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Terça-feira, Novembro 20, 2007

Ele foi eleito, em concurso organizado pelo Correio da Manhã, “Príncipe dos Poetas Brasileiros”. Na época heróica da campanha modernista, soube seguir diretrizes muito nítidas e conscientes, sem se deixar possuir pela tendência à exaltação nacionalista.


Guilherme de Andrade e Almeida, poeta e ensaísta, nasceu em 24 de julho de 1890, na cidade paulista de Campinas. Filho do jurista e professor de Direito Estevam de Almeida, estudou nos ginásios Culto à Ciência, de Campinas, e São Bento e N. Sra. do Carmo, de São Paulo. Cursou a Faculdade de Direito de São Paulo, onde colou grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, em 1912, e passou a exercer as atividades, tanto no ramo da advocacia como na área jornalística. Sua grande paixão estava mesmo nas letras, vindo a ser jornalista e colaborador do jornal "O Estado de São Paulo" por várias vezes.

Especializou-se, também, em Heráldica, tendo criado os brasões das cidades de São Paulo(SP), Petrópolis (RJ), Londrina (PR), Brasília (DF), Guaxupé (MG), Volta Redonda (RJ), Caconde, Iacanga e Embu (SP).


Flor do Asfalto



Flor do asfalto, encantada flor de seda,
sugestão de um crepúsculo de outono,
de uma folha que cai, tonta de sono,
riscando a solidão de uma alameda...

Trazes nos olhos a melancolia
das longas perspectivas paralelas,
das avenidas outonais, daquelas
ruas cheias de folhas amarelas
sob um silêncio de tapeçaria...

Em tua voz nervosa tumultua
essa voz de folhagens desbotadas,
quando choram ao longo das calçadas,
simétricas, iguais e abandonadas,
as árvores tristíssimas da rua!

Flor da cidade, em teu perfume existe
Qualquer coisa que lembra folhas mortas,
sombras de pôr de sol, árvores tortas,
pela rua calada em que recortas
tua silhueta extravagante e triste...

Flor de volúpia, flor de mocidade,
teu vulto, penetrante como um gume,
passa e, passando, como que resume
no olhar, na voz, no gesto e no perfume,
a vida singular desta cidade!

Em 1917 fez sua estréia literária com a publicação de "Nós". Depois foram publicados mais quatro livros: "A Dança das Horas" (1919); "Messidor" (1919); "A suave colheita", "Livro de Horas de Sóror Dolorosa" (1920) ; "Era uma vez..." (1922). Sobre os livros, Manuel Bandeira referiu-se assim: "Todos cinco pertencentes ao clima parnasiano-simbolista, todos cinco revelando um habilíssimo artista do verso, que, com mais fundamento ainda do que Bilac, poderia dizer que imita o ourives quando escreve". O motivo de tantos elogios não foi em vão. Isso porque Guilherme de Almeida foi um sonetista exímio que possuía um estilo bem pessoal, tratava o verso com extrema habilidade e, ao mesmo tempo, dava liberdade às imagens.

Depois desses livros, iniciou a fase modernista. Em 1922 participou da Semana de Arte Moderna, fundando depois a revista "Klaxon", a principal revista dos modernistas. Viajou pelo país e fez conferências e palestras nas quais defendeu e divulgou os princípios da renovação artística e estética do modernismo. No ano de 1924 publicou a obra "A Flauta que Eu Perdi - Canções Gregas". Sua produção nessa época concentrou-se em três livros publicados em 1925: "Encantamento", "Meu" e "Raça".

Nós

Fico - deixas-me velho. Moça e bela,
partes. Estes gerânios encarnados,
que na janela vivem debruçados,
vão morrer debruçados na janela.

E o piano, o teu canário tagarela,
a lâmpada, o divã, os cortinados:
- "Que é feito dela?" - indagarão - coitados!
E os amigos dirão: - "Que é feito dela?"

Parte! E se, olhando atrás, da extrema curva
da estrada, vires, esbatida e turva,
tremer a alvura dos cabelos meus;

irás pensando, pelo teu caminho,
que essa pobre cabeça de velhinho
é um lenço branco que te diz adeus!

Em 1928 entrou para a Academia Paulista de Letras, onde ocupou a cadeira que pertencera a seu pai. Dois anos depois, foi eleito para ocupar a Cadeira nº. 15, na sucessão de Amadeu Amaral, na Academia Brasileira de Letras.

Com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, Guilherme de Almeida, defensor da causa constitucionalista, alistou-se como soldado na revolução de 1932. Devido a esse ato, foi exilado por oito meses em Portugal, onde foi recebido como herói e como um dos maiores poetas da língua.

Harmonia Velha



O teu beijo resume
Todas as sensações dos meus sentidos
A cor, o gosto, o tato, a música, o perfume
Dos teus lábios acesos e estendidos
Fazem a escala ardente com que acordas o fauno encantador
Que, na lira sensual de cinco cordas,
Tange a canção do amor!

E o tato mais vibrante,
O sabor mais sutil, a cor mais louca,
O perfume mais doido, o som mais provocante
Moram na flor triunfal da tua boca!
Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;
Flor de alma, que é também
Um acorde em minha lira,
Que é meu mal e é meu bem...

Se uma emoção estranha
o gosto de uma fruta, a luz de um poente -
chega a mim, não sei de onde, e bruscamente ganha
qualquer sentido meu, é a ti somente
que ouço, ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo...
E acabo de pensar
Que qualquer emoção vem de teu beijo
Que anda disperso no ar...

Na Europa, fez uma série de viagens até retornar ao Brasil, onde continuou com sua carreira de jornalista, além de escrever e traduzir textos de escritores famosos (sobretudo franceses). Traduziu, entre outros, os poetas Paul Géraldy, Rabindranath Tagore, Charles Baudelaire, Sófocles e Jean Paul Sartre.

Guilherme de Almeida publicou também: "Do sentimento nacionalista na poesia brasileira", ensaio (1926); "Ritmo, elemento de expressão", ensaio (1926); "Simplicidade" (1929); "Você" (1931); "Poemas escolhidos" (1931); "Acaso", poesia (1938); "Poesia vária" (1947); "Toda a poesia "(1953).

Humorismo



Sossego macio da tarde.
Um sol cansado
passa pelo rosto suado
uma nuvenzinha alva como um lenço
para enxugar as primeiras estrelas.
Silêncio.

E o sol vai caminhando sobre os montes tranqüilos
vai cochilando. E de repente
tropeça e cai redondamente
sob a pateada dos sapos e a vaia dos grilos.

A sua entrada na Casa de Machado de Assis significou a abertura das portas aos modernistas. Formou, com Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira, Menotti del Picchia e Alceu Amoroso Lima, o grupo dos que lideraram a renovação da Academia.

No ano de 1936, ano de seu encontro com o cônsul japonês no Brasil, Kozo Ichige, Guilherme de Almeida começou a escrever "haicais". Em 1937, publicou o artigo "Os Meus Haicais", em que sistematizava as suas idéias sobre o que seria o haicai em português: um terceto com 5-7-5 sílabas, dotado de título, sendo que o primeiro verso rima com o terceiro, além de contar com uma rima interna no segundo verso, entre a segunda e a sétima sílabas. Seus haicais foram publicados no livro "Poesia Vária", de 1947. Guilherme de Almeida foi um dos fundadores e primeiro presidente da Aliança Cultural Brasil-Japão.



O Pensamento

O ar. A folha. A fuga.
No lago, um círculo vago.
No rosto, uma ruga.


Hora de ter saudade

Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)


Infância

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".


Cigarra

Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.


Consolo

A noite chorou
a bolha em que, sobre a folha,
o sol despertou.


Chuva de primavera
Vê como se atraem
nos fios os pingos frios!
E juntam-se. E caem.


Noturno

Na cidade, a lua:
a jóia branca que bóia
na lama da rua.


Os andaimes

Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.


Tristeza


Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?


Pescaria

Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

Janeiro


Jasmineiro em flor.
Ciranda o luar na varanda.
Cheiro de calor.

Guilherme de Almeida faleceu em 11 de julho de 1969, em São Paulo, sendo sepultado no Obelisco e Mausoléu do Soldado Constitucionalista, no Parque Ibirapuera.

Fontes:

Guilherme de Almeida
Mundo Cultural
Amigos do Livro

Sonhado por Marcia, 16:40
Sonharam:




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Às vezes
Às vezes, subitamente,
a poesia te visita.
Pura.
Infinitamente pura.
Como uma rosa.
Melhor ainda:
como a idéia de rosa.
Emílio Guimarães Moura
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Faz uma chave...

Faz uma chave do teu coração
E empresta-me por algum tempo
Vou entrar em silêncio, enquanto dormes
E fazer preces para que acordes sorrindo

Recitarei versos para deixar tua alma cheia de poesia
E depois narrarei a escalação do teu time favorito de cor
Se preferires, revelo a receita do doce que tanto gostas
E se não quiseres me ouvir mais, farei um silêncio de pedra

Mas dá-me a chave para que penetres a tua casa
Para que possa visitar vestindo apenas flores
O lugar onde teus sonhos são cultivados

Não tranques a porta por dentro, deixe-me
entrar sem bater, e depois esqueçamos dessa chave...
Para que não te feches mais, embora já faça parte de ti.

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