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Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005



Lírica e social, a sua poesia emociona os corações enamorados, fala à alma de toda gente porque traduz seus desejos, angústias e esperanças, e, ao mesmo tempo, indica rumos e faz-se intérprete das reivindicações de sua época. Foi um dos poetas mais lido, e talvez por isto mesmo, o mais combatido do Brasil. Hoje, completamente maltratado pelo esquecimento e pela crítica.


O resto é silêncio

E então ficamos os dois em silêncio,
tão quietos como dois pássaros na sombra,
recolhidos ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite,
dois caminhos que se juntam
num mesmo caminho...

Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso,
e a quietude tamanha
que qualquer palavra
bateria estranha
como um viajante, altas horas...
Nada há mais a dizer,
depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...


José Guilherme de Araujo Jorge nasceu em 20 de maio de 1914, na Vila de Tarauacá, no Acre, em Rio Branco, onde passou sua infância e fez o curso primário no Grupo Escolar 7 de Setembro. No Rio de Janeiro, realizou curso secundário nos colégios Anglo-Americano e Pedro II.


Gostaria



Queria compartilhar contigo os momentos mais simples
e sem importância.
Por exemplo:
sair contigo para passear, sentir-te apoiada em meu braço,
ver-te feliz ao meu lado
alheia a todo mundo que passasse.

Gostaria de sair contigo para ouvir música, ir ao cinema,
tomar sorvete, sentar num restaurante
diante do mar,
olhar as coisas, olhar a vida, olhar o mundo
despreocupadamente,
e conversar sobre "nós" - esse "nós" clandestino
que se divide em "tu e eu"
quando chega gente.

Encontrar alguém que perguntasse: "Então, como vão vocês?"
E me chamasse pelo nome, e te chamasse pelo nome
e juntasse assim nossos nomes, naturalmente,
na mesma preocupação.

Gostaria de poder de repente te dizer:
Vamos voltar pra casa...
(Como se felicidade pudesse ser uma coisa
a que tivéssemos direito como toda gente)
Queria partilhar contigo os momentos menores
da minha vida,
porque os grandes já são teus.


Colaborou desde menino na imprensa estudantil. Em 1931, viu publicado seu poema "Ri Palhaço, Ri" no "Correio da Manhã", depois transcrito no "Almanaque Bertand" de 1932. Entretanto, esse como outros trabalhos desse tempo, não foram incluídos em seus livros. Colaborou também no jornal "A Nação"; nas revistas "Carioca", "Vamos Ler" etc. Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil.

A sós...



A sós
como duas gaivotas
na solidão do céu,
em pleno mar,
sonhando no ar...

A sós,
lado a lado, sem alarde,
como dois pássaros num alto ramo,
ao cair da tarde...

A sós
como duas mãos quando se procuram
e se encontram,
sem voz...

Como eu e tu
quando somos nós

a sós...



Com irrefreável vocação política, foi candidato a vários cargos públicos. Elegeu-se Deputado Federal em 1970 pela Guanabara, reelegendo-se já para o seu terceiro mandato em 1978 . Ocupou a vice-liderança do MDB e a presidência da Comissão de Comunicação na Câmara dos Deputados.


Explicação

Só isso: trouxeste sol e calor
quando fazia frio...
Agora, de novo
alguém para se querer
para se chamar
de querida.

Só isso: trouxeste uma flor
e fizeste crescer e desabrochar
neste ramo vazio
que era minha vida.



Em 1932, no Externato Colégio Pedro II, em memorável certame, foi escolhido o "Príncipe dos Poetas", sendo saudado na festa por Coelho Neto, "príncipe dos prosadores brasileiros" recebendo das mãos da poetisa Ana Amélia, presidente da Casa do Estudante, como prêmio e homenagem, um livro ofertado por Adalberto Oliveira, então "Príncipe da Poesia Brasileira".


Politicamente participou sempre das lutas anti-fascistas, como democrata e socialista. Lutou, ainda estudante, contra o "Estado Novo". Foi preso e perseguido várias vezes durante esse período. Deixou de ser orador de sua turma por estar detido na Vila Militar, sob as ordens do general Newton Cavalcanti, durante todo "estado de guerra" de 1937.


Faleceu em 27 de janeiro de 1987, no Rio de Janeiro, Capital.


Sonhado por Marcia, 00:31
Sonharam:




Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005




Ela usa o amor, o universo, o erotismo e a forma da mulher como prosa e poesia. A sua obra é marcada por uma forte tendência de experimentação e exploração das potencialidades da linguagem, numa escrita feita de forma intensa e frequentemente sensual.

Joelho



Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.


Nascida em Lisboa, em 1937, Maria Teresa Horta começou a ler aos cinco anos de idade. Segundo ela, o livro "As meninas exemplares", da Condessa de Ségur, foi uma espécie de janela que lhe abriu novas perspectivas sobre o mundo. Em vez de aprender as regras da etiqueta social, aprendeu a questionar o que via e lia.


Morrer de amor

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso


Cerca de 10 anos mais tarde, através do livro de Simone de Beauvoir, "O Segundo Sexo", Maria Teresa Horta despertou para a discriminação que afetava as mulheres portuguesas. Apesar de não entender algumas coisas que a autora queria dizer, percebeu nas suas palavras que as mulheres eram seres humanos capazes e que tinham as mesmas potencialidades que os homens. Após a leitura do livro, ela resolveu que tudo o que fizesse iria ter por base as mulheres e a luta pela igualdade de direitos.


Gozo II



Desvia o mar a rota
do calor
e cede a areia ao peso
desta rocha

Que ao corpo grosso
do sol
do meu corpo
abro-lhe baixo a fenda de uma porta

e logo o ventre se curva
e adormece

e logo as mãos se fecham
e encaminham

e logo a boca rasga
e entontece

nos meus flancos
a faca e a frescura
daquilo que se abre e desfalece
enquanto tece o espasmo o seu disfarce

e uso do gozo
a sua melhor parte


Maria Teresa Horta estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e pertenceu ao movimento literário "Poesia 61" com outros poetas da sua geração. Colaborou em vários jornais e revistas e participou ativamente dos movimentos políticos e de emancipação da mulher que marcaram, em particular, as décadas de 60 e 70 do século XX.


Fogo posto

Tu serás o princípio
e o meu fim

Pegando mal de amor
em chama alta

Vulcão em desacerto
e fogo posto

Tão grande que ele é
e já me mata

Em 1960 estreou seu livro de poesias, intitulado "Espelho Inicial". Nos anos seguintes, foram publicados, entre outros, "Tatuagem", em «Poesia 61», "Cidadelas Submersas", "Verão Coincidente", "Amor Habitado", "Candelabro", "Jardim de Inverno", "Cronista Não É Recado", "Candelabro", 2ª edição, "Educação Senti­mental", "Poesia Completa I e II", "Destino", "Só de Amor" e as obras de ficção "Ambas as Mãos sobre o Corpo", "Ana", "A Educação Sentimental", "Os Anjos", "Ema", "O Transfer", "Rosa Sangrenta", "Antologia Política", "A Paixão Segundo Constança H." e "O Destino".


Segredo



Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

Nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

Nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar


Em "Minha Senhora de Mim", publicado em 1970, pela primeira vez na história da literatura portuguesa, uma mulher falou do desejo feminino pelo corpo do homem. Antes, era apenas permitido aos escritores do sexo masculino falar do corpo da mulher como um objeto sexual. Se havia alguma escritora que se aventurava na literatura erótica, optava por um pseudônimo para não ser recriminada. O livro causou tanta polêmica que Maria Teresa Horta chegou a ser espancada na rua e também foi obrigada a mudar o registo do seu telefone por causa dos telefonemas insultuosos. Na época trabalhava no jornal "A Capital" como jornalista e teve que deixar de assinar os seus textos.


Minha senhora de mim

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito


Em 1999, lançou a obra "A Mãe na Literatura Portuguesa", constituída por uma longa introdução da autora, depoimentos, uma antologia de poesia e prosa de escritores portugueses e no fim, um conjunto de quadras e provérbios, tudo em torno da temática da mãe.


Os silêncios da fala



São tantos
os silêncios da fala

De sede
De saliva
De suor

Silêncios de silex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor


A amizade de Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa deu origem às "Novas Cartas Portuguesas", que contestavam os padrões morais da época, partindo das cartas de Sóror Mariana Alcoforado, uma mulher que foi obrigada pelo pai a entrar para um convento, mas que deixou-se dominar por uma paixão cega e inflamada, escrevendo lindíssimas cartas ao seu amor. Na obra foram ressaltadas, a injustiça e a opressão sentidas pelas mulheres, assim como um desejo de libertação sexual, impregnando as páginas de uma forte carga erótica. Esse livro, editado por Natália Correia, provocou escândalo pela sua atitude assumidamente feminista e ousada para a época, dando origem a um processo em tribunal e a apreensão de muitos exemplares pelas autoridades policiais. As três foram a julgamento num processo que se arrastou por alguns anos. Após o 25 de Abril de 1974, as "três Marias", como então ficaram conhecidas as escritoras, foram absolvidas, permanecendo, desde então, como símbolos da luta pela emancipação feminina.


Desperta-me de noite



Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

pois suspeitas

que com ele me visto e me
defendo

É raiva
então ciúme
a tua boca

é dor e não
queixume
a tua espada

é rede a tua língua
em sua teia

é vício as palavras
com que falas

E tomas-me de foça
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse

E queres-me de amor
e dás-me o tempo

a trégua
a entrega
e o disfarce

E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuires de mim o que não sabes

Desperta-me de noite
com o teu corpo

tiras-me do sono
onde resvalo

e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite

e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.



Invocação ao amor



Pedir-te a sensação
a água
o travo

aquele odor antigo
de uma parede
branca

Pedir-te da vertigem
a certeza
que tens nos olhos quando
me desejas

Pedir-te
sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva
na garganta

pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios
na tua cara

Pedir-te que me olhes e me aceites
me percorras
me invadas
me pressintas

Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas
sobre a língua

Meu ciúme
meu perfil
minha fome

meu sossego
minha paz
minha aventura

Meu sabor
minha avidez
saciedade

minha noite
minha angústia
meu costume


Fontes:
http://utopia.com.br/poesia/
http://www.leme.pt/biografias/portugal/letras/teresahorta.html
http://www.getty-images.com/source/home/home.aspx
http://www.thousandimages.com/

Sonhado por Marcia, 00:28
Sonharam:

:: Viagem de volta ::
Utiliza o poro aberto
para deixar entrar o pólen certo;
a veia perfurada,
para fazer sair a coisa errada;
o pulmão dilatado,
para trocar o ar que está viciado.
Aproveito esse momento semprevivo
e te convido a beber em minha taça,
onde alegria borbulha, e é de graça,
onde poesia se faz sem aditivo.
Flora Figueiredo

:: :: :: ::

:: prematuridade ::
na tarde longa de dezembro
antes que se acendam
as luzes nas praças
e nas árvores
a lua surge - quase cheia - no céu azul
às quatro e meia
e atônita meio a tanta claridade
empalidece
hesita
com a tênue sensação
de se ter adiantado.
Márcia Maia

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