Domingo, Maio 27, 2007
Ele é uma das grandes vozes da poesia brasileira. Seu universo não é nada urbano, o que resulta, a princípio, no efeito de estranheza para quem vive em grandes cidades. O cenário da qual parte sua voz é o da floresta, do mato embrenhado, das extensões dos rios. A natureza é humanizada, a ponto de não a diferenciarmos do homem. O poeta se fixa nos bichos, nas plantas, nas águas e nas coisas "desimportantes", banalidades do cotidiano, para criar uma atmosfera mágica que cativa a sensibilidade de quem lê.

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em 19 de dezembro de 1916, no Beco da Marinha, beira do rio Cuiabá. Com oito anos foi para o colégio interno em Campo Grande e depois para o Rio de Janeiro. Não gostava de estudar até descobrir os livros do padre Antônio Vieira. Em 1941 formou-se em Direito, mas desistiu da profissão talvez por timidez e nervosismo. Filiou-se à Juventude Comunista. Preso durante uma pichação em pleno Estado Novo, livrou-se da cadeia quando a dona da pensão em que morava, pediu para qaue não levassem o menino que havia escrito um livro. O livro que não foi publicado, mas salvou-o da prisão foi " Nossa Senhora de Minha Escuridão".
"Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando."
Seu primeiro livro, " Poemas Concebidos sem Pecado", foi editado em 1937, mas somente muito depois alcançou o reconhecimento do público e a consagração da crítica. Depois do lançamento de " Face Imóvel", em 1942, passou um longo tempo sem fazer versos. Cuidou do chão e bichos da fazenda. Da terra surgiu o amor pelas coisas que outros poetas não se ocupam em sua poesia como: formigas, lesmas, lacraias, lagartos, rãs, sapos, caracóis, jacarés e as pedrinhas redondas.
Caminhada
Eu vinha aquela tarde pela terrra
fria de sapos...
O azul das pedras tinha cauda e canto.
De um sarã espreitava o verão um passarinho.
Caracóis passeavam com róseos casacos ao sol.
As mãos cresciam crespas para a água da ilha.
Começaram de mim a abrir roseiras bravas.
Com as crinas a fugir rodavam cavalos
investindo os orvalhos ainda em carne.
De meu rosto se viam ribeiros...
Limpando da casa-dos-ventos os limos
no ar minha voz pisava...
Manoel de Barros publicou o livro " Poesias", que, além de representar o início de um processo particular de compor, ainda indicavam as características da poética de vanguarda incorporadas nas composições: o verso funcional, a liberdade formal e técnicas surrealistas. Posteriormente vieram " Compêndio para Uso dos Pássaros", " Gramática Expositiva do Chão", " Matéria de Poesia", obras nas quais encontram-se os temas que passaram a ser definitivos: a fixação nas coisas, nos pássaros, no chão e no mundo vegetal.
"Eu não caminho para o fim, eu caminho para as origens."
Rompeu com o comunismo em 1945, quando ouviu seu líder, Luiz Carlos Prestes, anunciar apoio a Getúlio Vargas. Decidiu abandonar o Rio e foi para o Pantanal. Depois esteve na Bolívia, Peru e de lá foi para Nova York, onde morou um ano. Fez cursos sobre cinema e pintura no Museu de Arte Moderna. Pintores como Picasso, Chagall, Miró, Van Gogh e Braque reforçavam seu sentido de liberdade.
O Vidente
Primeiro o menino viu uma estrela pousada nas pétalas da noite
E foi contar para a turma.
A turma falou que o menino zoroava.
Logo o menino contou que viu o dia parado em cima de uma lata
Igual que um pássaro pousado sobre uma pedra.
Ele disse: dava a impressão que a lata amparava o dia.
A turma caçoou.
Mas o menino começou a apertar parafuso no vento.
A turma falou: mas como você pode apertar parafuso no vento
Se o vento nem tem organismo.
Mas o menino afirmou que o vento tinha organismo
E continuou a apertar parafuso no vento.
Voltou para o Brasil em 1961. Casou-se com Stella e a cumplicidade e telepatia com ela são tão amadurecidas que Manoel de Barros não a identifica como " alguém fora dele". Do casamento, tiveram três filhos: Martha, Pedro e João, que faleceu este ano em acidente com um avião monomotor, que caiu em uma fazenda do município de Rio Verde de Mato Grosso, na região norte de Mato Grosso do Sul.
"É no ínfimo que eu vejo a exuberância."
Em uma ocasião, no Pantanal, apresentaram-lhe João Guimarães Rosa, que visitava a região. Para Manoel de Barros, ele era um mito, mas mesmo assim, timidamente, foi ao seu encontro.Trocou com o autor algumas informações sobre bichos e palavras regionais. A conversa não foi muito longa, mas Barros viu que o mito era um ser amável e bom de conversa.
A ciência pode classificar
A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá
mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força
existem nos encantos de um sabiá.
Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: divinare.
Os sabiás divinam.
Na década de 80, quando publicou "Arranjos para Assobio", veio o reconhecimento por críticos e personalidades como o escritor e humoriasta Millôr Fernandes, que gostou tanto de seu estilo, que se empenhou pessoalmente em divulgá-lo através de suas colunas nas revistas "Veja", "Isto É" e no "Jornal do Brasil". Outros, como Fausto Wolff e Antônio Houaiss, fizeram o mesmo. Os intelectuais iniciaram, através de tanta recomendação, o conhecimento dos poemas que a Editora Civilização Brasileira publicou, sob o título de "Gramática expositiva do chão".
"Onde eu não estou, as palavras me acham."
Foram publicados também, entre outros, "Livro de Pré-Coisas", "O Guardador de Águas", "Concerto a Céu Aberto para Solos de Ave", "Livro de ignorãças", "Exercícios de ser criança", "O fazedor de amanhecer", "Tratado geral das grandezas do ínfimo", "Para encontrar o azul eu uso pássaros", "Memórias Inventadas - Infância", "Cantigas por um passarinho à toa", "Memórias inventadas I" e "Memórias inventadas II".
Infância
Coração preto gravado no muro amarelo.
A chuva fina pingando... pingando das árvores...
Um regador de bruços no canteiro.
Barquinhos de papel na água suja das sarjetas...
Baú de folha-de-flandres da avó no quarto de dormir.
Réstias de luz no capote preto do pai.
Maçã verde no prato.
Um peixe de azebre morrendo... morrendo, em
dezembro.
E a tarde exibindo os seus
Girassóis, aos bois.
Manoel de Barros é capaz de discorrer tanto sobre animais de sua região como sobre literatura, cinema ou artes plásticas, sempre compartilhando suas dúvidas e evitando o tom professoral. Talvez quem tenha melhor captado essa ambivalência foi o cineasta mato-grossense Joel Pizzini que dedicou ao poeta e sua obra, o curta-metragem "Caramujo flor", realizado em 1990. A dupla face de Manoel de Barros "moderno e arcaico, rural e urbano, rústico e sofisticado" aparece no filme desdobrada em dois "alter egos", um interpretado por Ney Matogrosso e o outro por Rubens Corrêa.
"Posso fugir de outros, mas não posso fugir de mim!"
Manoel de Barros recebeu vários prêmios pelas suas obras, entre eles, o Prêmio Orlando Dantas, conferido pela Academia Brasileira de Letras ao livro "Compêndio para uso dos pássaros", Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal e Prêmio Nacional de Poesias, pela obra "Gramática expositiva do chão" e Prêmio Jabuti de Poesias, com "Fazedor de Amanhecer".
"Poesia não é para compreender, mas para incorporar."
Em 2006, o poeta recebeu o Prêmio Nestlé de Literatura, considerado um dos mais importantes na área. O livro premiado foi "Poemas Rupestres", lançado pela Editora Record em 2004 e que concorreu com outras 136 obras. Foi a segunda vez que o poeta recebeu a premiação, que já tinha sido concedida em 1997 pelo "Livro sobre nada".
Prefiro as máquinas...
Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:
quando cheias de areia de formiga e musgo - elas
podem um dia milagrar de flores.
(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)
Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.
(Eu sou beato em violetas.)
Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!
(O abandono me protege.)
Com um sorriso largo, sua marca de bom humor e vitalidade, Manoel de Barros completou 90 anos. Prefere escrever a mão. "Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento". E já nasceram muitos livros. Diz que entrou na terceira infância. O jeito fácil de escrever faz da leitura uma brincadeira. Atualmente escreve a terceira parte de suas "Memórias Inventadas" e relê suas velhas preferências literárias. De tarde, como diz, bem na hora do crepúsculo do dia que emenda com o seu crepúsculo, ouve música erudita que desabrocha sua imaginação.
Fontes:
Fundação Manoel de Barros
Por trás das Letras
Artepaubrasil Virtual
Rascunho
Poemar
Getty Images
Sonhado por Marcia,
17:06
Sonharam:
Sábado, Maio 12, 2007
Queridos amigos, o Lendo e Sonhando está de volta. Agradeço a todos que enviaram e-mails, sempre com palavras de carinho e elogios ao blog.
No dia 28 de junho de 2006 perdi meu pai e assimilar essa perda foi muito difícil. Hoje me sinto melhor e aprendi a conviver com a dor e a saudade. O tempo é o melhor remédio para nos ensinar a enfrentar as adversidades da vida e encontrar meios para seguir em frente.

No mês em que comemoramos uma data tão importante, quero aproveitar essa volta e prestar uma homenagem a minha mãe que é o meu suporte e minha fortaleza.
Mãe, passamos por momentos difíceis, mas você, mesmo com todo sofrimento, se mostrou uma guerreira, uma mulher que não se deixa abater e que vira do avesso se for preciso, mas não perde nunca a coragem e a fé. Eu, durante todo esse processo de perda, não tive tanta força assim, mas a cada dia que te olhava e via o esforço que você fazia para não deixar que o sofrimento tomasse conta de você, eu adquiria forças e reagia. E assim, o tempo foi passando e agora estamos melhor, aceitando a vida e o curso natural de todas as coisas.
Quero dizer mais uma vez, o quanto você é importante para mim. Que Deus te ilumine e abençoe sempre. Que você continue sendo essa mulher que tem sempre uma palavra de otimismo, de esperança e força para todos aqueles que convivem ou se aproximam de você. Um beijo da sua filha e um Feliz Dia das Mães!
Mãe... São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras...
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer...
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!
E para todos amigos, amigas, mães, filhos e filhas, um beijo em seus corações.
Para aqueles cujas mães já partiram para outro plano, a certeza de que elas estão ao lado de nosso Pai maior, olhando por todos os seus filhos aqui na Terra.
Um carinho especial para alguém presente na minha vida durante todo esse tempo...te adoro...um beijo grande e obrigada, sempre!
Sonhado por Marcia,
12:26
Sonharam:
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