Terça-feira, Maio 24, 2005
Com um estilo pessoal, ela foi poetisa e uma grande contadora de histórias das coisas de sua terra. A espontaneidade, o cotidiano e as imagens que retratam o povo do seu Estado, costumes e sentimentos, são temas constantes de suas publicações. Assim, sua obra é considerada por vários autores um registro histórico-social do século 20, especialmente da região do serrado do Centro-Oeste brasileiro, onde nasceu e morreu.
Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins de Guimarães Peixoto Brêtas, nasceu em 20 de agosto de 1889, no estado de Goiás (Goiás Velho). Filha de Jacinta Luíza do Couto Brandão Peixoto e do Desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, cursou apenas até a terceira série do primário e iniciou sua carreira literária aos 14 anos, publicando seu primeiro conto "Tragédia na Roça", em 1910, no "Anuário Histórico Geográfico e Descritivo do Estado de Goiás".
Poeminha Amoroso
Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo...
Em 1903 já escrevia poemas sobre seu cotidiano, tendo criado, juntamente com duas amigas, em 1908, o jornal de poemas femininos "A Rosa". Era chamada Aninha da Ponte da Lapa e trabalhou como doceira, na cozinha da Casa da Ponte, produzindo seus versos ao pé do fogão. Considerava os doces cristalizados de caju, abóbora, figo e laranja, que encantavam os vizinhos e amigos, obras melhores do que os poemas escritos em folhas de caderno.
Virou Cora Coralina pois o pseudônimo era uma exigência para disfarçar a escritora, já que naquela época moça prendada não perdia tempo com manuscritos. O amor às letras foi o sustentáculo dessa mulher. Mesmo sofrendo preconceitos e dissabores ao longo da vida - que a atrasaram, mas não a impediram - ela decolou no mundo das palavras.
Em 1911 conheceu o advogado Cantídio Tolentino Brêtas, com quem fugiu para morar em Jaboticabal, São Paulo, onde nasceram seus seis filhos. O fato de Cantídio ser homem separado, com filhos do casamento e inclusive uma filha, fruto de romance com uma índia, não desanimou Cora, que inclusive ajudou a criar a filha. Em 1922, foi convidada por Monteiro Lobato para integrar-se à Semana de Arte Moderna,.mas seu marido a proibiu de participar de tal evento.
Aninha e suas pedras
Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Saraus literários ou não, Cantídio não gostava de ver a capacidade da mulher. A Cora ousada, que deixou para trás preconceitos sociais, pouco ligava. Publicava artigos nos jornais de Jaboticabal, construía poesias e costurava contos. Flagrada na cidade pela Revolução Constitucionalista de 1932, alistou-se como enfermeira - a filha mais nova, Vicência, encontrou a ficha de inscrição após a sua morte, perdida entre centenas de textos inéditos. Costurava bonés para soldados, uniformes e aventais para enfermeiras.
Das Pedras
Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.
Com a morte do marido, Cora passou a se sustentar com a venda de livros, pela José Olympio Editora, a mesma editora que publicaria mais tarde o seu primeiro livro. Para ela, o valor de sua obra estava justamente na quietude vivida por muitos anos, nas dores e sentimentos de uma vida curtida pelo tempo. Voltou a morar em Goiás 45 anos depois, já produzindo sua obra definitiva. Seu reencontro com a cidade e as histórias de sua formação alavancaram seu espírito criativo. Tradições e festas religiosas, comidas típicas da região, famílias e seus "causos", tudo motivava a escritora a fazer uma ponte entre o passado e o presente da cidade, numa tentativa de registrar sua história e entender as mudanças. Com a mesma rica simplicidade de seus personagens, Cora fazia doces cristalizados para vender.
Eu Creio
Creio nos valores humanos
e sou a mulher da terra.
...
Creio na força do trabalho
como elos e trança do progresso.
Acredito numa energia imanente
que virá um dia ligar a família humana
numa corrente de fraternidade universal.
Creio na salvação dos abandonados
e na regeneração dos encarcerados,
pela exaltação e dignidade do trabalho.
...
Acredito nos jovens
à procura de caminhos novos
abrindo espaços largos na vida.
Creio na superação das incertezas
deste fim de século.
Aos 70 anos decidiu aprender datilografia para preparar suas poesias e enviá-las aos editores e, somente aos 76, conseguiu realizar o sonho de publicar seu primeiro livro, "Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais". Sua apresentação ao mundo literário nacional aconteceu quase aos 90 anos, pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade que durante muitos anos homenageou Cora em diversas cartas e publicações.
Carta de Drummond a Cora Coralina
Rio de Janeiro, 7 de outubro de 1983.
Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( ...). Não lhe escrevi antes, agradecendo a dádiva, porque andei malacafento e me submeti a uma cirurgia. Mas agora, já recuperado, estou em condições de dizer, com alegria justa: Obrigado , minha amiga! Obrigado, também, pelas lindas, tocantes palavras que escreveu para mim e que guardarei na memória do coração.
O beijo e o carinho do seu
Drummond.
Desde então, sua obra, impregnada por uma profunda crença nos valores humanos e um real comprometimento com os mesmos, vem conquistando crítica e público.
Não sei...
Não sei... se a vida é curta...
Não sei...
Não sei...
se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.
Entre as publicações de Cora Coralina estão: "Meu Livro de Cordel", "Vintém de Cobre", "Estórias da Casa Velha da Ponte", "O Tesouro da Casa Velha", "Os Meninos Verdes" e "A Moeda de Ouro que um Pato Engoliu", pela qual recebeu títulos e prêmios. Em 1983, lançou "Vintém de Cobre-Meias Confissões de Aninha", recebendo em seguida o Troféu Juca Pato da União Brasileira de Escritores, que a elegeu a Intelectual do Ano.
Ela era simples mas foi doutora "feita pela vida, pelo estudo incessante de tudo quanto aconteceu em seu derredor", palavras da reitora de Universidade Federal de Goiás. E Cora Coralina recebeu realmente o título de Doutora Honoris Causa daquela Universidade. Em 1984, foi reconhecida Símbolo Brasileiro do Ano Internacional da Mulher Trabalhadora pela FAO (Organização das Nações Unidas para agricultura e alimentação). Também entrou para a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás.
Ressalva
Este livro foi escrito
por uma mulher
que no tarde da Vida
recria e poetiza sua própria
Vida.
Este livro
foi escrito por uma mulher
que fez a escalada da
Montanha da Vida
removendo pedras
e plantando flores.
Este livro:
Versos...não
Poesia...não.
Um modo diferente de contar velhas estórias.
Cora Coralina faleceu em Goiânia a 10 de abril de 1985. A casa em que morava, construída por volta de 1770, foi transformada em museu depois da sua morte. Em 2001, o Rio Vermelho, que corta a cidade histórica, transbordou depois de uma forte chuva, destruindo toda a arquitetura histórica da cidade. Com a inundação atingindo a casa de Cora, o acervo do museu composto de cadernos com poemas e contos, ainda não publicados, cartas, móveis e objetos pessoais da escritora, foram seriamente danificados. Depois de pouco mais de um ano, novos investimentos garantiram a recuperação de pontos turísticos, incluindo a casa de Cora Coralina.
Fontes:
http://www.navedapalavra.com.br/
http://www.versosnareia.hpg.ig.com.br/coracoralina.htm
http://jbonline.terra.com.br/destaques/coracoralina/cora_3.html
Sonhado por Marcia, 21:24
Sonharam:
Domingo, Maio 08, 2005
Para mim não existe um dia e sim todos os dias em que devemos estar presentes, dedicando todo o nosso amor a esse ser tão especial que é a nossa mãe. Mas, como o dia foi instituído, trouxe um pouquinho da história de como tudo começou.
Um beijo grande para todas as mães, filhos e filhas que passarem por aqui. Um beijo especial para minha mãe.

A mais antiga celebração do Dia das Mães tem origem mitológica. Na Antiga Grécia, a entrada da primavera era festejada em honra a Rhea, esposa de Cronus e mãe de Zeus , considerada a Mãe dos Deuses.
Mais tarde, por volta do ano 1600, a Inglaterra começou a dedicar o quarto domingo da Quaresma às mães das operárias inglesas. Esse dia ficou conhecido como "Mothering Sunday", um dia em que as operárias eram dispensadas para passarem o dia com suas mães, que ganhavam de presente o "mothering cake".
Em 1872, nos Estados Unidos, Julia Ward Howe sugeriu que fosse criado o Dia das Mães, como uma data dedicada à paz, mas sua idéia não teve êxito.
Minha mãe
Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.
Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.
Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.
Vinícius de Moraes
Em 1907, Anna Jarvis iniciou uma campanha para instituir o Dia Nacional das Mães. Ela conseguiu que a pequena cidade de Grafton, na Filadélfia, celebrasse o Dia das Mães no segundo aniversário da morte de sua própria mãe, Anna Reese Jarvis. A criação desse dia tinha como objetivo fortalecer os laços familiares e o respeito pelos pais.
A primeira celebração oficial desse dia só aconteceu em 26 de abril de 1910, quando o governador de Virgínia Ocidental, William E. Glasscock, realizou a primeira celebração oficial do Dia das Mães. Em 1911, a data foi comemorada em quase todo o país. Mas foi preciso uma forte campanha para o Dia das Mães ser oficialmente decretado pelo presidente Woodrow Wilson, em 1914.
Mãe
Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.
Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições...
Empregos fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.
Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.
Cora Coralina
No Brasil, a primeira comemoração do Dia das Mães foi feita pela Associação Cristã de Moços (ACM), em Porto Alegre, no dia 12 de maio de 1918. Somente em 1932 a data passou a ser celebrada no segundo domingo de maio, conforme decreto assinado pelo presidente Getúlio Vargas. Em 1949, vários proprietários de lojas de São Paulo, lançaram uma grande campanha publicitária incentivando a compra de presentes para as mães e o hábito de presentear as mães ganhou impulso.
Mãe
Mãe...São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o céu tem três letras...
E nelas cabe o infinito
Para louvar a nossa mãe,
Todo bem que se disser
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!
Mário Quintana
Fontes:
http://www.getty-images.com/source/home/home.aspx
http://www.terra.com.br/diadasmaes/
Sonhado por Marcia, 18:46
Sonharam:
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