Num ano em que ouvimos falar tanto em milhões, transportados em lugares que variaram de malas a cueca, e no famoso esquema do mensalão, no qual, até agora, somente dois deputados foram cassados, quatro renunciaram e dois foram inocentados pela Câmara, achei interessante neste final, mostrar uma reportagem que vi recentemente na TV, sobre o trabalho de uma ex-moradora de rua e de seu marido, já falecido. Diante de tanta corrupção neste país, é bom registrar esse exemplo e acreditar, que apesar de tudo, ainda existem pessoas simples que vão a luta e são capazes de abrir mão da própria vida em benefício de outras pessoas.

A entrevista começou com o repórter falando que no Natal muita gente se lembra da importância da solidariedade. E na realidade é isso que acontece. São campanhas, doações, uma legião de voluntários, presentes sendo distribuídos aos moradores de rua, enfim, o espírito natalino faz algumas pessoas enxergarem a miséria humana. Mas isso é temporário, passado esse período, tudo volta ao normal, os projetos de ajuda são esquecidos e engavetados para retornarem com força total no próximo Natal.
Vamos então a entrevista pelo repórter Edney Silvestre, da Rede Gobo.
Há mais de 10 anos
Dna. América de Oliveira Lopes dedica a vida às crianças carentes, aos idosos desamparados e a outras pessoas necessitadas. Ela conseguiu montar o projeto A Casa da Sopa, onde funcionam um refeitório, uma sala de palestras, um consultório dentário e uma escolinha para alfabetização.
O que é A Casa da Sopa?
A Casa da Sopa foi um ideal do meu marido. O sonho dele era um trabalho para crianças carentes. Nossa primeira façanha foi distribuir sopa na rua toda quinta-feira. Passamos pouco mais de um ano em uma Brasília amarela no Jardim Ocidental, em Nova Iguaçu.
Em seguida, ganhamos um terreno, onde meu marido construiu uma cozinha. Ali ficamos por quase dois anos. Sabíamos que a doença dele ia atrapalhar nossos planos. Mas quando a pessoa quer fazer, ela consegue. Ele fugiu do hospital com um amigo nosso e comprou a laje. Ele assinou num papel que não tomaria o remédio durante três meses para poder cobrir as despesas. Ele usou o dinheiro do remédio para comprar a laje. Foi um sacrifício contra ele. Ele abreviou a própria vida. Isso foi em agosto de 1998. No dia 1º de maio de 1999, ele morreu. Deixou a metade do caminho. Eu consegui terminar as paredes. No dia 30 de abril, ele me chamou e pediu para que eu autorizasse os médicos a desligar os aparelhos. Como último pedido, disse para que eu não abandonasse nosso neto Gabriel, que era quem mais precisava da gente, e que não fechasse a casa por nada. No dia em que eu não tivesse nada, deveria ler o Evangelho para as crianças. Ele pediu para que o dinheiro da coroa e das flores fosse convertido em pão para as crianças. Tenho três amigos como testemunhas.
Acho importante contar que a senhora foi uma criança de rua.
Eu morava com minha avó em Paracambi. Perdemos nossa casa na chuva quando eu tinha 6 anos. Foi muito difícil. Ficamos eu, minha avó e meu irmão na rua. Meus pais já não existiam. Eu tinha 2 anos quando eles morreram. Nosso banho era no rio. Dormíamos na porta da igreja da cidade. Meus parentes, que tinham melhores condições, nada fizeram por mim porque sentiam vergonha. Eu perdi minha casa, minha cama, mas não perdi o amor da minha avó. Ela ficou comigo até os 10 anos e foi uma lição de vida. Se um dia eu merecer encontrá-la em alguma enfermaria lá em cima, não sei como vai ser. Ela era só amor. Acho que eu aprendi muito com ela. Se hoje é possível fazer alguma coisa, aprendi na minha infância. Minha necessidade foi muito grande, mas não faltou amor.
Na casa, há permanentemente 35 crianças. E duas vezes por semana é distribuída uma sopa.
E ainda tem um almoço aos domingos.
A senhora põe a mão na massa.
Se eu não pegar no cabo da enxada, como se diz, como vou querer que as mães me ajudem? E elas me ajudam.
Muita gente acha que há tanta miséria que não adianta ter uma iniciativa, porque isso não vai resolver nada.
Resolve. Se tentarmos, resolve. Pode ser uma gotinha só. Hoje vejo alunos que começaram lá e já estão na segunda série. Isso é gratificante.
A senhora precisa de ajuda.
Deus está ajudando. Meu marido foi embora em 1999. Estamos terminando 2005 e eu ainda não fechei as portas. Enquanto Deus me permitir andar e chegar aos sacolões para pedir ajuda, vou manter a casa. Acho que vale a pena. Se cada um fizesse uma casinha da sopa no Rio de Janeiro, ia melhorar um pouquinho mais.
Com esse exemplo de amor ao próximo e a sabedoria de Mahatma Gandhi, eu encerro as publlicações de 2005. Aproveito para desejar a todos os amigos do Lendo e Sonhando um ano de 2006 com paz, saúde e muita alegria em seus corações.
Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2005, ele é um dos mais reconhecidos dramaturgos ingleses da segunda metade do século XX. Um homem engajado na crítica política e na luta pelos direitos humanos, ele foi descrito por um biógrafo como "um permanente incômodo público, um questionador de verdades aceitas, tanto na vida quanto na arte."
Harold Pinter nasceu a 10 de Outubro de 1930 em Hackney, Londres. Aos 9 anos de idade foi obrigado a sair de Londres por causa da II Guerra Mundial, regressando três anos depois. A experiência da fuga nunca o abandonou, confessaria mais tarde. Em 1948, ingressou na Real Academia de Arte Dramática. Ao longo de toda sua carreira manteve uma postura de compromisso a favor dos direitos humanos e contra a guerra.
Sua primeira obra, "
The Room", foi escrita em 1957. Ali, já estavam presentes alguns dos elementos básicos de sua estética: a ameaça, enquanto impulso da ação cênica, e o quarto, enquanto palco, onde o teatro intimista burguês sofre uma fulminante invasão. No mesmo ano aconteceu "
The Birthday Party", um de seus maiores sucessos, apesar da forte rejeição inicial. Entre as peças mais conhecidas estão "
The Caretaker (1959), "
The Homecoming" (1964), e "
Ashes to Ashes" (1996).

A Academia Sueca justificou a escolha do Nobel de Literatura, argumentando que a obra de Pinter descobre o precipício subjacente nas questões cotidianas e força a entrada nas salas fechadas da opressão". Suas peças partem de personagens e situações aparentemente normais, mas mergulham numa atmosfera ameaçadora, em que é marcante sua preocupação com as relações entre opressores e oprimidos. A influência de Pinter é tão vasta, que no vocabulário inglês é usada a palavra "
pinteresque" para designar situações cheias de silêncios carregados e pensamentos expressos pela metade. Ao longo dos anos, apenas por duas vezes o teatro mereceu a preferência dos membros da Academia. Ao lado dos elementos existenciais, absurdos ou metafísicos de sua obra, herdados da dramaturgia do irlandês Samuel Beckett (1906-1989), Pinter tem se destacado pela luta contra a pena de morte, tortura, guerra e repressão.
Embora apenas ultimamente tenha substituído o teatro pelo texto político, referiu-se ao Iraque como "
um ato premeditado de assassinato de massas" e aos Estados Unidos de George W. Bush como
"um monstro descontrolado". Pinter sempre foi no fundo um escritor político. Inclusive nas chamadas "
obras de memória", como "
Silence" (1968), "
Old Times" (1970), "
No Man's Land" (1974) ou "
Betrayal" (1978), a memória funciona como um arma a mais nas relações de poder, que ressaltam ainda mais o isolamento dos personagens.
Desassombrado, Pinter tem assumido posições frontais que contribuíram para cimentar a aura de escritor imune ao politicamente correto. Se, nos anos 80 era assumidamente um opositor feroz do "
Reaganismo" e da sua aliada Margaret Thatcher, mais recentemente declarou-se um opositor feroz da intervenção norte-americana no Iraque. A contundência de Pinter conheceu flagrantes exemplos quando qualificou Tony Blair de "
criminoso de guerra" ou referiu-se aos Estados Unidos como "
um país dirigido por um bando de delinquentes".
Em 1956, casou-se com a atriz Vivian Marchant, de quem se divorciou em 1980. Depois, se casou com a historiadora e escritora Antonia Fraser.
Para além de sua atividade literária, Haroldo Pinter ficou notório por seu discurso de 10 de setembro de 2001, na Universidade de Florença. Ele criticou a política dos Estados Unidos, expressando "
profunda repulsa" contra a superpotência, uma "
máquina mundial brutal e malígna". E acrescentou, irado: "
A resistência contra os Estados Unidos crescerá". No dia seguinte, data do atentado contra o World Trade Center e o Pentágono, suas declarações tomariam caráter profético.
Em 2003, Pinter publicou um livro de poesia anti-guerra, intitulado "
War". O livro, que critica a guerra no Iraque, recebeu o prêmio Wilfred Owen. Este prêmio bianual é atribuído a poetas que seguem a tradição anti-guerra de Owen, considerado o melhor poeta de guerra inglês, que morreu em combate na I Guerra Mundial aos 25 anos.

Harold Pinter tem três obras publicadas em Portugal, segundo a agência Lusa, que cita fonte da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL). "
Conferência de Imprensa e Outras Aldrabices" (2005), em que satiriza os tiques políticos e a sua incontrolável obsessão manipulatória, é a obra mais recente do autor, editada pelos Artistas Unidos.
A lista de prêmios recebidos por Harold Pinter é longa: Prêmio Shakespeare, Prêmio Europeu de Literatura (1973), Prêmio Pirandello, Prêmio David Cohen, Prêmio Laurence Olivier e o Prêmio Moer de Honra.
Pinter escreveu 24 roteiros de cinema. Com "The Go-Between", Inglaterra, 1969, dirigido por Joseph Losey, conquistou a Palma de Ouro em Cannes. "The Last Tycoon", dirigido por Elia Kazan, com roteiro de Harold Pinter, baseado em história de F.Scott Fitzgerald, traz elenco estelar, com Robert De Niro, Tony Curtis, Robert Mitchum, Jeanne Moreau e Jack Nicholson. O filme conta a história de um rígido produtor de cinema na Hollywood dos anos 30 e sua relação com uma mulher igualmente dura. Mas, talvez seu roteiro mais famoso seja "
The French Lieutenant's Woman", 1980, baseado no romance de John Fowles. O filme dirigido por Karel Reisz, que tem Maryl Streep e Jeremy Irons no elenco, recebeu cinco indicações para o Oscar em 1982 e rendeu o Globo de Ouro de melhor atriz a Meryl Streep. Seus roteiros ainda lhe renderam prêmios como o Urso de prata, do Festival de Cinema de Berlim em 1963, Prêmios Bafta em 1965 e 1971, Palma de Ouro do Festival de Cannes em 1971 e o Prêmio da Commonwealth em 1981.
Em 1973, Pinter obteve o prêmio Austríaco de Literatura Européia. Nesse mesmo ano foi eleito diretor da Associação de Teatro Nacional na Inglaterra e, em 1979, doutor honoris causa pela Universidade de Stirling.
Em dezembro de 2002 foi-lhe diagnosticado um câncer no esôfago e contra essa doença Harold Pinter tem lutado, sem tréguas e como melhor sabe, escrevendo. Uma das suas últimas criações literárias foi um poema publicado no jornal "
The Guardian", um poema sobre doença e sobre a morte. Pinter diz que a doença lhe trouxe uma maior consciência da morte e que agora a sua principal preocupação é "
simplesmente sobreviver. Permanecer. Permanecer aqui". E a nós só nos resta esperar que essa permanência seja pelo maior tempo possível. Não nos podemos dar ao luxo de perder alguém tão precioso num mundo cada vez sequioso de pessoas de caráter e capazes de defenderem os seus ideais até ao fim, mesmo, e acima de tudo, contra os mais poderosos e efêmeros seres que nos governam.
No dia 10 de dezembro, Harold Pinter não irá ao Konserthuset de Estocolmo para receber o prêmio Nobel de Literatura, pois encontra-se hospitalizado e seus médicos o impediram de viajar. Em seu lugar irá Stephen Page, seu editor e o presidente da editora Faber & Faber. Pinter, no entanto, gravou em Londres um discurso de aceitação do prêmio, onde atacou duramente os Estados Unidos. Para o dramaturgo, a política externa americana desde a Segunda Guerra Mundial foi feita de brutalidade, indiferença e mentira. Desafiando a saúde frágil, Pinter falou por mais de meia hora sobre dois teatros: o da ficção e o da política. Nos dois, diz Pinter, perseguir a verdade deve ser a meta. Na ficção a tarefa é de quem escreve; na política, de quem observa e age. Foi neste campo que Pinter atacou o poder americano. Para o dramaturgo os Estados Unidos massacraram, invadiram e mentiram nos últimos 60 anos, sob pretexto de fazer justiça e defender a democracia. Como exemplos, Pinter criticou a guerra do Iraque e as ditaduras militares em países como o Chile e o Brasil.