu ausente amado!
que te sinto no Vento e a ele, feliz me exponho

Com carícias brutais e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me toda tua...
-Sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças...

E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico, assim, neste ermo, toda nua,
completamente exposta à Volúpia do Vento!


Em 1915, publicou no "Jornal da Manhã" um livreto chamado "Cascos e Carícias", onde descreveu a vida dos jornalistas mais "emancipados", escandalizando os moralistas do seu tempo com crônicas da sociedade cultural carioca. Nesse mesmo ano, já casada com o poeta Rodolfo de Melo Machado, foi publicado "Cristais Partidos", seu primeiro livro, caracterizado por uma preocupação em ver o lado espiritual da vida. No ano seguinte foi publicada a sua conferência "A Revelação dos Perfumes". Seguiram-se "Estados de Alma", "Poesias, 1915/1917", "Mulher Nua", "Meu Grande Amor", "Meu Glorioso Pecado", "Carne e Alma", mais liberários, manifestando seu desejo de "viver somente sujeito às leis da natureza e aos caprichos do amor".

Esboço

Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforescentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...




Em 1932 foi publicada em Cochabamba, na Bolívia, a antologia "Sonetos Y Poemas de Gilka Machado", prefaciada por Antonio Capdeville. No ano seguinte ela foi eleita "a maior poetisa do Brasil", por concurso da revista "O Malho", do Rio de Janeiro. Foram lançadas nas décadas seguintes, suas obras poéticas "Sublimação", "Meu Rosto" e "Velha Poesia". Em 1979, foi agraciada com o prêmio Machado de Assis, pela Academia Brasileira de Letras. Nesse mesmo ano a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro prestou homenagem à mulher brasileira na pessoa da poeta.

Bailado das Ondas

Vede-as, ei-las que vêm- eternas bailarinas
para a festa noturna e fádica do luar,
segue-as o coro alegre e álacre das ondinas:
vede-as, ei-las que vêm, todas juntas, bailar.

Seios nus, braços nus que flavas serpentinas
cingem, abstratas mãos de brancura polar,
surgem, despetalando orquídeas argentinas
sobre a pelúcia azul do tapete do mar.

De quando em vez, na praia, uma a sorrir se apruma
desliza, rodopia e alva como de espuma
desnastra, erguendo o corpo em bamboleios no ar.

E a lua, entre coxins, muito pálida e loura,
em serena mudez de nobre espectadora,
pelas ondas alonga o indiferente olhar




Frustração

Amei o Amor, ansiei o Amor, sonhei-o
uma vez, outra vez (sonhos insanos!)...
e desespero haja maior não creio
que o da esperança dos primeiros anos.

Guardo nas mãos, nos lábios, guardo em meio
do meu silêncio, aquém de olhos profanos,
carícias virgens para quem não veio
e não virá saber dos meus arcanos.

Desilusão tristíssima de cada
momento, infausta e imerecida sorte,
de ansiar o amor e nunca ser amada!

Meu beijo intenso e meu abraço forte,
com que pesar penetrareis o Nada,
levando tanta vida para a morte!...


Gilka Machado faleceu aos 87 anos, no Rio de Janeiro.

"Se é intensiva a experiência de Gilka Machado, como poetisa e mulher reivindicadora, há outras barreiras a vencer entre a militância poética e a militância doméstica. Havia uma distância, na sua época, entre o campo da sacralidade da arte e certos aspectos da vida rotineira, que o simbolismo intensifica, o modernismo desenvolve e autoras mais contemporâneas, como Adélia Prado, consumam. Gilka Machado, a viúva do poeta Rodolfo Machado, a mulher dona de pensão que cozinhava para tantos poetas de sua época, como Tasso da Silveira e Andrade Muricy, por exemplo, enquanto fazia poesia, esta ainda habita os porões do cenário poético. Já fizera emergir dos porões, no entanto, um dos "monstros" proibidos: o modo de representação da ansiedade erótica que delineia um projeto novo ou um novo jeito de querer ser mais mulher; e que justifica, penso eu, o considerar a poesia de Gilka Machado como precursora na luta pelos direitos de acesso à representação do prazer erótico na poesia feminina brasileira."
Gotlib, Nádia Battella [1982]. Com dona Gilka Machado, Eros pede a palavra: poesia erótica feminina brasileira nos inícios do século XX. Polímica: Revista de Crítica e Criação. p.46-47.

Meu Glorioso Pecado II

Quantas horas felizes, quantos dias
nos contemplamos sem jamais trocar
uma frase! - Eu temia... Tu temias...
Mas como era expressivo nosso olhar!...

Nem uma frase! E tantas melodias
no meu, no teu silêncio, no do mar,
no do céu, no das árvores sombrias,
como tudo se amava sem falar!

Trocamos o vocábulo e (oh! tristeza!)
Quantas injúrias, que contradição
nessas palestras de alma
em ciúme acesa!

Ah! se mudos ficáramos então,
não profanara o orgulho
e a singeleza
das palavras sem voz
do coração!


"A forma ousada dos seus versos, de um ritmo livre e bastante pessoal, harmoniza-se com a liberdade de inspiração, onde predomina um forte sensualismo, tão forte que Humberto de Campos notava-lhe nos poemas verdadeiras 'tempestades de carne'... Seus livros provocavam, simultaneamente, admiração e escândalo, já que a poetisa confessava sentir pêlos no vento', desejava penetrar o amado 'pelo olfato, assim como as espiras/invisíveis do aroma...' e declarava, sem rebuços: 'Eu sinto que nasci para o pecado'."
Góes, Fernando [1960]. Gilka da Costa Melo Machado. In: ___. Panorama da poesia brasileira: o pré-modernismo. v.5, p.165.

Poema de Amor

Ser a atmosfera
que respiras,
conter-te em mim
como numa redoma,
entrar-te pelo olfato,
assim como as aspiras
invisíveis, do aroma...

Ser teu ambiente,
ser teu espaço circundante,
sentindo em mim roçar,
constantemente,
teu gesto palpitante...

Ser o silêncio
em que te enfurnas,
guardar teus
lentos pensamentos,
pelas horas noturnas...

Ser o teu sono,
sentir-te assim
como ninguém te sente
- abandonado
completamente
completamente esquecido
em mim...

Oh! meu prazer!
- sentir-te
e penetrar-te;
- em toda hora,
em toda parte,
gozar teu ser!
Sem que
o pudesses perceber;
- ser por ti absorvida;
- encher com minha vida
a tua vida


Fontes:
http://www.secrel.com.br/jpoesia/poesia.html
http://geocities.yahoo.com.br/edterranova/gilka.htm

Sonhado por Marcia, 14:54
Sonharam:




Domingo, Agosto 08, 2004


Um Feliz Dia dos Pais para todos os amigos que por aqui passam. Beijo grande para o meu pai que amo de paixão e um carinho especial para essas pessoinhas queridas que também são pais...Leo e o Gegê, futuro vovô do Pedrinho...será que já nasceu?

Para os amigos cujos pais já partiram para outro plano, que a data traga boas lembranças de um tempo que jamais será esquecido.


Sonhado por Marcia, 09:01
Sonharam:




Sexta-feira, Agosto 06, 2004

"Eu tenho em mim o inferno e o paraíso:
um é o teu tédio, o outro o teu sorriso."

Sua poesia vai do romantismo ao parnasianismo, passando pelo simbolismo. A perfeição na rima em métrica dá cadência e musicalidade à sua obra. O amor e a mulher eram seus temas preferidos. Com verdadeira obsessão pelo mito da beleza, da sensualidade, da idealizada companhia feminina, cantou o amor com toda a sua força e com todas as suas formas de atração, menos a da direita e explícita carnalidade física.

Luís Delfino dos Santos, o primeiro autor catarinense a se tornar um nome nacional, nasceu na antiga Desterro (hoje, Florianópolis) a 25 de agosto de 1834. Aos 16 anos mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em Medicina, sendo um dos mais importantes médicos da época. Casou-se com Maria Carolina Puga Garcia, com quem viveu até sua morte.

O AMOR

O amor!... Um sonho, um nome, uma quimera,
Uma sombra, um perfume, uma cintila,
Que pendura universos na pupila,
E eterniza numa alma a primavera;

Que faz o ninho e dá meiguice à fera,
E humaniza o rochedo, e o bronze, e a argila,
Sem o afago do qual Deus se aniquila
Dentro da própria luminosa esfera.

A música dos sóis, o ardor do verme,
O beijo louco da semente inerme,
Vulcão, que o vento arrasta em tênue pós:

Curvas suaves, deslumbrantes seios
De vida e formas variegadas cheios.
É o amor em nós, e o amor fora de nós.

Avesso aos círculos literários de sua época, raramente era visto em companhia de outros escritores, um distanciamento que lhe rendeu o estigma de poeta instintivo, mais inspirado do que disciplinado, pouco afeito a lapidar seus versos e, por isso, refratário a discussões formais, embora fosse presença certa em festas onde pudesse declamar seus sonetos. Não publicou nenhum livro em vida, o que fez com que sua obra quase se perdesse no tempo. Sua poesia era publicada freqüentemente na maioria dos jornais e revistas da sua época, o que o fez conhecido e amado como poeta. Chegou a ser eleito, pelos próprios colegas escritores, em 1898, o "Príncipe dos Poetas Brasileiros". Foi chamado, também, de "Victor Hugo brasileiro".

Seus primeiros poemas, na adolescência, foram influenciados pelo francês Lamartine, embora sua estréia na imprensa com o conto "O Órfão do Templo" tenha tido como acessório a influência pesarosa e melancólica do ultra-romantismo, experiência equivocada que o afastou definitivamente da ficção. À sugestão lamartineana dos versos da mocidade somou-se a influência de Victor Hugo que o acompanharia por toda a vida. A partir de 1864, afastou-se das páginas veiculadas pela imprensa, buscando o reconhecimento como médico. 15 anos depois ele retornou à poesia, ligando-se às novas tendências estilísticas européias, ainda que se mantivesse alheio à opinião pública.

Em meados dos anos 80, nem a presença do romantismo a macular o rigor do verso perfeito impediu que Delfino fosse considerado, segundo Clóvis Beviláqua, o "chefe unânime do parnasianismo brasileiro". Em 1855, o concurso público da revista "A Semana" para eleger o maior poeta brasileiro de todos os tempos apontou Luís Delfino como o terceiro nome mais votado, superado na contagem apenas por Castro Alves e Gonçalves Dias, então falecidos. Colaborou para esta consagração a publicação, em 1883 por "A Estação", o poema "Jesus ao Colo de Madalena", trabalho transcrito em jornais de todo o Brasil, uma das obras maiores do poeta catarinense.

A Deusa

O seu pescoço esplêndido e robusto
Implantado às espáduas fortemente,
Presta-lhe um ar olímpico e imponente;
De Vênus dá-lhe gesto altivo e augusto;

E sustém-lhe a cabeça bela: é justo,
Porque dos deuses vem; e se presente
No andar, na voz, no riso negligente:
Mete em tudo, que a cerca, estranho susto:

Tão grande e superior ela parece,
Que não é muito a admiração e o espanto:
Segue-se ao espanto o amor, ao amor a prece.

És tu, Helena, a deusa, o enleio, o encanto:
É de ti, que em mim só, todo um céu desce:
A ti meus olhos, como a um céu, levanto...

Em 1888 um novo período de afastamento, publicando apenas um poema por ano em virtude de sua atividade política como senador à Constituinte por Santa Catarina. O retorno de seus poemas à vitrine pública, em 1896, foi marcado pela presença de dois novos elementos estilísticos: a inquietação metafísica e o amor, resultado de um romance conturbado com sua afilhada adolescente, Eugênia Caldeira - a Helena dos poemas -, quarenta anos mais moça. A paixão rendeu a sua poética uma multiplicidade de direcionamentos, às vezes reverenciando o hedonismo carnal, em outras tomando uma postura fetichista e exaltadora em contraste com freqüentes tons paternais e até místicos, registrados no representativo poema "A Primeira Lágrima".

A Primeira Lágrima

Quando a primeira lágrima caindo,
Pisou a face da mulher primeira,
O rosto dela assim ficou tão lindo
E Adão beijou-a de uma tal maneira,

Que anjos e Tronos pelo espaço infindo
Qual rompe a catadupa prisioneira,
As seis asas de azul e d'ouro abrindo,
Fugiram numa esplêndida carreira.

Alguns, pousando à próxima montanha,
Queriam ver de perto os condenados
Da dor fazendo uma alegria estranha.

E ante o rumor dos ósculos dobrados,
Todos queriam punição tamanha,
Ansiosos, mudos, trêmulos, pasmados..

A febre simbolista que, no final do século 19, não atingiu Delfino: por não ter livro publicado e manter-se afastado dos círculos literários, encarnava uma postura alternativa que fugia à imagem dos contemporâneos e agradava aos novos nomes que surgiam na poesia nacional, facilitando o desenvolvimento de uma cena simbolista. Passou, então, a colaborar com revistas como "Vera-Cruz" e "A Meridional", onde publicou seu poema mais famoso, "As Três Irmãs", alegoria para seu amor de pai, de marido e de amante prestes a ser abandonado.

Luís Delfino morreu, em decorrência de arteriosclerose generalizada, em 31 de janeiro de 1910, no Rio de Janeiro, sem publicar um único livro. Sua obra é imensa - escreveu mais de cinco mil poemas - mas, somente uma pequena parte dessa obra foi publicada em 14 livros, por seu filho, Tomás Delfino, entre 1926 e 1943. Entre suas melhores composições citam-se "Poesias líricas", "A angústia do infinito", "Rosas negras", "Esboço da epopéia americana" e "Posse absoluta".

Cio

Inspirar-me em corpos nus
sedutores...
Que contenham performance de amor,
eloqüente
Que traduzam sentimentos
não bizarros
E que surgem de almas simples mas,
ardentes

Uma musa,
deitada na areia....
olhos claros e cabelos d'oiro
É uma imagem sublime,
feminina
Que vale muito mais que
grilharias

Semi-nua com teus seios pardos
Olhar de mulher,
de desejos mil.....
Lábios suaves, vives fantasias...

Mas é nas tuas coxas
que sinto o cheiro do teu cio.

Fontes:
http://www.secrel.com.br/jpoesia/ld.html
http://an.uol.com.br/2000/jan/31/0ane.htm
http://geocities.yahoo.com.br/prosapoesiaecia/luisdelfinoautores.htm

Sonhado por Marcia, 17:00
Sonharam:




Quarta-feira, Agosto 04, 2004

Desde cedo, ela fugiu às normalizações e às convenções estabelecidas socialmente. Sua paixão foi o estopim de um movimento político que marcou época no Brasil. Com o seu vanguardismo escandalizou a sociedade: usava pintura, cabelos curtos, saía às ruas sozinha, fumava, não queria casar nem ter filhos, fazia poemas e condenava, em textos publicados em algumas revistas, o isolamento e a humilhação a que eram submetidas as mulheres, "vivendo sob leis francamente patriarcais".

Nasci
Nasceu
Cresceu
Namorou
Noivou
Casou
Noite nupcial
As telhas viram tudo
Se as moças fossem telhas não se casariam

Anayde Beiriz nasceu em 18 de fevereiro de1905, em João Pessoa. Diplomou-se pela Escola Normal Oficial do Estado com apenas 17 anos e passou a lecionar em uma colônia de pescadores, perto de sua cidade natal. Aos 20 anos, ganhou um concurso de beleza, promovido pelo Correio da Manhã, como a mais bela paraibana. Poeta e amante das artes, circulava nos meios intelectuais, onde se declarava publicamente a favor da liberdade e da autonomia feminina.

"Muitas atitudes minhas, incompreensíveis aos olhos desses fariseus por aí, vinham do angustioso recalque dos ímpetos de minha alma e da obrigação em que estava, de dizer pela metade, aquilo que eu poderia dizer totalmente."
(Lima Barreto, conforme citação de Anayde Beiriz)

Sendo uma mulher emancipada para os costumes do seu tempo, Anayde perturbou a sociedade da Paraíba, nos anos 30. Ousou exprimir uma sensibilidade que chocou o modelo de moralidade que prevalecia na época: sua maneira de vestir (usou decotes), o corte de cabelos "à la garçonne", as suas idéias políticas (quando as mulheres não tinham sequer o direito ao voto), o gosto de frequentar as rodas literárias, onde sempre era a única mulher e a maneira de vivenciar o amor livre causaram escândalo.

"Elevemos a mulher ao eleitorado; é mais discreta que o homem, mais zelosa, mais desinteressada. Em vez de a conservarmos nesta injusta minoridade, convidemo-la a colaborar com o homem na oficina da política. Que perigo pode vir daí?" (Anayde, apud Joffily, 1980:43)

Em 1928, Anayde iniciou seu romance com o deputado João Dantas, que era adversário de João Pessoa, candidato à presidência (equivalente a governador na época atual) da Paraíba. Em 1930, o Brasil sofreu reviravoltas importantes: historicamente, a chamada política do "café com leite" dividia o poder entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais, causando o mal-estar dos outros Estados. O bloco político, do qual a Paraíba fazia parte, interveio nas disputas políticas, que se tornaram violentas e as questões pessoais se misturaram às questões da vida pública.

A ligação amorosa entre João Dantas e Anayde Beiriz não era bem vista pela sociedade da época, uma vez que não eram casados. Apaixonados, trocavam cartas e poemas, guardados num cofre no escritório de Dantas. Essa correspondência caiu nas mãos da polícia, após uma invasão ao escritório de Dantas, sem que se saiba se o ocorrido foi com ou sem o conhecimento prévio de João Pessoa. As cartas foram publicadas no Diário Oficial do Estado da Paraíba, de nome "A União". Sensual e libertária, Anayde foi duramente exposta à sociedade paraibana. Exposto também à humilhação pública, Dantas responsabilizou João Pessoa pelo escândalo. O que era uma invasão de cunho político, mobilizou todo o Brasil ao ganhar o contorno de uma grande paixão, vivida às escondidas.

Acróstico feito por Dantas e Anayde:

MEU SANGUE

E m minhas veias circula
U m sangue de carniceiro...
G olfante, rubro, pullula
N a artéria prisioneiro, -
A rtéria que te estrangula,
S angue mau, de cangaceiro...

TEU SANGUE

S angue... sangue venenoso,
A rroio quente, opalino,
N o teu systema venoso...
G olfeja! Dá-me, assassino,
U m banho infernal de gozo
E m teu visco viperino!...

No dia 26 de julho, João Dantas, furioso com a publicação de suas cartas de amor, matou com três tiros João Pessoa, sendo preso logo em seguida. O crime aconteceu na Confeitaria Glória, no Recife. Este ocorrido, entre outros fatos, serviu de pivô para uma convulsão nacional que culminou na Revolução de 30. Isto é, as cenas da vida privada, provocaram uma revirada na ordem das forças políticas nacionais, as quais eram representadas, de um lado, pelos correligionários políticos de João Pessoa, e do outro lado, pelas facções que tinham o apoio de João Dantas. A morte de João Pessoa comoveu todo o Brasil, pois ele nessa época já era muito famoso, ao ter concorrido à presidência como vice de Getúlio Vargas. Em outubro daquele ano o movimento revolucionário foi deflagrado e Anayde passou a ser perseguida e apontada na rua como "a prostituta do bandido que matou o presidente."

João Dantas morreu na prisão, no dia 3 de outubro, oficialmente um caso de suicídio, versão até hoje contestada por historiadores. Obrigada a sair da capital paraibana, Anayde abrigou-se no Asilo Bom Pastor, em Recife, onde acabou se matando em 22 de outubro de 1930. Foi enterrada no cemitério de Santo Amaro como indigente e sua memória foi renegada durante anos pelos paraibanos.

Grande parte de sua produção literária foi queimada depois que ela e João Dantas, morreram. O resgate de sua história se deu 50 anos depois pelas mãos do escritor e pesquisador José Joffily, através do livro "Anayde - Paixão e Morte na Revolução de 30" (Editora Record). Posteriormente foi tema do filme "Parahyba Mulher Macho", dirigido por Tizuka Yamazaki, ficando a interpretação da personagem a cargo da atriz Tânia Alves.

Fontes:
http://www.bocc.ubi.pt/pag/paiva-claudio-Mitologias-Feminino.html
http://www.terra.com.br/istoegente/100mulheres/comportamento/anayde.htm
http://www.seol.com.br/mneme/

Sonhado por Marcia, 00:09
Sonharam:


:: Sonhando I ::
Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo... Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranqüila de um açude...
Mário Quintana

:: :: :: ::

:: Sonhando II ::
Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.

Affonso Romano de Sant'Anna

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