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Quarta-feira, Abril 19, 2006

Ela é um fenônemo editorial do mercado brasileiro nos últimos anos. Seu segredo está na narrativa, onde o tom intimista nos pega pelo braço e oferece uma prosa gostosa e contundente sobre amores, filhos, velhice, consumismo e coisas da vida. Entre a fantasia e a realidade, escreve sobre a solidão, o amor, a perda, os sonhos e o desencontro, através de uma linguagem simples e sutil, que prende a atenção do leitor.


Lya Luft nasceu em Santa Cruz do Sul (RS), em 15 de setembro de 1938. Descendente de alemães, disciplinada, rígida, persistente, e num interior em que mulheres enfrentavam as primeiras luzes com os destinos mais ou menos traçados. Boa aluna em redação, desde pequena se deleitava com os livros de seu pai. Tinha um diário e inventar personagens e brincar com as palavras a estimulavam.

Doce medo



Tenho medo da dor de tua ausência
que me queima por dentro.
E da ternura eu tenho medo, dessa
beleza das noites secretas
quando chegas
sempre como se fosse a única vez.

Tenho medo de que um dia queiras
cessar esse rio de águas ardentes
onde mais do que os corpos
tocam-se as almas,

anjos desatinados luzindo no breu.

Lya é formada em Pedagogia, Letras Anglo-Germânicas e com mestrados em Literatura Brasileira e Lingüística Aplicada. Trabalha desde os 20 anos como tradutora de alemão e inglês. Entre suas traduções destacamos as obras de autores consagrados como Virginia Woolf, Günter Grass, Thomas Mann e Doris Lessing. Atualmente ela escreve para uma coluna na revista "Veja".

Na época da faculdade lia poesias brasileira, alemã, portuguesa, inglesa e americana. Tomada pelo sabor desse gênero, começou a criar poemas e participou de um concurso, promovido pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), onde obteve o primeiro lugar, com a obra "Canções de Limiar".

As águas

Quando pensei que tinha chegado
era outra surpresa,
era mais uma curva no rio.

Quando calculei que tudo estava pago
havia ainda os juros
do tempo do esforço
do amor.

Quando achei que estava acabado
os caminhos se espalmaram
como dedos da mão
de um deus,
na torrente no vento
no sopro do universo.

Aos 21 anos, Lya se apaixonou por um irmão marista, o professor de português Celso Pedro Luft, ao vê-lo pela primeira vez numa prova de vestibular. O interesse não acabou na sala de aula: Celso largou a batina, casaram-se, tiveram três filhos e permaneceram casados por 22 anos.

Canção da ilha com farol



A vida era um mar certo demais
em torno desta pedra:
minha solidão inventava um tempo
além da divisão em horas e cansaços.

Mas tua mão inesperada
reacendeu o farol dos desassombros,
e nós, frutos da paixão em altos ramos,
agora somos o coração cercado
que estremece.

(Quando se abriram represas e comportas
das nossas vidas contidas,
nem vento ou lua nem os deuses
poderiam deter essas marés.)

A ficção entrou em sua vida dois anos depois de um acidente automobilístico, quase fatal, em 1979. Como teve uma visão mais próxima da morte, ela começou a fazer tudo que evitava.

Entre as publicações de Lya estão: "As Parceiras", seguindo com "A asa esquerda do anjo", "Reunião de família" (roteirizado por Caio Fernando Abreu e levado ao palco pelo diretor Luciano Alabarse), "Mulher no palco", "O quarto fechado", "Exílio", "Secreta mirada", "O ponto cego", "Histórias do tempo", "Mar de dentro" e o infantil, "Histórias de bruxa boa".

Isolabella

Quero levar-te àquela ilha
onde serás amado,
onde serás aceito
do jeito
que és.

Onde podes tirar a máscara
e deixar esplender
teu rosto.
Onde minha ternura
não se espantará
com teu grão de loucura;
onde minha paixão não diminuirá
com tua parcela de medos;
onde podes ser o que és,
naturalmente,
e mesmo assim
farei de ti
um rei.

Em 1985, Lya separou-se de Celso para viver com o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino, que faleceu três anos depois, de ataque no coração. A perda provocou-lhe um espasmo autobiográfico que contrariava sua tendência reservada: expôs sem qualquer censura a rotina de sua dor nos poemas de "O lado fatal".

Não digam que isso passa,
não digam que a vida continua,
que o tempo ajuda,
que afinal tenho filhos e amigos
e um trabalho a fazer.
Não me consolem dizendo que ele morreu cedo
mas morreu bem (quem não quereria uma morte como essa?)

Não digam que tenho livros a escrever
e viagens a realizar.
Não digam nada.

Vejo bem que o sol continua nascendo
nesta cidade de Porto Alegre
onde vim lamber a minha ferida escancarada.

Mas não me consolem
da minha dor, sei eu.

Lya passou quase seis anos sem escrever e em 1992 voltou a casar-se com o primeiro marido, Celso, que faleceu em 1995. Em apenas oito anos ela sofreu duas grandes perdas.

A produção literária foi retomada com o romance "A sentinela", que trouxe outra mulher em isolamento voluntário. O sucesso trouxe mais convites para palestras e fez com que o telefone tocasse sem parar na casa da escritora em Porto Alegre. Segundo ela, o casamento com Celso foi o fundamento da sua vida. Sua ajuda foi muito importante no crescimento de Lya como ser humano. Os dois companheiros lhe ensinaram questões de vida e sobre ela mesma.

Canção em campo vasto



Deixa-me amar-te com ternura, tanto
que nossas solidões se unam
e cada um falando em sua margem
possa escutar o próprio canto.

Deixa-me amar-te com loucura, ambos
cavalgando mares impossíveis
em frágeis barcos e insuficientes velas
pois disso se fará a nossa voz.

Deixa-me amar-te sem receio, pois
a solidão é um campo muito vasto
que não se deve atravessar a sós.

Compõem ainda sua obra, "O rio do meio", um misto de ficção e ensaio, considerada a melhor obra de ficção de 1996 pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo, "Perdas & Ganhos", um dos livros mais vendidos no Brasil em 2003 e "Pensar é transgredir".

Rosto com dois perfis

Já não procuro a palavra exata
que me pudesse explicar:
ando pelos contornos
onde todos os significados
são sutis, são mortais.

Não busco prender o momento
belo: quero vivê-lo sempre mais
com a intensidade que exige a vida,
com o desgarramento do salto
e da fulguração.

E me corto ao meio e me solto
de mim, duplo coração:
a que vive, a que narra,
a que se debate e a que voa
- na loucura que redime
da lucidez.

No seu último livro, "Para não dizer adeus", Lya marca o retorno à poesia. Entre poemas antigos e inéditos (em sua maioria), ela mostra algumas de suas várias faces e retoma, com extrema delicadeza, alguns dos principais temas de sua prosa: vida, amor, morte e as dificuldades em aceitar as perdas, as amarras que, muitas vezes, nos impedem de ousar e amadurecer.

Dizendo Adeus



Estou sempre dando adeus:
também ao desencontro e ao
desencanto.

Estou sempre me despedindo
do ponto de partida que me lança de si,
do porto de chegada que nunca é
aqui.

Estou sempre dizendo adeus:
até a Deus,
para o reencontrar em outra esquina
de adeuses.

Estarei sempre de partida,
até o momento de sermos deuses:
quando me fizeres dar adeus à solidão
e à sombra.

Hoje, Lya vive a fase da colheita. Costuma dizer que não precisa mais escolher marido, educar filhos pequenos, pagar prestação da casa própria e, tampouco escolher uma profissão e combater no mercado de trabalho. Ultrapassou os percalços, que tornam a juventude tensa e compromissada. Segundo ela, essa prestação de serviços já foi feita e, ao invés de se afligir com o ninho vazio e com a aposentadoria, as pessoas deveriam se orientar para curtir esta etapa como um privilégio. Se pode ler, passear, fazer novas amizades e reatar as velhas.



Fontes:

Revista Época
Extra classe-perfil
JB Online
Universia Brasil
Getty Images
1000 Imagens

Sonhado por Marcia, 21:12
Sonharam:




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"Entre o sono e o sonho
entre mim e o que em mim
é o que eu me suponho
corre um rio sem fim."
Fernando Pessoa

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:: Canção em segredo::
Dentro desta mulher
um anjo menino
brinca de ciranda na calçada
e tem fome de futuro.
Dentro desta mulher
uma criança se debruça na janela
vendo chegar o amor
e se julga imortal.

Dentro desta mulher
uma guerreira constrói sua vida
depois de parir filhos para o mundo.
Dentro desta mulher
outra mulher enterra o seu amor perdido
e mesmo assim espera.

(Dentro desta mulher
o mistério das coisas
finge dormir.)
Lya Luft

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