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Terça-feira, Dezembro 28, 2004

No momento em que chegamos ao final de mais um ano, quero agradecer aos amigos que por aqui passaram, deixando seus comentários, elogios, sugestões e palavras de incentivo. Muito obrigada, as opiniões de vocês serviram de estímulo e me permitiram utilizar este espaço de uma forma mais criativa, seja para falar de personalidades de um modo geral ou no resgate de escritores totalmente esquecidos. Me sinto recompensada diante de tanto carinho que tenho recebido por esse trabalho. Não posso esquecer também de uma pessoa muito querida, responsável pelo template do blog e pelos lindos trabalhos de imagens que aparecem por aqui. Obrigada pela sua presença na minha vida.

E assim, desejo um ano de 2005 maravilhoso para todos e que a cada dia possamos demonstrar os nossos melhores sentimentos, seja através de um abraço, um beijo, uma palavra de carinho, um aperto de mão, enfim, que tenhamos sempre em mente que uma palavra amiga e um afeto podem fazer toda a diferença no dia de uma pessoa.

Em homenagem a todos voces e saudando o novo ano que se aproxima, vamos falar de um exemplo de vida, fé, coragem e esperança, vamos falar de um sonho de igualdade e liberdade.

Um beijo a todos e que nossos melhores sonhos se realizem.




Ele lutou, de forma pacífica, por um mundo mais justo e é considerado o maior líder negro na história dos Estados Unidos. Foi também um dos principais responsáveis pelo fim da segregação racial em seu país. Sua filosofia de não-violência foi baseada no pacifismo de Gandhi e nos princípios cristãos.


Martin Luther King Jr., líder negro pacifista e pastor norte-americano, nasceu em 15 de janeiro de 1929, em Atlanta, na Georgia. Seu pai era pastor da Igreja Batista Ebenezer e sua mãe professora. Freqüentando sempre a igreja, ainda muito pequeno, já memorizava textos bíblicos e cantava hinos com voz muito expressiva. Aos 12 anos Martin pensou em desistir da vida, tentando o suicídio por duas vezes, o que mostrava a instabilidade emocional do menino que, já a essa altura, estava tomado pelos fantasmas de sua condição de negro em uma sociedade que não admitia tal fato. A primeira tentativa deu-se quando sua querida avó, Jennie Williams, sofreu um acidente que fez com que perdesse a consciência. Julgando-a morta, Martin saltou da janela do primeiro andar sob os olhares atônitos da família. Quando, em 1941, sua avó realmente morreu, ele tornou a saltar do primeiro andar, felizmente sofreu apenas pequenos arranhões.

Ordenado pastor auxiliar aos 17 anos, continuou a estudar. A idéia de ser médico ou advogado foi colocada de lado em favor de outra vocação. Dois anos depois, graduou-se em Sociologia na Morehouse College e ingressou no Seminário de Crozer, na Pensilvânia, no norte dos EUA, onde leu trabalhos de famosos teólogos e filósofos, entre eles Henry Thoreau, um abolicionista. Formou-se em Teologia como o melhor aluno de sua classe e, depois, iniciou o doutorado na Universidade de Boston. Nessa época conheceu Coretta Scott, uma estudante de Música com quem se casou em 18 de junho de 1953. O casal teve quatro filhos.


Em 1954 iniciou suas funções como pastor, na Igreja Batista da Dexter Avenue, em Montgomery, Alabama, estado situado no Sul, foco dos maiores conflitos raciais do país. Nessa época, a Ku Klux Klan, bem como outros grupos e a própria polícia, atuavam sem cessar, procurando através do medo, paralisar os negros e mantê-los submissos. Martin percebeu então que era preciso combater esse medo, pois à medida que ele se desfizesse, a voz negra passaria fatalmente a ser ouvida.


Já doutor em Teologia, Martin via a comunidade negra totalmente submissa, com medo de lutar contra as injustiças raciais. Os ônibus da cidade eram guiados somente por motoristas brancos, e só os últimos bancos eram permitidos aos negros. No dia 1 de dezembro de 1955, Rosa Parks, uma líder da Associação Nacional de Avanço do Povo Negro (NAACP), embarcou num ônibus e se recusou a dar lugar para um passageiro branco. A prisão de Rosa incentivou Martin e seus seguidores a iniciarem um boicote às empresas de ônibus. Com a manutenção do boicote por quase um ano, as autoridades racistas usaram uma velha lei antiboicote para acabar com o movimento e prender 89 pessoas, incluindo Martin Luther King.


Apesar de sempre lutar pacificamente contra a discriminação racial, além da prisão, Martin Luther King teve sua família ameaçada de morte. No dia 30 de janeiro de 1956, ele proferia um discurso em uma das reuniões quando lhe deram a notícia do ataque a bomba em sua residência, felizmente sua família nada sofreu, além do susto. Uma multidão de negros enfurecidos formou-se em frente à sua casa, querendo fazer justiça com as próprias mãos aos que tão injustamente os perseguiam, mas, usando sempre da sua política de não-violência, ele pediu que depusessem as armas e voltassem para suas casas, dizendo para encerrar:


No lançamento de seu livro "A Caminho da Liberdade", sofreu um atentado durante uma sessão de autógrafos. Uma mulher negra, de meia-idade, com passagens em vários hospitais psiquiátricos, cravou um abridor de cartas em seu peito. Levado às pressas para o hospital, sofreu uma cirurgia extremamente delicada e sobreviveu. Martin participou de várias marchas de protesto e, como resultado, aos poucos foi somando conquistas.


Em fevereiro de 1956, a primeira batalha pelos direitos civis havia sido vencida. Chegou a Montgomery a ordem da Suprema Corte, declarando ilegal a segregação nos ônibus. Era o fim do boicote que durara mais de um ano, e uma grande vitória para Martin Luther King, que nessa ocasião se tornou mundialmente famoso.


No início da década de 1960, Martin Luther King organizou manifestações para protestar contra a segregação racial em hotéis, restaurantes e outros lugares públicos. Durante uma manifestação, foi preso, tendo sido acusado de causar desordem pública. Na prisão, escreveu uma famosa carta na qual afirmava que as pessoas tinham a responsabilidade moral de desobedecer e lutar contra leis injustas. Após ser libertado, continuou a liderar manifestações que tinham como objetivo pôr um fim às leis de segregação racial nos Estados Unidos.


Em 1963, Martin e outros líderes negros reuniram 250 mil pessoas na famosa "Marcha para Washington", um protesto em prol dos direitos civis de todos os cidadãos dos Estados Unidos. A não-violência tornou-se sua maneira de demonstrar resistência. Deixando de lado suas anotações, fez, das escadarias do Lincoln Memorial, aquele que foi tido como o maior discurso do movimento pelos direitos civis "I have a dream" ("Eu tenho um sonho"), que expressou seu sonho " e o sonho de todos os negros e de outras minorias nos Estados Unidos"de viver numa sociedade igualitária e justa.



Martin Luther King tornou-se capa da revista Time de 3 de janeiro de 1964, recebendo o título de "Homem do Ano de 1963".Em outubro de 1964 recebeu o Prêmio Nobel da Paz, cujo valor, cerca de cinqüenta mil dólares, destinou aos movimentos em prol dos direitos civis. No ano seguinte, liderou uma nova marcha que teve como conseqüência a aprovação da Lei dos Direitos de Voto de 1965, que abolia o uso de exames que visavam impedir a população negra de votar.

Suas campanhas fizeram com que fosse constantemente ameaçado de morte. Telefonemas e cartas prometiam-lhe o pior, mas Martin conservava certa resignação a respeito, pronunciando frases que seriam proféticas se consideradas à luz de seu trágico desaparecimento:


Em 1967 uniu-se ao Movimento pela Paz no Vietnam, o que causou um impacto negativo entre os negros. Outros líderes negros não concordaram com esta mudança de prioridades dos direitos civis para o movimento pela paz.

Em 4 de abril de 1968, Martin Luther King foi assassinado em Memphis, Tennessee, por um franco atirador chamado James Earl Ray. Na véspera da sua morte, havia pronunciado o discurso profético: "Eu vejo a terra prometida".

Sob a liderança de Martin Luther King, milhões de negros americanos saíram do aprisionamento espiritual, do temor, da apatia, e foram para as ruas reivindicar sua liberdade. O ressoar de milhões de pés em marcha antecedeu o sonho. Sem estes feitos, inspirados pela sua admirável coragem pessoal, as palavras teriam simplesmente criado uma fantasia. Martin Luther King, o guerreiro pacífico, revelou ao povo o seu poder latente; o protesto não-violento de massas, firmemente disciplinado, capacitou-o a avançar contra seus opressores num combate eficiente e sem derramamento de sangue. De um só golpe ele organizou seus exércitos e confundiu os seus adversários. Em plena rua, sob o clarão das luminárias, ele deu uma lição à nação, revelando quem era o oprimido e quem era o opressor.

Martin Luther King tinha um sonho. Que algum dia, mesmo na racista Georgia, os filhos de escravos e o dos senhores se sentariam na mesa da fraternidade, e que até o Mississipi viraria um oásis de irmandade. Que ninguém mais seria julgado pela sua cor e sim pelo seu caráter. Que por toda a América, num anunciado futuro, em suas montanhas, vales, planícies, aldeias ou cidades, se ouviria o clarim da liberdade. Todos então, independente da raça, sexo ou religião se dariam as mãos e , em júbilo, repetiriam as palavras de um velho spiritual negro; "Finalmente livres! Em fim livres! Graças a Deus Todo-Poderoso, finalmente estamos livres!"


Fontes:
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/martin_king.htm
http://www.sobiografias.hpg.ig.com.br/MartLuth.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Luther_King



Sonhado por Marcia, 15:15
Sonharam:




Sexta-feira, Dezembro 17, 2004




Ela foi uma das personalidades mais destacadas da literatura portuguesa das últimas décadas. Sua obra foi marcada por uma atitude de rebeldia diante de quaisquer poderes instituídos, fazendo-se eco de um grito de revolta que prezou sobretudo a liberdade dos poetas. Versátil, dedicou-se a vários gêneros, além de marcar a sua presença na política e na imprensa.

O Livro dos Amantes
I



Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.


Natália de Oliveira Correia nasceu na Fajã de Baixo, ilha de São Miguel, Açores, em 13 de setembro de 1923. Estudou no liceu Antero de Quental até 1934, quando mudou-se para o liceu Filipa de Lencastre, em Lisboa.


AUTO-RETRATO ALEXANDRINO

Eu nunca fui na vida, eu nunca fui menina:
Impura sim. Eu sou a imaculada impura.
Não vesti tafetás nem chitas de candura
Nem quis vencer jamais esta invencível sina.

Foi sã minha poesia, e foi também perjura
Como uma flor-de-lis entre ascos de latrina.
Cantei ainda cedo a loa vespertina.
Se há Deus, vou-Lhe a caminho, e sinto-me segura.

Por ódio ou por amor, chamem-me louca ou bela.
Sinto a inveja e o ciúme em modos de homenagem:
Se tenho de aceitá-la, eu não me nego a ela.

Fui rainha de mim, de versos e de prosas,
E só a mim também honrei em vassalagem.
Cada espinho que fere é um sinal de rosas.


Alguns críticos classificaram sua escrita como surrealista, outros como barroca e outros, ainda, como romântica (entre todas, a classificação preferida pela própria). Natália foi, na verdade, uma escritora cuja originalidade e versatilidade não podem ser compartimentadas em qualquer escola literária. Sua obra abrange poesia, romance, teatro, ensaio, memórias, relatos de viagem, organização de antologias e colaboração em vários jornais e revistas.


Mãos feridas na porta dum silêncio



Vida que às costas me levas
porque não dás um corpo às tuas trevas?

Porque não dás um som àquela voz
que quer rasgar o teu silêncio em nós?

Porque não dás à pálpebra que pede
aquele olhar que em ti se perde?

Porque não dás vestidos à nudez
que só tu vês?


Durante a ditatura foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação de uma "Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" (1966) e processada pela responsabilidade editorial das "Novas Cartas Portuguesas" de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta nos Estúdios Cor, de que foi diretora literária.


O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.


Em 1992, Natália Correia liderou a criação da Frente Nacional para a Defesa da Cultura e interveio politicamente ao nível da cultura e do patrimônio, na defesa dos direitos humanos e dos direitos da mulher. Apelou sempre à literatura como forma de intervenção na sociedade, tendo tido um papel ativo na oposição ao Estado Novo. Teve grande notoriedade no cenário político português, sendo eleita deputada pelo Partido Social Democrata, passando depois a independente.


O Livro dos Amantes
II




Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.


Embora tenha começado pela literatura infantil, "A Grande Aventura de um Pequeno Herói", 1945, e pelo romance "Anoiteceu no Bairro", 1946, foi na poesia que encontrou a expressão mais depurada de seu temperamento a um só tempo lírico e irônico. Entre as suas obras poéticas encontram-se "Rio de Nuvens", "Poemas", "Dimensão Encontrada", "Passaporte", "Comunicação", "Cântico do País Emerso", "O Vinho e a Lira", "Mátria", "As Maçãs de Orestes", "A Mosca Iluminada", "O Anjo do Ocidente à Entrada de Ferro", "Poemas a Rebate", onde chama, na introdução, ao conjunto de seus "poemas indóceis" de "pentagrama de indignação", "Epístola aos Iamitas", "O Dilúvio e a Pomba" e "O Armistício".


Auto-retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exilio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.


Indignação constante é o que não falta a obra de Natália Correia, seja motivada pela censura que a amordaçou por longo tempo, seja por uma insurreição natural a todos os engodos ideológicos da organização social. A capacidade de abranger, contudo, várias expressões líricas, bem como sentimentos e visões aparentemente opostos, entre a subjetividade romântica e a objetividade realista, levaram-na a compor "Os Sonetos Românticos" (1991, Grande Prêmio de Poesia APE/CTT) e o romance "As Núpcias" (1992). No primeiro, parece voltar à primeira fase de sua expressão em virtude da abstração do objeto lírico, não obstante, agora, mais intelectualizada, beirando certo misticismo da criação poética, da escrita, da expressão verbal. Por isso, define o soneto como "misterioso nó que em sacra escrita / cimos e abismos une". Abismos, que enfim, de onde sempre procurou garimpar a sua "aurífera" poesia.


O Livro dos Amantes
IX



Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.


A sua obra de ficção engloba Aventuras de "Um Pequeno Herói", "Anoiteceu no Bairro", "A Madona", "A Ilha de Circe", "Onde Está o Menino Jesus" e "As Núpcias". Como dramaturga escreveu "O Progresso de Édipo", "O Homúnculo", "O Encoberto", "Erros Meus", "Má Fortuna", "Amor Ardente" e "A Pécora".


O Encontro

Como se um raio mordesse
meu corpo pêro rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado
um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajecto me deixasse
uma açucena na anca
como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um couce
e eu não sofresse com isso
como se eu já existisse
antes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua
como se deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se deus fosse macho
e as minhas coxas de feno
como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor


Natália Correia escreveu ainda várias obras ensaísticas, das quais se destacam "Descobri que Era Europeia - Impressões de Uma Viagem à América", "Poesia de Arte e Realismo Poético", "A Questão Académica de 1907", "Uma Estátua para Herodes", "Não Percas a Rosa - Diário e algo mais: 25 de Abril de 1974 - 20 de Dezembro de 1975" e "Somos Todos Hispanos".


Crucificação



Vertical sou contra Deus
Horizontal a favor.
Nesta cruz me crucifico
Vertical com desespero
Horizontal com amor.


Organizou também algumas antologias de poesia portuguesa, entre as quais "Antologia da Poesia Erótica e Satírica", "Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses", "Trovas de D. Dinis", "O Surrealismo na Poesia Portuguesa", "A Mulher", "A Ilha de São Nunca" e "Antologia da Poesia do Período Barroco".


Sete Luas

Há noites que são feitas dos meus braços
e um silencio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas

Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas
E um risco a sangue na nossa carne escura
de uma espada à bainha de um cometa

Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longinqua onda de seu canto

Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo.


Natália Correia morreu em Lisboa, a 16 de Março de 1993, ano em que foi publicada, em dois volumes, pelo Círculo dos Leitores, a sua obra poética completa: "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias", a reunião da sua poesia completa, que inclui todos os livros publicados e muitos poemas inéditos.


Retrato Talvez Saudoso
da Menina Insular


Tinha o tamanho da praia
o corpo era de areia.
E ele próprio era o início
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.

E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.

Largou o sonho nos barcos
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.

E quando o seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
só ficou tranqüilidade
na linha daquele além.
Guardada na claridade
do olhar



Fontes:
http://omni.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/natalia.correia.html
http://www.lumiarte.com/luardeoutono/nataliacorreia.html
http://www.getty-images.com/source/home/home.aspx

Sonhado por Marcia, 00:29
Sonharam:




 

A todos que aqui sonharam e continuam sonhando, um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.
:: Sonhando I ::
Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo... Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranqüila de um açude...
Mário Quintana

:: :: :: ::

:: Sonhando II ::
Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.

Affonso Romano de Sant'Anna

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