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Quinta-feira, Março 31, 2005



Dia 17 de março ela completaria 60 anos. Com uma das vozes mais marcantes da música popular brasileira, era uma verdadeira intérprete. Ouvir seu canto é suficiente para sentir toda a intensidade da letra de uma música e constatar a perfeita alquimia entre técnica e emoção. Apesar do temperamento difícil e muitas vezes acusada de ser arrogante e antipática, os amigos não poupavam elogios à sua generosidade e companheirismo. Na realidade ninguém nunca conseguiu definí-la, nem mesmo ela. Polêmica, sim, mas fora dos palcos, porque em cima deles era uma unanimidade. Fascinava pela inteligência, força, garra, brilho e luz, além do sorriso, o gargalhar apertando os olhos e escancarando as gengivas.



Elis Regina Carvalho Costa nasceu em 17 de março de 1945, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul e aos 11 anos apresentou-se na Rádio Farroupilha, de Porto Alegre. De cara ela foi a campeã do programa de calouros e passou a fazer parte do elenco fixo do Clube do Guri. No ano seguinte conquistou seu primeiro contrato profissional, com a Rádio Gaúcha, para se apresentar no Programa Maurício Sobrinho de Maurício Sirotsky Sobrinho.


Em 1959 assinou o primeiro contrato na Rádio Gaúcha. Um ano depois, gravou o seu primeiro compacto simples, com duas canções pela Continental: "Dá Sorte" e "Sonhando". A mesma gravadora em 1961 lançou seu LP, "Viva a Brotolândia", com calipsos e rocks.

A "pimentinha", apelido dado por Vinícius de Moraes, era uma palavra que exprimia a miudeza física e personalidade explosiva. Declarações bombásticas eram comuns nas entrevistas. Falou mal da Tropicália de Caetano Veloso e Gilberto Gil e mais tarde gravou músicas dos dois. Desprezou a bossa nova do marido Ronaldo Bôscoli, mas gravou com Tom Jobim e Roberto Menescal os melhores discos de sua carreira.

Elis tinha a perfeição como meta. Exigia muito de seus músicos e compositores, de sua gravadora e de sua voz. Foi a primeira pessoa que inscreveu sua voz como instrumento, na Ordem dos Músicos do Brasil. E era. Sua voz soava como instrumento afinado, não perdendo, nem por um minuto, o carisma e a emoção em cada canção


Em abril de 1964, Elis transferiu-se definitivamente para o Rio de Janeiro, onde assinou contrato de seis meses com a extinta TV Rio. Começou a se apresentar na boate Bottle's, no Beco das Garrafas, em Copacabana, uma rua estreita cheia de bares onde se ouvia muita Bossa Nova.

Em fevereiro de 1965, lançou um compacto pela Philips que incluía "Menino das laranjas" (Teo de Barros) e "Sou sem paz" (Adilson Godói). Em seguida, também na Philips, gravou o LP "Samba eu canto assim".


Ela começava a ficar famosa no meio musical e acabou sendo escolhida por Vinícius de Moraes e Edu Lobo para defender a música Arrastão, no I Festival de música brasileira da TV Excelsior. Com a célebre interpretação, ganhou o prêmio "Berimbau de Ouro". Seus gestos exagerados no palco lhe renderam os apelidos de "heliscópetero" e "hélice regina". A cantora enterrava definitivamente o movimento da Bossa Nova e inaugurava a música moderna, a chamada MPB. Foi a primeira grande vitória de Elis.

Com o sucesso de "Arrastão", Elis passou a ser conhecida nacionalmente. Depois, se apresentou com Jair Rodrigues e o Jongo Trio em show produzido por Walter Silva no Teatro Paramount, em São Paulo. Com o sucesso do show foi lançado o LP "Dois na bossa", pela Philips, que bateu todos os recordes de vendagem da música brasileira, naquela época, com mais de um milhão de cópias vendidas.


A dupla Elis e Jair, acompanhada pelo Zimbo Trio, ganhou o programa "O Fino da Bossa", na TV Record, lançando muitos sucessos, entre os eles "Canto de Ossanha" (Vinícius de Morais e Baden Powell), "Louvação" (Gilberto Gil e Torquato Neto) e "Lunik 9" (Gilberto Gil). Elis encontrou em Jair a popularidade e a espontaneidade que precisava e no Zimbo Trio, a tradução de tudo que ela pensava e sonhava para sua música.

Em outubro de 1966, interpretou "Ensaio geral" (Gilberto Gil), no II Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, sendo classificada no quinto lugar. O programa "O Fino da Bossa" saiu do ar em fins de 1967.


Aos 22 anos, Elis casou-se com o seu antigo rival dos tempos do Beco das Garrafas, o jornalista e um dos criadores da Bossa Nova, Ronaldo Bôscoli, um casamento que lhe deu um filho, João Marcello. Após cinco anos de um conturbado relacionamento, permeado por várias separações e reconciliações, o casal se separou definitivamente.

No início de 1968, viajou para a Europa, apresentando-se na França, Holanda, Suíça, Bélgica e Suécia, onde gravou um LP com o gaitista e guitarrista belga Toots Thielemans, "Elis & Toots Made in Sweden". Fez shows ainda em Londres, Inglaterra, onde gravou, na Philips, o LP "Elis in London". De volta ao Brasil, estreou no show "Elis, Miele e... Bôscoli", no Rio de Janeiro.


Apresentou-se no MIDEM, em Cannes, França, cantando "Upa Neguinho" (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri), um de seus maiores êxitos. Após exibição no Olympia, de Paris, França, retornou ao Brasil, passando a fazer na televisão o programa "Elis Studio". Em junho, obteve o primeiro lugar na 1ª Bienal do Samba, outro festival promovido pela Record, interpretando a música "Lapinha" (Baden Powell e Paulo César Pinheiro). Elis se apresentou eufórica e levantou a platéia que não parava de gritar seu nome.

Com uma visão profissional privilegiada e uma capacidade incrível de descobrir novos talentos, Elis lançou grandes nomes da música no Pais, entre eles Milton Nascimento, João Bosco, Aldir Blanc, Ivan Lins, Renato Teixeira, Ivan Lins, Tavito, Zé Rodrix e Belchior.




Em abril de 1970, iniciou temporada na cervejaria Canecão, no Rio de Janeiro. Em seguida, fez grande sucesso com o lançamento de "Madalena" (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Sousa), e, em novembro, a TV Globo estreou o programa "Som Livre Exportação", comandado por ela e Ivan Lins e que ficou no ar até o início de 1971, sendo substituído pelo programa mensal "Elis Especial".

No ano de 1972, Elis redescobre o amor nos braços do músico César Camargo Mariano. A união durou nove anos e gerou os filhos Pedro Mariano e Maria Rita. Segundo amigos, era uma união perfeita, tanto na vida pessoal, quanto no palco. César Camargo Mariano, assumiu a direção musical dos discos da cantora. O primeiro da parceria, chamado "Elis", lançou grandes sucessos como "Atrás da Porta", "Casa no Campo", "Bala com Bala" e "Águas de Março".


No início de 1974, gravou, com Tom Jobim, em Los Angeles, o histórico álbum "Elis & Tom". No mesmo ano gravou o LP "Elis", com arranjos de César Camargo Mariano. 0 disco incluiu, entre outras, "O Mestre-Sala dos Mares" e "Dois pra lá dois pra cá" (João Bosco e Aldir Blanc), e "Conversando no bar" e "Ponta de areia" (Milton Nascimento e Fernando Brant).

O ano de 1975 chegou trazendo Pedro para Elis, filho de César Camargo e a estréia do show "Falso Brilhante", uma mistura de canto, dança e teatro. O espetáculo obteve enorme sucesso de público e crítica e lançou mais um compositor: Belchior, de quem também gravou "Como nossos pais". O show permaneceu quatorze meses em cartaz, somente em São Paulo. No ano seguinte, lançou o LP "Falso brilhante" (Polygram), tendo como um dos destaques "Cartomante" (Ivan Lins e Vítor Martins).


Em 1978 o show "Transversal do Tempo" estreiou em Porto Alegre, repetindo a trajetória de sucesso. O show foi apresentando nas principais capitais do Brasil, além de Roma, Milão, Paris, Lisboa e Barcelona e lhe rendeu o LP "Transversal do tempo" (Polygram), com o sucesso "Morro velho" (Milton Nascimento e Fernando Brant).

Em 1979 atingiu estrondoso sucesso ao lançar "Elis especial" e "Elis, essa mulher", incluindo "O Bêbado e o Equilibrista" (João Bosco e Aldir Blanc). Na música Elis cantou a anistia. Ainda nesse ano, no Festival de Jazz de Montreux, Suíça. foi aplaudida por quase 10 minutos. voltando várias vezes ao palco para cantar novamente Upa Neguinho, Maria Maria e Madalena. O público não deixava a cantora sair de cena. Elis ainda voltou ao palco para dividir a cena com Hermeto Pascoal, para deleite do público do festival. No ano seguinte, lançou o show "Saudades do Brasil", outro sucesso da cantora.


Em 1980, uma das apresentações que mais emocionou o público até hoje. Elis no especial da TV Globo, dirigida por Daniel Filho, não segurou as lágrimas e chorou ao cantar "Atrás de Porta". Muitos consideraram uma resposta aos que acusavam a cantora de ser técnica demais.

Em 1981 separou-se de César Camargo Mariano. No mesmo ano obteve enorme êxito com seu último show "Trem Azul", que daria origem ao disco com a gravação ao vivo do espetáculo. O texto de abertura do show, parecia anunciar a despedida de Elis: "Agora eu sou uma estrela".

Separada, Elis começou a namorar o advogado Samuel MacDowel. Com ele a vida permitiu que o romance durasse só seis meses. Elis se orgulhava de conviver com um homem com quem poderia competir, pois Samuel não era do meio artístico. Advogado que cuidava dos negócios de Elis, eles se conheciam há aproximadamente sete anos.

No dia 19 janeiro de 1982, aos 36 anos, Elis Regina morreu em São Paulo, de parada cardíaca, em conseqüência de uma mistura de álcool e drogas. Seu corpo foi velado no Teatro Bandeirantes, em São Paulo. Elis usava a camiseta censurada no show "Saudade do Brasil", dois anos antes: a bandeira brasileira, com seu nome no lugar de "Ordem e Progresso". O cortejo na manhã seguinte, parou a cidade de São Paulo. Todos queriam dar o último adeus a Elis Regina.



Em 1994 foi lançado o CD triplo Elis Regina no fino da bossa. No ano seguinte, foi a homenageada no VIII Prêmio Sharp de Música, no Teatro Municipal, do Rio de Janeiro, com a apresentação de seus filhos Pedro Camargo Mariano e João Marcelo Boscoli.

Sobre os filhos João Marcelo, Pedro Mariano e Maria Rita, todos são músicos atualmente. Maria Rita, cuja estréia ocorreu em 2002, entende que a semelhança com sua mãe e a influência no seu trabalho são genéticas e que a comparação com Elis é inevitável e natural. Maria Rita foi a grande vencedora brasileira do Grammy Latino 2004. Ela, que concorria em quatro categorias da premiação, por seu álbum de estréia, ganhou o prêmio de revelação do ano, o troféu de melhor disco de MPB e ainda recebeu, em nome de Milton Nascimento, o prêmio de melhor música brasileira, por "A Festa", composta especialmente para ela.




Alguns depoimentos:

"Ao mesmo tempo que era pimenta, Elis era doce. Foi a única artista que, na época, peitou as autoridades e foi me visitar no Hipódromo Feminino, onde eu estava presa numa cela com outras 10 mulheres, e grávida do meu primeiro filho. Até aquele momento, Elis jamais tinha conversado comigo, ela era da turma que não gostava dos tropicalistas. Elis tinha isso. Diante de qualquer tipo de injustiça, lá ia ela defender com unhas e dentes. Nessas horas, baixava uma mãezona braba que roda a baiana legal. Depois desse evento, ficamos muito amigas, de uma viver na casa da outra e se telefonar diariamente.
Ela me chamava carinhosamente de Maria Rita e, quando nasceu sua filha mais nova, tomei um susto: "Agora, Maria Rita é minha filha e você será Rita Maria"." (Rita Lee)

"Elis dizia que, depois dela, a melhor cantora era eu. Embora não nos víssemos constantemente, tínhamos uma relação muito afetuosa. Elis era muito carinhosa comigo e me ligava sempre nos momentos mais difíceis - como na época em que eu estreei o show "Fantasia" e recebi uma enxurrada de críticas negativas. Ela ligou para me dar apoio. Ela era surpreendente e, por incrível que pareça, uma pessoa muito tímida. Eu lembro que chamei Elis para cantar comigo no especial da Globo (no programa da Gal, MARIA DA GRAÇA COSTA PENNA BURGOS, pela série Grandes Nomes, em 1981).
Ela nem estava no Brasil mas aceitou o convite. Ficou animadíssima. No show, enquanto cantávamos, Elis não conseguia olhar para o meu rosto. Eu disse, carinhosamente: Elis, olha pra mim. Quero ver teu olho... E ela: Não, eu não vou olhar. Sabe por que? Porque eu sou vesga, você vai rir... " (Gal Costa)


"Elis é uma escola, uma rainha, uma deusa, atemporal e inigualável. Intérprete como ela não aparecerá. Ela foi a beleza, a briga, o respeito e, principalmente, a maior descobridora e lançadora de novos compositores, em toda história da música brasileira.
Elis sempre foi minha musa maior. Sempre que eu fazia música, era pensando em sua voz. Muito mais até que em mim. Intérprete como ela não aparecerá.
Um dia ela disse na TV que morria de medo quando gravava minhas músicas, porque eu nunca dizia nada quando ouvia. Mas dizer o quê? " A música era dela. Ainda hoje me emociono, choro e sinto saudades intermináveis"." (Mílton Nascimento)

Fontes:
http://www.trama.com.br/elis_tom/index.html
http://veja.abril.com.br/idade/estacao/elis_regina/biografia.html#
http://soarespd.sites.uol.com.br/index.htm
http://saudadesdobrasil.zip.net/


Sonhado por Marcia, 21:41
Sonharam:




Quinta-feira, Março 17, 2005

Queridos amigos, depois de um maravilhoso período de férias, estamos de volta. Muito obrigada pelo carinho demonstrado através dos e-mails e comentários. Estou com saudades de todos vocês e, aos poucos estarei visitando os blogs e conferindo as novidades que devem ser muitas.

Deixo também a minha saudação especial a uma das mais importantes intérpretes da música popular brasileira, que, nesta data, estaria completando sessenta anos...nossa inesquecível Elis Regina. Brevemente o Lendo e Sonhando estará publicando um belo post, em homenagem a essa cantora que marcou a história da música popular brasileira.

Bem, mas vamos ao post de hoje...espero que gostem.




Lírica e social, sua poesia emociona os corações enamorados, fala à alma de toda gente porque traduz seus desejos, angústias e esperanças, e, ao mesmo tempo, indica rumos e faz-se intérprete das reivindicações de sua época. Foi conhecido como o Poeta do Povo e da Mocidade, pela sua mensagem social e política e por sua obra lírica, impregnada de romantismo moderno, mas as vezes, dramático.


A sós...



A sós
como duas gaivotas
na solidão do céu,
em pleno mar,
sonhando no ar...

A sós,
lado a lado, sem alarde,
como dois pássaros num alto ramo,
ao cair da tarde...

A sós
como duas mãos quando se procuram
e se encontram,
sem voz...

Como eu e tu
quando somos nós

a sós...


José Guilherme de Araujo Jorge, nasceu em 20 de maio de 1914, na Vila de Tarauacá, Estado do Acre. Passou sua infância no Acre, em Rio Branco, onde fez o curso primário no Grupo Escolar 7 de Setembro. Colaborou desde menino na imprensa estudantil. No Rio de Janeiro, realizou curso secundário nos colégios Anglo-Americano e Pedro II. Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil.


O resto é silêncio

E então ficamos os dois em silêncio,
tão quietos como dois pássaros na sombra,
recolhidos ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite,
dois caminhos que se juntam
num mesmo caminho...

Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso,
e a quietude tamanha
que qualquer palavra
bateria estranha
como um viajante, altas horas...
Nada há mais a dizer,
depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...


Em 1931, J. G. de Araujo Jorge viu publicado seu poema "Ri Palhaço, Ri" no "Correio da Manhã", depois transcrito no "Almanaque Bertand" de 1932. Entretanto, esse como outros trabalhos desse tempo, não foram incluídos em seus livros. Colaborou também no jornal "A Nação"; nas revistas "Carioca", "Vamos Ler" etc...


Meu Coração

Eu tenho um coração um século atrasado
ainda vive a sonhar... ainda sonha, a sofrer...
acredita que o mundo é um castelo encantado
e, criança, vive a rir, batendo de prazer...
Eu tenho um coração - um mísero coitado
que um dia há de por fim, o mundo compreender...
- é um poeta, um sonhador, um pobre esperançado
que habita no meu peito e enche de sons meu ser...

Quando tudo é matéria e é sombra - ele é uma luz
ainda crê na ilusão, no amor, na fantasia
sabe todos de cor os versos que compus...

Deus pôs-me um coração com certeza enganado:
- e é por isso talvez, que ainda faço poesia
lembrando um sonhador do século passado!


Em 1932, no Externato Colégio Pedro II, em memorável certame, ele foi escolhido o "Príncipe dos Poetas", sendo saudado na festa por Coelho Neto, "príncipe dos prosadores brasileiros" recebendo das mãos da poetisa Ana Amélia, presidente da Casa do Estudante, como prêmio e homenagem, um livro ofertado por Adalberto Oliveira, então "Príncipe da Poesia Brasileira".


Explicação



Só isso: trouxeste sol e calor
quando fazia frio...
Agora, de novo
alguém para se querer
para se chamar
de querida.

Só isso: trouxeste uma flor
e fizeste crescer e desabrochar
neste ramo vazio
que era minha vida.


Na Faculdade de Direito J. G. de Araujo Jorge foi o fundador e o 1º Presidente da Academia de Letras, que teve como patrono Afrânio Peixoto, então professor de Medicina Legal.
Também foi locutor e redator de programas radiofônicos, atuando nas Rádios "Nacional", "Cruzeiro do Sul", "Tupi" e "Eldorado". Em 1965, era professor de História e Literatura, do Colégio Pedro II.


Seria mesmo a vida?

Agora que nos encontramos,
de repente compreendemos
que estávamos sozinhos...
Que importa o que vivemos?
Que importa o que passamos?
Seria mesmo vida, a vida que levamos
por diferentes caminhos?

Agora que nos encontramos
que te quero e me queres
com uma força jamais
pressentida...

Parece incrível que eu já tenha
falado de amor a outras mulheres
e que antes de mim
pudesse ter havido
algum amor em tua vida!


Quanto a sua vocação política, J. G. de Araujo Jorge foi candidato a vários cargos públicos. Elegeu-se Deputado Federal em 1970 pela Guanabara, reelegendo-se já para o seu terceiro mandato em 1978. Ocupou a vice-liderança do MDB e a presidência da Comissão de Comunicação na Câmara dos Deputados.


Bom dia, amigo Sol

Bom dia, amigo Sol! A casa é tua!
As bandas da janela abre e escancara,
- deixa que entre a manhã sonora e clara
que anda lá fora alegre pela rua!

Entre! Vem surpreendê-la quase nua,
doura-lhe as formas de beleza rara...
Na intimidade em que a deixei, repara
Que a sua carne é branca como a Lua!

Bom dia, amigo Sol! É esse o meu ninho...
Que não repares no seu desalinho
nem no ar cheio de sombras, de cansaços...

Entra! Só tu possuis esse direito,
- de surpreendê-la, quente dos meus braços,
no aconchego feliz do nosso leito!...


Participou sempre das lutas anti-fascistas, como democrata e socialista. Lutou, ainda estudante, contra o "Estado Novo". Foi preso e perseguido várias vezes durante esse período. Deixou de ser orador de sua turma por estar detido na Vila Militar, sob as ordens do general Newton Cavalcanti, durante todo "estado de guerra" de 1937.


Teus seios



Teus seios... quando os sinto, quando os beijo
na ânsia febril de amante incontentado,
são pólos recebendo o meu desejo,
nos momentos sublimes de pecado...

E às manhãs... quando acaso, entre lençóis
das roupagens do leito, saltam nus,
lembram, não sei, dois lindos girassóis
fugindo à sombra e procurando a luz!...

Florações róseas de uma carne em flor
que se ostenta a tremer em dois botões
na primavera ardente de um amor
que vive para as nossas sensações...

Túmidos... cheios... palpitantes, como
dois bagos do teu corpo de sereia,
tem um rubro botão em cada pomo
como duas cerejas sobre a areia...

Quando os tenho nas mãos... Quantas delícias!...
Arrepiam-se, trêmulos , sensuais,
e ao contato nervoso das carícias
tocam-me o peito como dois punhais!...

Meu lúbrico prazer sempre consolo
na carne destas ondas revoltadas,
que são como taças emborcadas
no moreno inebriante do teu colo...


Entre as suas publicações estão "Meu Céu Interior", "Bazar De Ritmos", "Amo!", "Cântico Do Homem Prisioneiro!", "Eterno Motivo", "O Canto Da Terra", "Festa de Imagens", "A Outra Face", "Harpar Submersa", "A Sós. . .", "De Mãos Dadas", "Cantiga Do Só", "Coleção Trovadores Brasileiros", "O Poder da Flor", "Antologia da Nova Poesia Brasileira", "Espera", "Meus Sonetos de Amor", "No Mundo da Poesia", "Poemas Do Amor Ardente Coletâneas", "Tempo Será-Coletâneas" e "Trevos de Quatro Versos-Trovas".


O Lado Bom



Quero ser uma ilha,
um pouco de paisagem,
uma janela aberta,
uma montanha ao longe,
um aceno de mar,

quando precisares de sonho,
de um canto de beleza,
de um pouco de silêncio,
ou simplesmente
de sol... e de ar...

Quero ser o lado bom
em que pensas,
(isto que intimamente
a gente deseja
mas nem sempre diz)
- quero ser, naquela hora,
o que sentes falta
para seres feliz...

Que quando pensares
em fugir de todos
ou de ti mesma, enfim,
penses em mim...


J. G. de Araujo Jorge faleceu em 27 de janeiro de 1987, no Rio de Janeiro, Capital.


Tédio...



Vontade preguiçosa de apanhar meus nervos
e fazer uma rede para me deitar...

e fechar os meus olhos, como que cansado
de olhar. . .

e dormir, mas dormir esse sono das pedra
que não podem sonhar...

ser folha, folha morta, caindo
embalada pelo ar...

barco solto, sem leme, sem velas, sem nada
ao sabor inconstante do mar
a boiar...

Vontade preguiçosa de encostar a vida
num canto,
para descansar... .

E soltar-me em mim mesmo, e soltar-me, e cair
e deixar-me ficar,
sem ter vontade ao menos para bocejar...

Ah!...
Vontade preguiçosa de não terminar
estes versos morrendo em ar... em ar... em ar



Fontes
http://www.secrel.com.br/jpoesia/jgaraujo.html
http://www.saladepoetas.eti.br/consagrados1/araujo.htm
http://www.getty-images.com/source/home/home.aspx

Sonhado por Marcia, 15:32
Sonharam:




 

:: Viagem de volta ::
Utiliza o poro aberto
para deixar entrar o pólen certo;
a veia perfurada,
para fazer sair a coisa errada;
o pulmão dilatado,
para trocar o ar que está viciado.
Aproveito esse momento semprevivo
e te convido a beber em minha taça,
onde alegria borbulha, e é de graça,
onde poesia se faz sem aditivo.
Flora Figueiredo

:: :: :: ::

:: prematuridade ::
na tarde longa de dezembro
antes que se acendam
as luzes nas praças
e nas árvores
a lua surge - quase cheia - no céu azul
às quatro e meia
e atônita meio a tanta claridade
empalidece
hesita
com a tênue sensação
de se ter adiantado.
Márcia Maia

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