Sábado,
Abril 30, 2005
Ele viveu toda sua vida de forma simples e com dignidade,
cantando como quis e de improviso, ao modo dos poetas
repentistas, as mazelas e anseios do seu povo: do povo
mais puro, sofrido e humilde do Brasil, especialmente
o do Nordeste. Ele foi, em muitos sentidos, a voz da consciência
coletiva dos sertanejos oprimidos, inconformados e rebelados
contra a miséria secular e a opressão do latifúndio. Uma
voz sempre altaneira clamando contra as injustiças e as
desigualdades sociais. Não almejava utopias, mas via na
dinâmica da natureza a explicação para se exigir as igualdades.
Antônio Gonçalves da Silva nasceu no dia 5 de março
de 1909 na localidade de Serra de Santana, zona rural
do município de Assaré, cerca de 600 km ao sul de Fortaleza.
O apelido, ele ganhou aos 20 anos, em viagem ao estado
do Pará. Um jornalista da cidade, comparava a espontaneidade
de seus versos à pureza do canto de uma ave típica do
nordeste, a patativa. Contudo, naquela época, diversos
cantadores usavam o mesmo nome artístico, então veio a
idéia de fazer referência à cidade de Antônio, diferenciando-o
de outras patativas que estavam surgindo. E assim ficou
Patativa do Assaré. Ave tipicamente nordestina,
traduziu o sertão, dissecou sentimentos em versos, recebeu
homenagens, mas nunca aceitou voar para longe de sua terra,
apesar dos convites. Sensível à miséria e ao analfabetismo
que sempre dominou o sertão, usou sua poesia como protesto
contra o abandono do nordestino, contra a seca e contra
o descaso dos governantes.
Caboclo roceiro
Caboclo roceiro das plagas do norte,
Que vive sem sorte, sem terra e sem lar,
A tua desdita é tristonho que canto,
Se escuto o teu pranto, me ponho a chorar.
Ninguém te oferece um feliz lenitivo,
És rude, cativo, não tens liberdade.
A roça é teu mundo e também tua escola.
Teu braço é a mola que move a cidade.
De noite tu vives na tua palhoça
De dia na roça de enxada na mão
Julgando que Deus é um pai vingativo,
Não vês o motivo da tua opressão
Tu pensas, amigo, que a vida que levas
De dores e trevas debaixo da cruz
E as crides constantes, quais sinas e espadas
São penas mandadas por nosso Jesus
Tu és nesta vida o fiel penitente
Um pobre inocente no banco do réu.
Caboclo não guarda contigo esta crença
A tua sentença não parte do céu.
O mestre divino que é sábio profundo
Não faz neste mundo teu fardo infeliz
As tuas desgraças com tua desordem
Não nascem das ordens do eterno juiz
A lua se apaga sem ter empecilho,
O sol do seu brilho jamais te negou
Porém os ingratos, com ódio e com guerra,
Tomaram-te a terra que Deus te entregou
De noite tu vives na tua palhoça
De dia na roça , de enxada na mão
Caboclo roceiro, sem lar, sem abrigo,
Tu és meu amigo, tu és meu irmão.
Ainda criança, perdeu a visão do olho direito, mas isso
não diminuiu em nada a sua sensibilidade poética e o seu
humor. Pelo contrário, brincava sempre com a tragédia
que o acometera, tragédia a qual se juntaria aos oito
anos à perda do pai, Pedro Gonçalves da Silva.
Patativa frequentou a escola por seis meses. Apesar do
pouco tempo em uma "escola muito atrasada", como ele mesmo
falava, descobriu a literatura através dos folhetos de
cordel e dos cantadores, repentistas e violeiros do Nordeste.
Aos 16 anos, adquiriu uma viola e começou a fazer improvisações
seguindo a tradição sertaneja dos violeiros. Autodidata,
conheceu clássicos da poesia como Guimarães Passos e Olavo
Bilac, dos quais leu o famoso "
Tratado de Versificação",
e também Camões e Castro Alves. Com este último, o poeta
dizia ter uma identificação muito grande, já que ambos
cantavam em defesa dos oprimidos.
Em 1937 casou-se com Belarmina Paes Cidrão. O casamento
durou 57 anos: D. Belinha, como era chamada, faleceu em
1994.
O burro
Vai ele a trote, pelo chão da serra,
Com a vista espantada e penetrante,
E ninguém nota em seu marchar volante,
A estupidez que este animal encerra.
Muitas vezes, manhoso, ele se emperra,
Sem dar uma passada para diante,
Outras vezes, pinota, revoltante,
E sacode o seu dono sobre a terra.
Mas contudo! Este bruto sem noção,
Que é capaz de fazer uma traição,
A quem quer que lhe venha na defesa,
É mais manso e tem mais inteligência
Do que o sábio que trata de ciência
E não crê no Senhor da Natureza.
A produção de Patativa teve como característica a oralidade.
Seus poemas vinham em forma de repentes e cordéis. Como
um agricultor pobre, sem formação escolar alguma, produzia
versos com extrema desenvoltura tanto na língua culta,
de academia, quanto na língua falada no dia-a-dia pelo
caboclo. Segundo o professor da Universidade Federal do
Ceará, Gilmar de Carvalho, quando escrevia o que chamava
de poesia matuta, não fazia isso por ignorância, mas sim,
para chegar mais perto do seu público-alvo. Patativa foi
um poeta plural, cantou as agruras e as alegrias sertanejas,
a natureza e a cultura, o universal e o regional, sempre
buscando a correção do social e a igualdade entre os homens.
Para ele, a graça da poesia estava nas rimas, na criatividade
e espontaneidade.
No meio acadêmico, Patativa encantava a intelectualidade
por construir estrofes utilizando estruturas presentes
nas regras clássicas. Ele dava muita importância à metrificação
e compunha seus versos, sem lápis e sem papel, guardando
tudo na sua memória. No poema abaixo, ele pede licença
para versar os prazeres e o sofrimento do homem do campo
e colocar o que pensa sobre a poesia sem rima.
Aos Poetas Clássicos
Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.
Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.
Em 1926 teve um poema publicado no "
Correio do Ceará",
mas a publicação do primeiro livro só aconteceu 30 anos
depois, através de José Arraes de Alencar que ficou maravilhado
com seus versos e quis conhecer o poeta. Ao pedir cópias
de outros poemas soube, com espanto, que nada daquilo
existia fora da memória de Patativa, com exceção de alguns
textos que uma vez ou outra transcrevia. Assim, em 1956,
foi publicado pela Borsoi Editora e financiado por Alencar,
"
Inspiração Nordestina".
Entre as publicações mais populares estão: "
Cante Lá
que Eu Canto Cá", seu livro mais conhecido e que foi
objeto de diversas teses sobre poesia popular, "
Cantos
de Patativa", "Ispinho e Fulô", "Balceiro, Patativa e
Outros Poetas de Assaré" e Cordéis/Patativa do Assaré."
O peixe
Tendo por berço o lago cristalino,
Folga o peixe, a nadar todo inocente,
Medo ou receio do porvir não sente,
Pois vive incauto do fatal destino.
Se na ponta de um fio longo e fino
A isca avista, ferra-a insconsciente,
Ficando o pobre peixe de repente,
Preso ao anzol do pescador ladino.
O camponês, também, do nosso Estado,
Ante a campanha eleitoral, coitado!
Daquele peixe tem a mesma sorte.
Antes do pleito, festa, riso e gosto,
Depois do pleito, imposto e mais imposto.
Pobre matuto do sertão do Norte!
A fama nacional só veio em 1964, quando Luiz Gonzaga gravou
"
Triste partida", tornando a canção de Patativa
conhecida nacionalmente. Além dessa parceria, teve seus
poemas musicados e gravados por artistas diversos da nossa
MPB, como, por exemplo, Raimundo Fagner, Chico Buarque,
Zé Ramalho, Rolando Boldrin, Renato Teixeira, Pena Branca
e Xavantinho.
Saudade
Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.
Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.
Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.
Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.
A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.
Tido como fenômeno da poesia popular nordestina, alguns
de seus livros foram traduzidos em diversos idiomas e
tornaram-se temas de estudo no curso de literatura popular
universal, chefiado por Raymond Cantel, na Universidade
de Sorbonne, na França. Teve a sua obra completa em cordel
lançada em novembro de 1993, na Casa Juvenal Galeno, em
Fortaleza. Recebeu também várias medalhas de mérito e
homenagens com título de "
Doutor Honoris Causa",
concedido pelas Universidades regional do Cariri, estadual
e federal do Ceará e ainda da Universidade Tiradentes,
de Sergipe. Não teve estudo, mas discutia com maestria
a arte de versejar. Foi condecorado no Teatro José de
Alencar, em Fortaleza (CE), com o Prêmio do Ministério
da Cultura - "
Os primeiros 10 mais da cultura",
na categoria Cultura Popular.
A obra de Patativa também ganhou voz. Entre os discos
com composições do poeta se destacam "
Poemas e Canções",
"A Terra é Naturá", "Canto Nordestino", "Patativa do Assaré",
"85 Anos de Poesia" e "88 Anos de Poesia". ".
No teatro, sua vida foi tema da peça infantil "
Patativa
do Assaré - O Cearense do Século", de Gilmar de Carvalho.
Na década de 90, participou da novela global "
Renascer".
A política também nunca ficou distante de Patativa. Subiu
no palanque pela anistia dos presos políticos, na época
da ditadura, e defendeu o movimento das "Diretas-Já".
Num dos seus poemas, falou assim sobre o tema:
Inleição direta 84
Bom camponês e operaro
A vida tá de amargá
O nosso estado precaro
Não há quem possa aguentá
Neste espaço dos vinte ano
Que a gente entrou pelo cano
A confusão tá compreta
Mode a coisa miorá
Nós vamo bradá e gritá
Pela inleição direta
Patativa do Assaré faleceu no dia 08 de julho de 2002,
aos 93 anos de idade, vítima de uma pneumonia dupla, além
de uma infecção vesicular e complicações renais. Seu enterro
foi acompanhado por cerca de 20 mil pessoas.
Eu quero
Quero um chefe brasileiro
Fiel, firme e justiceiro
Capaz de nos proteger
Que do campo até à rua
O povo todo possua
O direito de viver
Quero paz e liberdade
Sossego e fraternidade
Na nossa pátria natal
Desde a cidade ao deserto
Quero o operário liberto
Da exploração patronal
Quero ver do Sul ao Norte
O nosso caboclo forte
Trocar a casa de palha
Por confortável guarida
Quero a terra dividida
Para quem nela trabalha
Eu quero o agregado isento
Do terrível sofrimento
Do maldito cativeiro
Quero ver o meu país
Rico, ditoso e feliz
Livre do jugo estrangeiro
A bem do nosso progresso
Quero o apoio do Congresso
Sobre uma reforma agrária
Que venha por sua vez
Libertar o camponês
Da situação precária
Finalmemte, meus senhores,
Quero ouvir entre os primores
Debaixo do céu de anil
As mais sonoras notas
Dos cantos dos patriotas
Cantando a paz do Brasil
Fontes:
http://voudoudou.free.fr/patativa.htm
http://www.reporterbrasil.com.br/reportagens/patativa/iframe.php
http://www.geocities.com/Athens/Oracle/7103/patativa.htm
http://epoca.globo.com/edic/20000306/soci1.htm
Sonhado por Marcia, 01:16
Sonharam:
Sábado, Abril 02, 2005
Dia 17 de março ela completaria 60 anos. Com uma das vozes
mais marcantes da música popular brasileira, era uma verdadeira
intérprete. Ouvir seu canto é suficiente para sentir toda
a intensidade da letra de uma música e constatar a perfeita
alquimia entre técnica e emoção. Apesar do temperamento
difícil e muitas vezes acusada de ser arrogante e antipática,
os amigos não poupavam elogios à sua generosidade e companheirismo.
Na realidade ninguém nunca conseguiu definí-la, nem mesmo
ela. Polêmica sim, mas fora dos palcos, porque em cima
deles era uma unanimidade. Fascinava pela inteligência,
força, garra, brilho e luz, além do sorriso e do gargalhar
apertando os olhos e escancarando as gengivas.
Elis Regina Carvalho Costa nasceu em 17 de março
de 1945, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul e aos 11 anos
apresentou-se na Rádio Farroupilha, de Porto Alegre. De
cara ela foi a campeã do programa de calouros e passou
a fazer parte do elenco fixo do Clube do Guri. No ano
seguinte conquistou seu primeiro contrato profissional,
com a Rádio Gaúcha, para se apresentar no Programa Maurício
Sobrinho.
Gravou o seu primeiro compacto simples, com duas canções
pela Continental: "
Dá Sorte" e "
Sonhando".
A mesma gravadora em 1961 lançou seu LP, "
Viva a Brotolândia",
com calipsos e rocks.
A "
pimentinha", apelido dado por Vinícius de Moraes,
era uma palavra que exprimia a miudeza física e personalidade
explosiva. Declarações bombásticas eram comuns nas entrevistas.
Falou mal da Tropicália de Caetano Veloso e Gilberto Gil
e mais tarde gravou músicas dos dois. Desprezou a bossa
nova do marido Ronaldo Bôscoli, mas gravou com Tom Jobim
e Roberto Menescal os melhores discos de sua carreira.
Elis tinha a perfeição como meta. Exigia muito de seus
músicos e compositores, de sua gravadora e de sua voz.
Sua voz soava como instrumento afinado, não perdendo,
nem por um minuto, o carisma e a emoção em cada canção
Em abril de 1964, Elis transferiu-se para o Rio de Janeiro,
onde assinou contrato de seis meses com a extinta TV Rio.
Começou a se apresentar na boate Bottle's, no Beco das
Garrafas, em Copacabana, uma rua estreita cheia de bares
onde se ouvia muita Bossa Nova.
Em fevereiro de 1965, lançou um compacto pela Philips
que incluía "
Menino das laranjas" (Teo de Barros)
e "
Sou sem paz" (Adilson Godói). Em seguida, também
na Philips, gravou o LP "
Samba eu canto assim".

Elis
começava a ficar famosa no meio musical e acabou sendo
escolhida por Vinícius de Moraes e Edu Lobo para defender
a música "
Arrastão", no I Festival de música brasileira
da TV Excelsior. Com a célebre interpretação, ganhou o
prêmio "
Berimbau de Ouro". Seus gestos exagerados
no palco lhe renderam os apelidos de "
heliscópetero"
e "
hélice regina". A cantora enterrava definitivamente
o movimento da Bossa Nova e inaugurava a música moderna,
a chamada MPB. Foi a primeira grande vitória de Elis.
Com o sucesso de "
Arrastão", Elis passou a ser
conhecida nacionalmente. Depois, se apresentou com Jair
Rodrigues e o Jongo Trio em show produzido por Walter
Silva no Teatro Paramount, em São Paulo. Com o sucesso
do show foi lançado o LP "
Dois na bossa", pela
Philips, que bateu todos os recordes de vendagem da música
brasileira, naquela época, com mais de um milhão de cópias
vendidas.

A
dupla Elis e Jair, acompanhada pelo Zimbo Trio, ganhou
o programa "
O Fino da Bossa", na TV Record, lançando
muitos sucessos, entre os eles "
Canto de Ossanha"
(Vinícius de Morais e Baden Powell), "
Louvação"
(Gilberto Gil e Torquato Neto) e "
Lunik 9" (Gilberto
Gil). Elis encontrou em Jair a popularidade e a espontaneidade
que precisava e no Zimbo Trio, a tradução de tudo que
ela pensava e sonhava para sua música.
Em outubro de 1966, interpretou "
Ensaio geral"
(Gilberto Gil), no II Festival de Música Popular Brasileira,
da TV Record, sendo classificada em quinto lugar. O programa
"
O Fino da Bossa" saiu do ar em fins de 1967.

Aos
22 anos, Elis casou-se com o seu antigo rival dos tempos
do Beco das Garrafas, o produtor musical e compositor
e um dos criadores da Bossa Nova, Ronaldo Bôscoli, casamento
que lhe deu um filho, João Marcelo. Após cinco anos de
um conturbado relacionamento, permeado por várias separações
e reconciliações, o casal se separou definitivamente.
No início de 1968, Elis viajou para a Europa, apresentando-se
na França, Holanda, Suíça, Bélgica e Suécia, onde gravou
um LP com o gaitista e guitarrista belga Toots Thielemans,
"
Elis & Toots Made in Sweden". Fez shows ainda
em Londres e Inglaterra, onde gravou, na Philips, o LP
"
Elis in London". De volta ao Brasil, estreou no
show "
Elis, Miele e... Bôscoli", no Rio de Janeiro.

Em
17 de junho de 1970, nascia João Marcelo. Apesar de ter
nascido forte, nos primeiros meses de vida, teve muitos
problemas por ser alérgico a leite de vaca, chegando a
ficar hospitalizado. Sem leite para amamentá-lo, Elis
foi à televisão e pediu amas-de-leite para o filho.
Elis apresentou-se no II Mercado Internacional do Disco
e da Edição Musical (MIDEM), em Cannes, França, cantando
"
Upa Neguinho" (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri),
um de seus maiores êxitos. Após exibição no Olympia, de
Paris, França, retornou ao Brasil, passando a fazer na
televisão o "
Elis Studio". Obteve o primeiro lugar
na 1ª Bienal do Samba, festival promovido pela Record,
interpretando "
Lapinha" (Baden Powell e Paulo César
Pinheiro).
Com uma visão profissional privilegiada e uma capacidade
incrível de descobrir novos talentos, Elis Regina também
ficou conhecida pela qualidade das músicas que escolhia
para cantar. Em seus discos, o perfeccionismo era primordial.
Nomes antes desconhecidos como Fernando Brant, João Bosco
e Aldir Blanc, Ivan Lins e Vitor Martins foram lançados
por ela. Gravou "
Canção do Sal", clássico do até
então novato compositor e cantor mineiro Milton Nascimento.
"
Ponta de Areia", "Travessia" e "
Maria, Maria":
todas parcerias de Milton e Fernando Brant tornaram-se
clássicas em sua voz. Elis também descobriu Renato Teixeira,
de quem gravou "
Romaria".

Em
abril de 1970, iniciou temporada no Canecão, Rio de Janeiro.
Em seguida, fez grande sucesso com o lançamento de "
Madalena"
(Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Sousa), e, em novembro,
Elis e Ivan Lins comandaram, na TV Globo, o programa "
Som
Livre Exportação", que ficou no ar até o início de
1971, sendo substituído pelo programa mensal "
Elis
Especial".
No ano de 1972, Elis redescobriu o amor ao lado do músico
César Camargo Mariano. Da união de nove anos, que, segundo
amigos, era perfeita, nasceram os filhos Pedro Mariano
e Maria Rita. César assumiu a direção musical dos discos
da cantora e o primeiro da parceria, chamado "
Elis",
lançou grandes sucessos, entre eles "
Atrás da Porta",
"
Casa no Campo" e "
Águas de Março".

No
início de 1974, gravou, com Tom Jobim, em Los Angeles,
o histórico álbum "
Elis & Tom". No mesmo ano gravou
o LP "
Elis", com arranjos de César Camargo Mariano.
0 disco incluiu, entre outras músicas, "
Dois pra lá
dois pra cá" (João Bosco e Aldir Blanc) e "
Ponta
de areia" (Milton Nascimento e Fernando Brant).
Em 1975 estreiou "
Falso Brilhante", mistura de
canto, dança e teatro. O show permaneceu 14 meses em cartaz,
somente em São Paulo e obteve enorme sucesso de público
e crítica. No ano seguinte, Elis lançou o LP "
Falso
brilhante", tendo como um dos destaques "
Cartomante"
(Ivan Lins e Vítor Martins).

Em
1978 o show "
Transversal do Tempo" estreiou em
Porto Alegre, repetindo a trajetória de sucesso. O show
foi apresentado nas principais capitais do Brasil, além
de Roma, Milão, Paris, Lisboa e Barcelona, rendendo também
a Elis o LP "
Transversal do tempo" (Polygram),
com o sucesso "
Morro velho" (Milton Nascimento
e Fernando Brant).
Em 1979 atingiu estrondoso sucesso ao lançar "
Elis
especial" e "
Elis, essa mulher", incluindo
"
O Bêbado e a Equilibrista" (João Bosco e Aldir
Blanc). Na música Elis cantou a anistia. Ainda nesse ano,
no Festival de Jazz de Montreux, Suíça, foi aplaudida
por quase 10 minutos, voltando várias vezes ao palco para
cantar novamente Upa Neguinho, Maria Maria e Madalena.
O público não deixava a cantora sair de cena. Elis ainda
voltou ao palco para dividir a cena com Hermeto Pascoal,
para deleite do público do festival. No ano seguinte,
lançou o show "
Saudades do Brasil", outro sucesso
da cantora.

Uma
das apresentações que mais emocionou o público, aconteceu
em 1980: no especial da TV Globo, Elis não segurou as
lágrimas e chorou ao cantar "
Atrás de Porta".
Em 1981 separou-se de César Camargo Mariano. No mesmo
ano obteve enorme êxito com seu último show "
Trem Azul",
que deu origem ao disco com a gravação do espetáculo.
O texto de abertura do show, parecia anunciar a despedida
de Elis: "
Agora eu sou uma estrela".
A vida permitiu a Elis um romance de apenas seis meses
com Samuel MacDowel. Ela se orgulhava de conviver com
um homem que não era do meio artístico. Advogado que cuidava
dos seus negócios, eles se conheciam há quase sete anos.
Elis Regina faleceu em São Paulo, no dia 19 janeiro de
1982, de parada cardíaca, em conseqüência de uma mistura
de álcool e drogas. Seu corpo foi velado no Teatro Bandeirantes,
em São Paulo. Elis usava a camiseta que não pôde ser usada
no show "
Saudades do Brasil", dois anos antes:
a bandeira brasileira estampada com seu nome, no lugar
de "
Ordem e Progresso". O cortejo na manhã seguinte
parou a cidade. Todos queriam dar o último adeus a Elis
Regina. Vários artistas compareceram ao velório, entre
eles, Rita Lee, Roberto de Carvalho, Raul Seixas, Jair
Rodrigues, Ronald Golias, Martinha, Lélia Abramo, Ronaldo
Bôscoli, Luiz Carlos Mieli, César Camargo Mariano, Henrique
de Souza Filho (o Henfil), Tônia Carrero, Hebe Camargo,
Ângela Maria, Fafá de Belém. Gilberto Gil, dos Estados
Unidos, enviou uma coroa de flores com os dizeres: "
Sua
voz será de todas as canções, sua alma de todos os corações".
Em 1994 foi lançado o CD triplo "
Elis Regina no fino
da bossa". No ano seguinte, ela foi a homenageada
no VIII Prêmio Sharp de Música, no Teatro Municipal, do
Rio de Janeiro, com a apresentação de seus filhos Pedro
Camargo Mariano e João Marcelo Bôscoli.
Sobre os filhos João Marcelo, Pedro Mariano e Maria Rita,
todos são músicos atualmente. Maria Rita, entende que
a semelhança com sua mãe e a influência no seu trabalho
são genéticas e que a comparação com Elis é inevitável
e natural. Maria Rita foi a grande vencedora brasileira
do Grammy Latino 2004. Ela, que concorria em quatro categorias
da premiação, por seu álbum de estréia, ganhou o prêmio
de revelação do ano, o troféu de melhor disco de MPB e
ainda recebeu, em nome de Milton Nascimento, o prêmio
de melhor música brasileira, por "
A Festa", composta
especialmente para ela.
Alguns depoimentos de amigos:
"Ao mesmo tempo que era pimenta, Elis era doce. Foi a
única artista que, na época, peitou as autoridades e foi
me visitar no Hipódromo Feminino, onde eu estava presa
numa cela com outras 10 mulheres e grávida do meu primeiro
filho. Até aquele momento, Elis jamais tinha conversado
comigo, ela era da turma que não gostava dos tropicalistas.
Elis tinha isso. Diante de qualquer tipo de injustiça,
lá ia ela defender com unhas e dentes. Nessas horas, baixava
uma mãezona braba que roda a baiana legal. Depois desse
evento, ficamos muito amigas, de uma viver na casa da
outra e se telefonar diariamente. Ela me chamava carinhosamente
de Maria Rita e, quando nasceu sua filha mais nova, tomei
um susto: "Agora, Maria Rita é minha filha e você será
Rita Maria"."
(Rita Lee)
"Elis dizia que, depois dela, a melhor cantora era eu.
Embora não nos víssemos constantemente, tínhamos uma relação
muito afetuosa. Elis era muito carinhosa comigo e me ligava
sempre nos momentos mais difíceis - como na época em que
eu estreei o show "
Fantasia" e recebi uma enxurrada
de críticas negativas. Ela ligou para me dar apoio. Ela
era surpreendente e, por incrível que pareça, uma pessoa
muito tímida. Eu lembro que chamei Elis para cantar comigo
no especial da Globo (no programa da Gal, MARIA DA GRAÇA
COSTA PENNA BURGOS, pela série Grandes Nomes, em 1981).
Ela nem estava no Brasil mas aceitou o convite. Ficou
animadíssima. No show, enquanto cantávamos, Elis não conseguia
olhar para o meu rosto. Eu disse, carinhosamente: "
Elis,
olha pra mim. Quero ver teu olho..." E ela: "
Não,
eu não vou olhar. Sabe por que? Porque eu sou vesga, você
vai rir..." "
(Gal Costa)
"Elis é uma escola, uma rainha, uma deusa, atemporal e
inigualável. Intérprete como ela não aparecerá. Ela foi
a beleza, a briga, o respeito e, principalmente, a maior
descobridora e lançadora de novos compositores, em toda
história da música brasileira. Elis sempre foi minha musa
maior. Sempre que eu fazia música, era pensando em sua
voz. Muito mais até que em mim. Intérprete como ela não
aparecerá. Um dia ela disse na TV que morria de medo quando
gravava minhas músicas, porque eu nunca dizia nada quando
ouvia. Mas dizer o quê? "
A música era dela. Ainda hoje
me emociono, choro e sinto saudades intermináveis"."
(Mílton Nascimento)
Fontes:
http://www.trama.com.br/elis_tom/index.html
http://veja.abril.com.br/idade/estacao/elis_regina/biografia.html#
http://soarespd.sites.uol.com.br/index.htm
http://saudadesdobrasil.zip.net/
http://www.elisreginavive.cjb.net/
Sonhado por Marcia, 16:13
Sonharam: