Quarta-feira, Junho 27, 2007
Meu primeiro contato com essa escritora foi através do blog de uma amiga em Portugal. Logo que li seus poemas senti vontade de saber mais sobre a sua obra. Em 2004 publiquei um post sobre ela e hoje, volto a publicar suas poesias, para que os visitantes do Lendo e Sonhando possam conhecer um pouco desse trabalho maravilhoso.
Maria do Rosário Pedreira nasceu em Lisboa, em 1959. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Estudos Franceses e Ingleses, pela Universidade Clássica de Lisboa (1981). Foi também professora de Português e Francês durante cinco anos, atividade que a influenciou decisivamente no sentido de assumir uma escrita para um público jovem. Ingressou posteriormente na carreira editorial e desempenha atualmente as funções de editora.
Sua poesia é de grande simplicidade e se distingue por um tom profundamente intimista, feito de palavras para repetir em voz baixa, segredadas em confidências cujos destinatários se pressentem a cada instante, através de pequenos sinais dispersos pelo tempo e pelo espaço das memórias que um dia lhes deram plena substância, e cujo fulgor persiste sempre, como uma cicatriz que ainda pode doer quando lhe tocamos.
Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o
serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.
Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.
Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã ― as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.
O meu amor não cabe num poema
O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria desse mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
os quartos que os gestos não preenchem.
O meu amor é maior que a palavra; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto -
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura a mão que protege a chama que estremece.
O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro
que acode os lábios com a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente os segredos; a combustão
laboriosa que evocqa, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.
O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta, nenhum poema
podia ser o chão a sua casa.
Como escritora, tem publicados vários trabalhos de ficção, poesias, ensaios, crônicas e literatura juvenil, procurando neste último gênero a transmissão de valores humanos e culturais. O seu romance "Alguns Homens, Duas Mulheres e Eu" constrói-se na vertigem de uma identidade perdida. Enquanto poeta publicou "A Casa e o Cheiro dos Livros" (1996), que institui a casa como o lugar feminino que acumula esperas, o cheiro dos livros, os restos do amor, os gatos que aí se resguardam da chuva. Nestes poemas, estão presentes os sinais do fim, que ao mesmo tempo são marcas de lembranças: a cama desfeita, retratos, livros interrompidos e perfumes. O cheiro dos livros é o cheiro do amado nos livros e em todos os objetos que ficaram para trás como testemunhas.
São horas de voltar
São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto
à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão
Em "O Canto do Vento nos Ciprestes" (2001), os poemas dão voz à mulher antes, depois ou para além do amor, mas nunca no momento amoroso propriamente dito. Não é de qualquer amor que se fala, mas de um amor concreto, de um amor único que nada tem a ver com os outros amores, meramente carnais. É nesse contexto que surge a morte, de tal modo presente que a autora já confessou que alguns leitores confundiram os poemas com elegias. É também uma poesia de ternura: o erotismo aqui não tem autonomia, e se a expressão "fazer amor" é recorrente, é porque em si mesma transporta um sentido de complemento face ao sentimento amoroso.
Neste outono
Neste outono, as pedras agasalham-se no cobertor
do musgo; e o barro bebe a água; e o vento viaja rente
aos muros. Mas eu, sem ti, deito-me gelada sobre a cama
e digo palavras que queimam a boca por dentro ― amor,
saudade, o teu nome e os nomes das coisas que tocaste
(e sobre as quais deixo crescer o pó, para que os dias
não se decalquem sempre de outros dias). Fecho os olhos
depois sobre a almofada e vejo o rosto branco da casa
desenhar-se à medida da tua ausência: as janelas abrem-se
para a solidão dos becos e há um farrapo de luz sobre a porta
a que ninguém virá bater. Pergunto-me onde anda a tua
sombra quando aqui não estás. E tenho medo. São estes
os solavancos de uma ida pequena ― bordar uma toalha
para logo a manchar de vinho, sentir a ferida na distância
do punhal, viver à espera de uma dor que há de chegar.
em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.
Em seu outro livro, "Nenhum Nome Depois" (2004), Maria do Rosário exprime uma forma de afetividade desmesurada perante a impossibilidade de fruição do amor como "sensação de tudo". O livro constitui-se com um quarteto, dividido em "Os Nomes Inúteis", "Os Nomes Interditos", "Os Nomes de Família" e "Nenhum Nome Depois". Menos contido do que as obras anteriores, este conjunto de poemas persiste em revelar a autora como um nome relevante da sua geração. A sua escrita nos aproxima de uma fragilidade emergente perante a instabilidade do Eu. Nessa revolução súbita com a qual o sujeito poético se confronta, vai reconstruindo o mundo.
Dorme, meu amor
Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega ― o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor ―
a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres, mas nada temas; as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me ― eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos
agora e sossega ― a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei no caminho. Por isso, dorme,
meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos ― a noite é um poema
que conheço de cor e vou contar-to até adormeceres.
Vieste como um barco carregado de vento
Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro
onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.
Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o frio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos
que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa
e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.
Para Maria do Rosário Pedreira, já distinguida com alguns prêmios literários , a casa pode ser considerada como um mundo onde se encerra tudo aquilo que vai perdurando, mesmo que sob a forma da memória, nostalgicamente. Entre outras publicações da autora estão: "O Clube das Chaves", "Detective Maravilhas", "A Ilha do Paraíso" e "A Biblioteca do Avô".
Fontes:
Maria do Rosário Pedreira
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Sonhado por Marcia,
23:38
Sonharam:
Segunda-feira, Junho 25, 2007
A amiga Carol me indicou para participar de uma lista de perguntas. Pedi um tempinho para responder e acabei levando um tempão...rsss, mas hoje finalmente ficou pronta.
SETE COISAS QUE TENHO QUE FAZER ANTES DE MORRER: 1- viver; 2 - viajar pelo mundo; 3 - novas amizades; 4 - alguns cursos; 5 - aprender a nadar; 6 - mergulhar em Fernando de Noronha; 7 - copiando da Nanda "descobrir a fórmula da juventude"...rss
SETE COISAS DE QUE MAIS GOSTO: 1 - minha família e meu amor; 2 - caminhar na praia; 3 - yoga; 4 - cinema; 5 - viajar; 6 - uma boa comida; 7 - ouvir música.
SETE PRAZERES FÚTEIS: 1 - comprar roupas que não vou usar; 2 - dormir tarde; 3 - colecionar revistas; 4 - guardar agendas; 5 - guardar embalagens de presentes; 6 - colecionar bruxinhas; 7 - um cochilo no sofá.
SETE COISAS QUE MAIS DIGO: 1 - entendeu; 2 - pode parar; 3 - que coisa; 4 - tá de brincadeira; 5 - com certeza; 6 - que tal; 7 - ah, tá.
SETE COISAS QUE FAÇO BEM: 1 - escrever; 2 - ginástica; 3 - carinho; 4 - gastar dinheiro; 5 - cuidar daqueles que gosto; 6 - ver vitrines; 7 - guardar segredos.
SETE COISAS QUE NÃO FAÇO: 1 - comida; 2 - discutir política e religião; 3 - dormir cedo; 4 - nadar; 5 - confidências; 6 - guardar mágoas; 7 - esportes radicais.
SETE COISAS QUE ME ENCANTAM: 1 - carinho; 2 - amor; 3 - educação; 4 - bom humor; 5 - gentileza; 6 - o mar; 7 - meu docinho.
SETE COISAS QUE ODEIO: 1 - falsidade; 2 - inveja; 3 - pessoas que não sabem ouvir; 4 - grosseria; 5 - fazer algo sob pressão; 6 - dirigir; 7 - mentira.
Sonhado por Marcia,
14:26
Sonharam:
Ele é uma das grandes vozes da poesia brasileira. Seu universo não é nada urbano, o que resulta, a princípio, no efeito de estranheza para quem vive em grandes cidades. O cenário da qual parte sua voz é o da floresta, do mato embrenhado, das extensões dos rios. A natureza é humanizada, a ponto de não a diferenciarmos do homem. O poeta se fixa nos bichos, nas plantas, nas águas e nas coisas "desimportantes", banalidades do cotidiano, para criar uma atmosfera mágica que cativa a sensibilidade de quem lê.

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em 19 de dezembro de 1916, no Beco da Marinha, beira do rio Cuiabá. Com oito anos foi para o colégio interno em Campo Grande e depois para o Rio de Janeiro. Não gostava de estudar até descobrir os livros do padre Antônio Vieira. Em 1941 formou-se em Direito, mas desistiu da profissão talvez por timidez e nervosismo. Filiou-se à Juventude Comunista. Preso durante uma pichação em pleno Estado Novo, livrou-se da cadeia quando a dona da pensão em que morava, pediu para que não levassem o menino que havia escrito um livro. O livro que não foi publicado, mas salvou-o da prisão foi " Nossa Senhora de Minha Escuridão".
"Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando."
Seu primeiro livro, " Poemas Concebidos sem Pecado", foi editado em 1937, mas somente muito depois alcançou o reconhecimento do público e a consagração da crítica. Depois do lançamento de " Face Imóvel", em 1942, passou um longo tempo sem fazer versos. Cuidou do chão e bichos da fazenda. Da terra surgiu o amor pelas coisas que outros poetas não se ocupam em sua poesia como: formigas, lesmas, lacraias, lagartos, rãs, sapos, caracóis, jacarés e as pedrinhas redondas.
Caminhada
Eu vinha aquela tarde pela terrra
fria de sapos...
O azul das pedras tinha cauda e canto.
De um sarã espreitava o verão um passarinho.
Caracóis passeavam com róseos casacos ao sol.
As mãos cresciam crespas para a água da ilha.
Começaram de mim a abrir roseiras bravas.
Com as crinas a fugir rodavam cavalos
investindo os orvalhos ainda em carne.
De meu rosto se viam ribeiros...
Limpando da casa-dos-ventos os limos
no ar minha voz pisava...
Manoel de Barros publicou o livro " Poesias", que, além de representar o início de um processo particular de compor, ainda indicavam as características da poética de vanguarda incorporadas nas composições: o verso funcional, a liberdade formal e técnicas surrealistas. Posteriormente vieram " Compêndio para Uso dos Pássaros", " Gramática Expositiva do Chão", " Matéria de Poesia", obras nas quais encontram-se os temas que passaram a ser definitivos: a fixação nas coisas, nos pássaros, no chão e no mundo vegetal.
"Eu não caminho para o fim, eu caminho para as origens."
Rompeu com o comunismo em 1945, quando ouviu seu líder, Luiz Carlos Prestes, anunciar apoio a Getúlio Vargas. Decidiu abandonar o Rio e foi para o Pantanal. Depois esteve na Bolívia, Peru e de lá foi para Nova York, onde morou um ano. Fez cursos sobre cinema e pintura no Museu de Arte Moderna. Pintores como Picasso, Chagall, Miró, Van Gogh e Braque reforçavam seu sentido de liberdade.
O Vidente
Primeiro o menino viu uma estrela pousada nas pétalas da noite
E foi contar para a turma.
A turma falou que o menino zoroava.
Logo o menino contou que viu o dia parado em cima de uma lata
Igual que um pássaro pousado sobre uma pedra.
Ele disse: dava a impressão que a lata amparava o dia.
A turma caçoou.
Mas o menino começou a apertar parafuso no vento.
A turma falou: mas como você pode apertar parafuso no vento
Se o vento nem tem organismo.
Mas o menino afirmou que o vento tinha organismo
E continuou a apertar parafuso no vento.
Voltou para o Brasil em 1961. Casou-se com Stella e a cumplicidade e telepatia com ela são tão amadurecidas que Manoel de Barros não a identifica como " alguém fora dele". Do casamento, tiveram três filhos: Martha, Pedro e João, que faleceu este ano em acidente com um avião monomotor, que caiu em uma fazenda do município de Rio Verde de Mato Grosso, na região norte de Mato Grosso do Sul.
"É no ínfimo que eu vejo a exuberância."
Em uma ocasião, no Pantanal, apresentaram-lhe João Guimarães Rosa, que visitava a região. Para Manoel de Barros, ele era um mito, mas mesmo assim, timidamente, foi ao seu encontro. Trocou com o autor algumas informações sobre bichos e palavras regionais. A conversa não foi muito longa, mas Barros viu que o mito era um ser amável e bom de conversa.
A ciência pode classificar
A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá
mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força
existem nos encantos de um sabiá.
Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: divinare.
Os sabiás divinam.
Na década de 80, quando publicou "Arranjos para Assobio", veio o reconhecimento por críticos e personalidades como o escritor e humoriasta Millôr Fernandes, que gostou tanto de seu estilo, que se empenhou pessoalmente em divulgá-lo através de suas colunas nas revistas "Veja", "Isto É" e no "Jornal do Brasil". Outros, como Fausto Wolff e Antônio Houaiss, fizeram o mesmo. Os intelectuais iniciaram, através de tanta recomendação, o conhecimento dos poemas que a Editora Civilização Brasileira publicou, sob o título de "Gramática expositiva do chão".
"Onde eu não estou, as palavras me acham."
Foram publicados também, entre outros, "Livro de Pré-Coisas", "O Guardador de Águas", "Concerto a Céu Aberto para Solos de Ave", "Livro de ignorãças", "Exercícios de ser criança", "O fazedor de amanhecer", "Tratado geral das grandezas do ínfimo", "Para encontrar o azul eu uso pássaros", "Memórias Inventadas - Infância", "Cantigas por um passarinho à toa", "Memórias inventadas I" e "Memórias inventadas II".
Infância
Coração preto gravado no muro amarelo.
A chuva fina pingando... pingando das árvores...
Um regador de bruços no canteiro.
Barquinhos de papel na água suja das sarjetas...
Baú de folha-de-flandres da avó no quarto de dormir.
Réstias de luz no capote preto do pai.
Maçã verde no prato.
Um peixe de azebre morrendo... morrendo, em
dezembro.
E a tarde exibindo os seus
Girassóis, aos bois.
Manoel de Barros é capaz de discorrer tanto sobre animais de sua região como sobre literatura, cinema ou artes plásticas, sempre compartilhando suas dúvidas e evitando o tom professoral. Talvez quem tenha melhor captado essa ambivalência foi o cineasta mato-grossense Joel Pizzini que dedicou ao poeta e sua obra, o curta-metragem "Caramujo flor", realizado em 1990. A dupla face de Manoel de Barros "moderno e arcaico, rural e urbano, rústico e sofisticado" aparece no filme desdobrada em dois "alter egos", um interpretado por Ney Matogrosso e o outro por Rubens Corrêa.
"Posso fugir de outros, mas não posso fugir de mim!"
Manoel de Barros recebeu vários prêmios pelas suas obras, entre eles, o Prêmio Orlando Dantas, conferido pela Academia Brasileira de Letras ao livro "Compêndio para uso dos pássaros", Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal e Prêmio Nacional de Poesias, pela obra "Gramática expositiva do chão" e Prêmio Jabuti de Poesias, com "Fazedor de Amanhecer".
"Poesia não é para compreender, mas para incorporar."
Em 2006, o poeta recebeu o Prêmio Nestlé de Literatura, considerado um dos mais importantes na área. O livro premiado foi "Poemas Rupestres", lançado pela Editora Record em 2004 e que concorreu com outras 136 obras. Foi a segunda vez que o poeta recebeu a premiação, que já tinha sido concedida em 1997 pelo "Livro sobre nada".
Prefiro as máquinas...
Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:
quando cheias de areia de formiga e musgo - elas
podem um dia milagrar de flores.
(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)
Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.
(Eu sou beato em violetas.)
Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!
(O abandono me protege.)
Com um sorriso largo, sua marca de bom humor e vitalidade, Manoel de Barros completou 90 anos. Prefere escrever a mão. "Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento". E já nasceram muitos livros. Diz que entrou na terceira infância. O jeito fácil de escrever faz da leitura uma brincadeira. Atualmente escreve a terceira parte de suas "Memórias Inventadas" e relê suas velhas preferências literárias. De tarde, como diz, bem na hora do crepúsculo do dia que emenda com o seu crepúsculo, ouve música erudita que desabrocha sua imaginação.
Fontes:
Fundação Manoel de Barros
Por trás das Letras
Artepaubrasil Virtual
Rascunho
Poemar
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Quero agradecer ao Magia Gifs
pelo destaque da semana.
Muito obrigada pelo carinho.
Sonhado por Marcia,
14:24
Sonharam:
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