Quinta-feira, Fevereiro
03, 2005
Ela usa o amor, o universo, o erotismo e a forma
da mulher como prosa e poesia. A sua obra é marcada
por uma forte tendência de experimentação e exploração
das potencialidades da linguagem, numa escrita feita
de forma intensa e frequentemente sensual.
Joelho
Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho
Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio
Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo
Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo
Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo
E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento
Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas
Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.
Nascida em Lisboa, em 1937, Maria
Teresa Horta começou a ler aos cinco anos
de idade. Segundo ela, o livro "As meninas
exemplares", da Condessa de Ségur, foi uma
espécie de janela que lhe abriu novas perspectivas
sobre o mundo. Em vez de aprender as regras da
etiqueta social, aprendeu a questionar o que via
e lia.
Morrer
de amor
Morrer de amor
ao pé da tua boca
Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso
Cerca de 10 anos mais tarde, através
do livro de Simone de Beauvoir, "O Segundo Sexo",
Maria Teresa Horta despertou para a discriminação
que afetava as mulheres portuguesas. Apesar de não
entender algumas coisas que a autora queria dizer,
percebeu nas suas palavras que as mulheres eram
seres humanos capazes e que tinham as mesmas potencialidades
que os homens. Após a leitura do livro, ela resolveu
que tudo o que fizesse iria ter por base as mulheres
e a luta pela igualdade de direitos.
Gozo II
Desvia o mar a rota
do calor
e cede a areia ao peso
desta rocha
Que ao corpo grosso
do sol
do meu corpo
abro-lhe baixo a fenda de uma porta
e logo o ventre se curva
e adormece
e logo as mãos se fecham
e encaminham
e logo a boca rasga
e entontece
nos meus flancos
a faca e a frescura
daquilo que se abre e desfalece
enquanto tece o espasmo o seu disfarce
e uso do gozo
a sua melhor parte
Maria Teresa Horta estudou na Faculdade
de Letras de Lisboa e pertenceu ao movimento literário
"Poesia 61" com outros poetas da sua geração.
Colaborou em vários jornais e revistas e participou
ativamente dos movimentos políticos e de emancipação
da mulher que marcaram, em particular, as décadas
de 60 e 70 do século XX.
Fogo
posto
Tu serás o princípio
e o meu fim
Pegando mal de amor
em chama alta
Vulcão em desacerto
e fogo posto
Tão grande que ele é
e já me mata
Em 1960 estreou seu livro de poesias,
intitulado "Espelho Inicial". Nos anos seguintes,
foram publicados, entre outros, "Tatuagem",
em «Poesia 61», "Cidadelas Submersas", "Verão
Coincidente", "Amor Habitado", "Candelabro",
"Jardim de Inverno", "Cronista Não É Recado", "Candelabro",
2ª edição, "Educação Sentimental", "Poesia Completa
I e II", "Destino", "Só de Amor" e as obras
de ficção "Ambas as Mãos sobre o Corpo", "Ana",
"A Educação Sentimental", "Os Anjos", "Ema", "O
Transfer", "Rosa Sangrenta", "Antologia Política",
"A Paixão Segundo Constança H." e "O Destino".
Segredo
Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
Nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
Nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
Em "Minha Senhora de Mim",
publicado em 1970, pela primeira vez na história
da literatura portuguesa, uma mulher falou do desejo
feminino pelo corpo do homem. Antes, era apenas
permitido aos escritores do sexo masculino falar
do corpo da mulher como um objeto sexual. Se havia
alguma escritora que se aventurava na literatura
erótica, optava por um pseudônimo para não ser recriminada.
O livro causou tanta polêmica que Maria Teresa Horta
chegou a ser espancada na rua e também foi obrigada
a mudar o registo do seu telefone por causa dos
telefonemas insultuosos. Na época trabalhava no
jornal "A Capital" como jornalista e teve
que deixar de assinar os seus textos.
Minha
senhora de mim
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços
Comigo me desavim
minha senhora
de mim
recusando o que é desfeito
no interior do meu peito
Em 1999, lançou a obra "A Mãe
na Literatura Portuguesa", constituída por uma
longa introdução da autora, depoimentos, uma antologia
de poesia e prosa de escritores portugueses e no
fim, um conjunto de quadras e provérbios, tudo em
torno da temática da mãe.
Os silêncios da fala
São tantos
os silêncios da fala
De sede
De saliva
De suor
Silêncios de silex
no corpo do silêncio
Silêncios de vento
de mar
e de torpor
De amor
Depois, há as jarras
com rosas de silêncio
Os gemidos
nas camas
As ancas
O sabor
O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor
A amizade de Maria Teresa Horta,
Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa deu
origem às "Novas Cartas Portuguesas", que
contestavam os padrões morais da época, partindo
das cartas de Sóror Mariana Alcoforado, uma mulher
que foi obrigada pelo pai a entrar para um convento,
mas que deixou-se dominar por uma paixão cega e
inflamada, escrevendo lindíssimas cartas ao seu
amor. Na obra foram ressaltadas, a injustiça e a
opressão sentidas pelas mulheres, assim como um
desejo de libertação sexual, impregnando as páginas
de uma forte carga erótica. Esse livro, editado
por Natália Correia, provocou escândalo pela sua
atitude assumidamente feminista e ousada para a
época, dando origem a um processo em tribunal e
a apreensão de muitos exemplares pelas autoridades
policiais. As três foram a julgamento num processo
que se arrastou por alguns anos. Após o 25 de Abril
de 1974, as "três Marias", como então ficaram
conhecidas as escritoras, foram absolvidas, permanecendo,
desde então, como símbolos da luta pela emancipação
feminina.
Desperta-me de noite
Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito
pois suspeitas
que com ele me visto e me
defendo
É raiva
então ciúme
a tua boca
é dor e não
queixume
a tua espada
é rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas
E tomas-me de foça
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse
E queres-me de amor
e dás-me o tempo
a trégua
a entrega
e o disfarce
E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuires de mim o que não sabes
Desperta-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo
e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.
Invocação ao amor
Pedir-te a sensação
a água
o travo
aquele odor antigo
de uma parede
branca
Pedir-te da vertigem
a certeza
que tens nos olhos quando
me desejas
Pedir-te
sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva
na garganta
pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios
na tua cara
Pedir-te que me olhes e me aceites
me percorras
me invadas
me pressintas
Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas
sobre a língua
Meu ciúme
meu perfil
minha fome
meu sossego
minha paz
minha aventura
Meu sabor
minha avidez
saciedade
minha noite
minha angústia
meu costume
Fontes:
http://utopia.com.br/poesia/
http://www.leme.pt/biografias/portugal/letras/teresahorta.html
http://www.getty-images.com/source/home/home.aspx
http://www.thousandimages.com/
Sonhado por Marcia,
00:28
Sonharam:
Domingo, Janeiro 16,
2005
Sua poesia caracteriza-se por um lirismo de fundo romântico,
onde a morte, a perda e a ausência são temas principais.
A divisão entre o interesse pelo moderno e o apego ao
passado produziu uma figura polêmica, odiada por muitos
e adorada por outros tantos, que sabiam compreender
sua complexidade.
Núpcias II
Ouço o vento do mar nas pedras
Ouço o vento crescer na floresta
Ouço tua voz ao meu lado.
Sinto o calor das tuas mãos nas minhas
Sinto o gosto dos teus cabelos nos meus lábios
Sinto que os teus olhos cerrados caíram sobre distâncias
sem termo.
Do céu - que importa! - da terra ou da mata o Amor
chegou
Veio com os astros ou com o vento.
Veio de longe ou de nós mesmos onde estava escondido?
Chegou o Amor!
E eu vejo os teus seios se iluminarem!
E eu vejo a vida se formar no teu corpo!
As estrelas estão caindo sobre nós.
Augusto Frederico Schmidt nasceu em 18 de abril
de 1906, na cidade do Rio de Janeiro. O êxito e a polêmica
marcaram sua trajetória em todas as (muitas) atividades
que exerceu desde os 14 anos, quando começou a trabalhar
como caixeiro viajante. Foi também balconista e fabricante
de aguardente e álcool. Poeta, ensaísta e cronista,
levou uma vida dividida entre a política e a dedicação
ao comércio.
Quando
Quando repousarás em mim como a poesia nos grandes
poetas
Como a pureza na alma dos santos
Como os pássaros nas torres das igrejas?
Quando repousará o teu amor no meu amor?
Quando penetrará tua luz nos meus olhos vazios,
Como o sol nos pântanos
Como o sorriso nos tristes
Como o Cristo no mundo em pecado?
Em 1924 Schmidt foi para São Paulo, onde travou amizade
com intelectuais paulistas. De volta ao Rio, decidiu
comprar a Livraria Católica e transformá-la na Livraria
Schmidt Editora. Paralelamente à produção poética ele
fez fama como editor. Foi o responsável por lançar alguns
dos maiores nomes da literatura brasileira, como Jorge
Amado, Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, João Cabral
de Melo Neto e Gilberto Freyre.
Epigrama II
A noite cega
Rolou
Como um bálsamo.
E um perfume
Antigo de amor
Penetrou no ermo,
Ressuscitando formas
Longínquas.
Em 1928 publicou as obras poéticas "Canto do Brasileiro"
e "Cantos do Liberto". Nos anos seguintes vieram
"Navio Perdido" (1929) e "Pássaro cego"
(1930). Em 1931 com a Editora Schmidt, publicou obras
importantes como "Caetés" de Graciliano Ramos
e "Casa Grande & Senzala" de Gilberto Freyre.
Nessa mesma época publicou também "Desaparição da
amada", "Canto da noite" (1934) e "Estrela
Solitária" (1940). Entre 1948 e 1964 foram publicados
seus livros "O Galo Branco", "Paisagens e
Seres", "Mensagem aos Poetas Novos", "O Caminho do Frio"
"Discurso aos Jovens Brasileiros", "As Florestas", "Antologia
de Prosa" e "Prelúdio à Revolução". Em 1995
foi lançado "Poesia Completa", reunindo sua obra.
A rosa canta
A rosa fresca,
Nua, serena,
Leve, completa,
É um abismo.
A rosa rubra,
Quieta, sozinha,
Brilha no sonho
Como uma estrela.
A rosa viva,
Com seu perfume,
Queima os meus olhos.
A rosa canta:
Sua voz tem cheiro
De amor e morte.
Schmidt também empregou seu talento na atividade jornalística.
"Antologia de Prosa" é uma seleção de seu trabalho
como cronista em jornais como "A tarde", "Correio
da manhã" e "O Globo", em que enriqueceu
passagens corriqueiras do cotidiano do Rio de Janeiro
com o mesmo tom lírico que marcou seus poemas.
O Grande Momento
A varanda era batida pelos ventos do mar
As árvores tinham flores que desciam para a
morte, com a lentidão das lágrimas.
Veleiros seguiam para crepúsculos com as
asas cansadas e brancas se despedindo,
O tempo fugia com uma doçura jamais de
novo experimentada
Mas o grande momento era quando os meus
olhos conseguiam
entrar pela noite fresca dos seus olhos...
Empreendedor, também foi pioneiro ao apostar na formação
de uma cadeia de supermercados, ajudando a criar, na
década de 50, a Distribuidora de Comestíveis ou Disco,
o que incomodou outros poetas pelo fato de ser um homem
rico.
Ouço uma fonte
Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.
É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.
É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.
É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.
É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.
É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!
Outro fator que incomodou muito a comunidade intelectual
e despertou inimizades, foi a faceta política de Schmidt.
Além da proximidade a Getúlio Vargas, ele foi uma das
mais influentes figuras do governo de Juscelino Kubitschek.
Uma forte antipatia intelectual contra Schmidt surgiu
por seu diálogo com figuras da direita, principalmente
quando apoiou a deposição de Jango e o golpe de 64.
Porém, com o tempo, o poeta tornou-se forte opositor
do militares. De 1956 a 1966 Augusto Frederico Schmidt
foi representante do Brasil na Operação Pan-Americana,
delegado do Brasil na ONU, e embaixador na Comunidade
Econômica Européia.
Pequena igreja
Eu queria louvar-te, pequena e humilde igreja
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.
Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio
de rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas
solenes
e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus
sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir
para a
grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio
de flores!
Augusto Frederico Schmidt faleceu no Rio de Janeiro,
em 8 de fevereiro de 1965.
"Poeta de inspiração e de extrema liberdade de expressão,
jamais se prendeu a uma escola, a uma disciplina, a
uma poética. Que desejaram exprimir os seus Cantos (do
Brasileiro, do Liberto, ou da Noite) a não ser a solidão
e a morte? Uma poesia que é toda intuição e sensibilidade.
Mas uma poesia em transição contínua, interrogativa,
insatisfeita, insaciável." (Antônio Carlos Villaça)
"Já estava tardando um poeta que reagisse contra
os processos e o estado do espírito da geração modernista.
Alguém para quebrar os clichês gastos." (Manuel
Bandeira)
Fontes:
http://www.secrel.com.br/jpoesia/afs.html
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/poesia/home/index.cfm
http://www.getty-images.com/source/home/home.aspx
http://www.thousandimages.com/
Sonhado por Marcia,
17:27
Sonharam:
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Viagem de volta ::
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Utiliza
o poro aberto
para deixar entrar o pólen certo;
a veia perfurada,
para fazer sair a coisa errada;
o pulmão dilatado,
para trocar o ar que está viciado.
Aproveito esse momento semprevivo
e te convido a beber em minha taça,
onde alegria borbulha, e é de graça,
onde poesia se faz sem aditivo.
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Flora
Figueiredo
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prematuridade ::
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na
tarde longa de dezembro
antes que se acendam
as luzes nas praças
e nas árvores
a lua surge - quase cheia - no céu azul
às quatro e meia
e atônita meio a tanta claridade
empalidece
hesita
com a tênue sensação
de se ter adiantado.
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Márcia
Maia
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Agradecimentos ::
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